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Passeio na orla do rio do Prata

No rio do Prata, o que primeiro chama a atenção do visitante é o ruído manso das águas. Elas formam ondas permanentes, tranquilas nos dias calmos, mas que se encrespam, se encorpam nos dias de tormenta. A tonalidade dá sempre a sensação de que varia pouco: quando o céu está limpo e o sol despeja uma luz branca sobre suas águas, o Prata exibe uma coloração verde limosa, monótona; mas, subitamente, para espanto do observador, insinua-se uma coloração avermelhada, barrenta, que se desfaz em alguns instantes, sob a espuma que se forma, abrupta, à orla.
Às vezes, quando o observador espicha o olhar enxerga, a meia distância, espumas que o vento forma e que arremetem, indóceis, em direção às margens. Naquele momento em que o céu exibe azul indevassável, a linha do horizonte assume uma discreta coloração azulada: na média, porém, o que há é a coloração metálica, plúmbea, que flerta pouco com outros tons. Diverge – e muito – com o espetáculo de cores da Baía de Todos os Santos, na porção tropical do planeta.
As pedras que o margeiam – e que tentam se insinuar rio adentro – são acinzentadas, melancólicas, mas exibem uma pigmentação brilhante, chamativa. Há, ao longo da orla, escassas faixas de areia, aonde se concentram crianças excitadas pelo contato com a natureza, jovens que arriscam o vôlei e o futevôlei, preparadores que condicionam gente que persevera, casais, famílias que proseiam, despreocupadas, movidas a chimarrão.
Desde a Ciudad Vieja e ao longo de toda a orla de Montevidéu há, à disposição, uma larga e bem-cuidada calçada. Ao longo dela se distribuem incontáveis pescadores, que aventuram alguma coisa no Prata: boa parte empunha equipamentos sofisticados e, enquanto aguarda o peixe, sorve chimarrão, fuma ou arruma apetrechos.

Ciudad Vieja

No verão, o sol protagoniza um espetáculo que só finda depois das oito da noite. O trânsito costuma ser intenso nos horários de pico, mas o pedestre pode ouvir as águas rumorejando, mansas, nos intervalos em que os motores não roncam. Ao longo da avenida os prédios baixos permitem contemplar ao fundo a Ciudad Vieja, com as cúpulas das igrejas e os imponentes telhados dos casarões de estilo sóbrio. Entre elas destaca-se a Igreja dos Ingleses, cinzenta.
Ladeiras curtas e estreitas conectam a orla com o centro histórico de Montevidéu. Agradáveis, silenciosas, repletas de plátanos, essas ruas abrigam antigos casarões e os novíssimos espigões para a classe média que comprou imóvel novo nos últimos anos. À margem do Prata predominam prédios de altura média, de tijolos vermelhos, aparentes.
Nas imediações da Ciudad Vieja fica o porto, do outro lado da península. O movimento é frenético: pelo Prata se veem imensos cargueiros que manobram, pesados, lentos, imponentes, com sua parafernália mecânica, tomando o rumo do oceano Atlântico. Ou aqueles que vão fazer escala em Buenos Aires e que, aos poucos, começam a desaparecer na poeira d’água que se adensa com a distância, varejando as entranhas da América do Sul.

Farol

No verão, a orla de Montevidéu é uma sucessão de vistas privilegiadas para acompanhar o espetáculo do pôr-do-sol. Nenhum deles, porém, se compara à experiência visual – e, sobretudo, estética – de enxergar o poente como no farol de Punta Brava. O acesso é por uma via margeada por rochas extensas. Percorrendo-a, depara-se mais uma vez com o Prata em uma área ampla, coberta por uma areia encardida, na qual se destaca o farol. É o ponto mais ao sul de Montevidéu.
A construção é antiga e o acesso ao alto se dá por uma tortuosa e estreita escada que exige preparo físico. A recompensa, porém, é incomensurável, indescritível: durante intermináveis minutos o sol mergulha como uma esfera de cobre, incandescente, vívida, tangendo fiapos de nuvens. Passa das oito e meia, a cidade se acende, mas o espetáculo principal é o astro que mergulha nas águas escuras do Prata.
Quando o rio começa a absorver a esfera solar vem a surpresa: quem assiste do alto do farol, espantando, tem a ilusão de que o sol mergulha quadrado no horizonte. Dali, o silêncio só é quebrado pelos longínquos sons urbanos. Espetáculo breve, fugaz, mas que produz impacto imenso sobre quem o testemunha.

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