sexta-feira, 17 de março de 2017

Santiago do Iguape apresenta diversos atrativos

Aqueles que desejam conhecer uma típica comunidade de pescadores e, sobretudo, encantar-se com as belezas naturais do Recôncavo baiano, não podem deixar de conhecer Santiago do Iguape. Distrito de Cachoeira, a localidade fica no quilômetro 20 da BA 880, rodovia que se articula com a BA 420, que liga as emblemáticas Cachoeira e Santo Amaro. Ali, a natureza caprichosa que teceu a Baía de Todos os Santos provoca uma irreprimível sensação de êxtase nos visitantes. Tudo é majestoso, divino.
A entrada de Santiago do Iguape fica num aclive suave da BA 880. A partir dali o visitante envereda por uma rua estreita, empoeirada, calçada com paralelepípedos luzidios e repleta de moradores à janela. É o cenário típico da comunidade numa ensolarada tarde de sábado. Ao longo da rua veem-se mercadinhos, muitos bares e pequenas lojas.
Depois de serpentear por algumas curvas, o visitante chega à praça principal da comunidade. Ali os espaços são mais amplos e, no entorno, há quadra de esportes, bares, restaurantes e mercadinhos. O que mais chama a atenção, porém, é o secular templo católico ali perto.
Contrariando a convenção – as fachadas de templos católicos sempre se voltam para as praças – a majestosa igreja de São Tiago, de arquitetura sóbria, mostra-se para o lagamar, do outro lado; para a via curta que se liga à praça voltam-se os imponentes fundos da igreja, que à tarde projeta uma sombra úmida, fresca, sobre o calçamento.

Lagamar

Enveredando pela rua lateral do templo, o visitante entende o porquê da opção: o lagamar estende-se pelas cercanias, manso, produzindo uma indescritível sensação visual; limitando-o, a vívida vegetação de mangue agita-se ao vento; e, mais além, florestas esparsas de coqueiros e dendezeiros contracenam com as condensações da Mata Atlântica, reluzentes à luz do sol de sábado.
O mangue e a água estendem seus limites ao sabor das marés: aqui, o mangue avança estendendo o tapete escuro e viscoso de lama; ali, o lagamar arroja-se, indo beijar as pedras e balançar suavemente as embarcações dos pescadores. A água escura beija a muralha do atracadouro infinitamente.
Espichando o olhar, o visitante extasia-se com a geografia recortada daquela condensação de águas da Baía de Todos os Santos e do rio Paraguaçu: a vegetação faz curvas caprichosas, insinuando-se aqui, retraindo-se ali; mais além, vê-se a margem oposta do braço de mar, diáfana, se diluindo no azul da tarde de sábado.
A água do lagamar se eriça mansamente, obedecendo, dócil, aos ventos que sopram da entrada distante da baía. A cor das águas oscila de maneira mágica, ajustando-se à moldura do céu: as nuvens carregadas emprestam-lhe um tom acinzentado; céu limpo torna a água azul, transparente, festiva para os olhos; e nuvens acidentais dão aquela tonalidade esverdeada, fantástica, que varia a cada instante.

Igreja

É por isso que se entende, então, a opção da fachada da igreja voltada para o lagamar: a posição do templo serve como reverência e moldura. Reverência, claro, ao lagamar e à natureza exuberante. Mas também moldura. É que de diversos outros locais das cercanias se vê a igreja, imponente e bela, contrastando, branca, com o verde da vegetação e a cor variante do lagamar.
Descontando plantas débeis que crescem na parte superior da fachada e a pintura que se desfaz aqui ou ali, a igreja apresenta um ar agradável. Sobretudo porque os cimos das torres são enfeitados com pedaços de louça que refletem, fulgurantes, o sol do Recôncavo.
Como símbolo do sincretismo, na beira do atracadouro em frente à igreja, há uma Iemanjá em miniatura para a devoção dos pescadores. Todos os anos, acontece a tradicional celebração em 2 de fevereiro, que constitui uma das principais datas festivas da comunidade.

Pescadores

Dezenas de canoas estreitas e compridas repousam às margens do lagamar, balançando ao sabor das ondas curtas, intermitentes. Apetrechos de pesca repousam nas canoas: gaiolas para a pesca do siri, remos e redes. Um pescador retira, cuidadoso, o pequeno motor que impulsiona sua embarcação. Ali perto, como resquício da cultura da cana-de-açúcar, resiste a chaminé quadrada de um engenho desativado.
Mas é a pesca a principal atividade econômica do distrito, além do turismo incipiente. Ali aporta gente de Cachoeira, Santo Amaro, Feira de Santana e até de Salvador para comprar pescado. Além do siri, outros produtos comuns são o robalo e o camarão.
O turista pode experimentar os produtos lá mesmo. Uma porção de camarão fresco, ao alho e óleo, sai por R$ 25. Entre uma garfada e outra é possível seguir se extasiando com a paisagem ao redor. A brisa suave, o canto melodioso dos pássaros e a luminosidade da tarde atam o turista àquele paraíso.
Prenhe de beleza, o Recôncavo constitui uma fantástica alternativa de turismo. Além da natureza privilegiada, há o patrimônio arquitetônico, a culinária, as danças e os cantos, a História e, sobretudo, o povo alegre e hospitaleiro.

Belezas e encantos de São Francisco do Paraguaçu

O viajante que segue pela BA 420 – a que liga Santo Amaro a Cachoeira – e se depara com a entrada da BA 880 não imagina as belezas que a rodovia reserva ao longo dos seus 25 quilômetros. Ali se vê uma placa indicando três destinos: Opalma, logo adiante, a sete quilômetros; o distrito de Santiago do Iguape, a 20 quilômetros; e, no fim do percurso, a vila de São Francisco do Paraguaçu. As três comunidades integram o município de Cachoeira.
No trecho inicial nada promete uma paisagem exuberante: longas planícies desmatadas sinalizam que, por ali, já se plantou muita cana-de-açúcar. Hoje, não existem cultivos aparentes e ervas daninhas se multiplicam. O gado escasso consome o pasto exíguo, sob um sol implacável. As raras árvores daqueles ermos são insuficientes para afastar o calor rijo.
À medida que envereda pela BA 088, o viajante vai percebendo mudanças graduais na paisagem: para além da planície devastada, surgem morros recobertos pela Mata Atlântica, que se sucedem numa arredondada muralha vegetal. Nesse momento a rodovia reta e plana já cedeu lugar a curvas caprichosas e declives acentuados. A partir daí, o paraíso começa a se descortinar.
À direita dos viajantes surgem as primeiras florestas de palmáceas: centenas – possivelmente milhares – de dendezeiros imponentes sucedem-se; e incontáveis coqueiros sacudidos pelo vento que sopra da Baía de Todos os Santos; o vento e o reflexo da luz do sol sobre a vegetação pujante produzem uma sensação visual indescritível.

Lagamar e pescadores

Mais adiante, se vê o lagamar – as águas do Paraguaçu e da Baía de Todos os Santos condensadas – avançando sobre o continente. A posição do sol e das nuvens vai provocando efeitos mágicos: ora a água insinua-se cor de cobre; ora assume uma tonalidade esverdeada para, com o céu limpo, exibir-se azul, cristalina, diáfana.
Duas ou três ruas estreitas, calçadas e íngremes sinalizam para o viajante que ele chegou a São Francisco do Paraguaçu. Enveredando por uma delas, chega-se à praça São José, onde se veem idosas debruçadas nas janelas e moradores aproveitando as sombras sob as árvores. Ali, há biblioteca e serviço de som comunitário.
Quem envereda pelas ruas estreitas logo se depara com o lagamar. À distância, se veem canoas movidas a motor cortando as águas; às margens, pescadores dedicam-se às ocupações do ofício: consertam e recolhem redes, retiram os pequenos motores e movem suas canoas com perícia. Garotos diligentes auxiliam os adultos na empreitada.

Convento de Santo Antônio

No minúsculo porto da localidade o visitante trava o primeiro contato com o Convento de Santo Antônio. À distância, espanta pelo porte: a imensa construção que destoa da vila miúda, disputando atenções com a natureza exuberante do lagamar defronte.
Mas, aos poucos, o encanto se mistura a uma sensação de decepção. As fachadas se decompõem e, do salão do mar, imponente construção onde escravos eram confinados, resta pouco mais que as muralhas corroídas pelo tempo. A crosta de limo, que se acumula no alto das paredes, contrasta vivamente com o azul festivo do céu. Informações apontam que o convento se deteriora desde meados do século XIX.
Na igreja, pássaros fazem ninho no nicho da fachada; a erva daninha viceja no cimo; rachaduras vão se multiplicando e o piso se desintegra aos poucos; a relva se tornou mato ressequido. O sino verde, as portas altas e as janelas envidraçadas exibem uma tonalidade esbranquiçada. Ao menos, resta a pujança da natureza.
O silêncio só é quebrado pelo pio vivo dos pardais; os ventos varrem as nuvens, descortinando o céu azul, puríssimo; e hã o intermitente e mágico murmúrio das águas acinzentadas que vão acariciar as muralhas maciças. À direita do atracadouro, a vegetação recua formando um semicírculo quase perfeito, até se perder numa curva abrupta.

Comunidade

À esquerda do atracadouro, nativos bebem cerveja em barracas e crianças se divertem na prainha estreita. Uns poucos turistas soteropolitanos encomendam tira-gostos. Daquele trecho veem-se os coqueiros, onipresentes, que refletem vivamente a luz do sol. Há também reluzentes condensações de Mata Atlântica que comprimem a vila de pescadores contra o lagamar.
Eventuais turistas e, sobretudo, a atividade pesqueira, impulsionam a economia da comunidade. Pelas vielas estreitas que se arrojam morros acima é possível ver homens negros e pardos, de pele curtida, manuseando redes e apetrechos de pesca; grupos aproveitam a tarde de sábado conversando sob as amendoeiras vistosas; e mulheres se debruçam nas janelas, apreciando o dia que escorre manso.
São Francisco do Paraguaçu integra o circuito quilombola do fundo da Baía de Todos os Santos. Aquela região o colonizador português ocupou desde o século XVI, expulsando os indígenas e dedicando-se à produção de açúcar, movida pela mão de obra escrava. Apesar da contínua ação humana, ali a natureza ainda se conserva majestosa, exuberante.
É pena apenas que o Convento de Santo Antônio se decomponha, abandonado.

A rica diversidade da rodovia Feira-Santo Amaro

Feira de Santana é um município que exibe a peculiaridade de seu território abrigar dois biomas: a Caatinga, que se irradia a partir daqui sertões afora, alcançando lonjuras no Piauí e no Ceará; e a Mata Atlântica, que caracteriza o Recôncavo próximo e se insinua em direção ao Sudeste, estreitando-se pelo litoral infindável. Biomas tão distintos produziram, ao longo do tempo, formas de organização da atividade agropecuária muito específicas. Essa realidade é visível até mesmo numa despreocupada viagem de passeio.
No sertão semiárido, a vocação econômica mais evidente é a pecuária bovina. Ela se distribui por largas extensões de terra, privilegiando espaços onde as fontes hídricas são mais abundantes. Eventuais roças de mandioca, feijão e milho se insinuam na paisagem, aonde predomina o som dos chocalhos dos animais que pastam em extensas planícies.
Aqueles que se deslocam em direção ao Recôncavo, ao sul, se deparam com cenário bem diverso. É o caso de quem se aventura em direção a Santo Amaro, trocando a pista dupla da BR 324 pela BA 084, ali na entrada para Conceição do Jacuípe. O trecho surpreende pela diversidade econômica, que destoa da monocultura da cana-de-açúcar às margens da BR 324.
O asfalto da rodovia é áspero e, em alguns trechos, exibe crateras que exigem atenção do motorista. Não existe acostamento e placas de sinalização alertam para os perigos, que são muito visíveis: curvas acentuadas e trechos íngremes que serpenteiam abismos de dezenas de metros. É provável que seja uma das antigas estradas carroçáveis ligando a Feira de Santana ao Recôncavo. Depois, ganhou pavimentação asfáltica e um código de rodovia.

Múltiplas atividades

Nos primeiros quilômetros o viajante se extasia com a variedade de árvores frutíferas: jaqueiras imponentes, imensas mangueiras, cajueiros vigorosos, bananeiras verdejantes e longilíneos coqueiros que balançam ao sabor dos ventos. As sombras densas das árvores tornam a temperatura amena no entorno.
À sequência de pomares se veem, também, inúmeras hortas irrigadas nas quais se cultivam hortaliças, como cebolinha, alface e coentro, que vão abastecer mercados consumidores de Feira de Santana e até de Salvador. Por ali se vê com facilidade agricultores atarefados, debruçados sobre seus cultivos.
A intensa atividade econômica empresta dinamismo à pequena Oliveira dos Campinhos, alguns quilômetros mais adiante. Restaurantes, mercadinhos e pequenas lojas, que oferecem produtos diversos, surpreendem o viajante. Mas ali também resiste o bucolismo da vida rural: existe a igreja, a praça tranquila e, distribuídas nas cercanias da comunidade, imponentes residências rurais, resquícios arquitetônicos do início do século XX.
Mais adiante começam as curvas: a estrada volteia vales, circunda morros e propicia ao viajante cenários impressionantes, paisagens fantásticas que se estendem até o horizonte longínquo. Os trechos menos inclinados são pontuados por pastagens nas quais circulam rebanhos de gado nelore, predominante na região.

Povoações

À medida que Santo Amaro se aproxima, prevalece uma planície monótona, típica das áreas de cultivo da cana-de-açúcar. Mas ali se sucedem pastagens, com raras árvores, sob cujas sombras bois e cavalos resguardam-se do sol implacável do meio-dia. Contrastando com a pecuária, veem-se pequenos cultivos de mandioca em propriedades de agricultores pobres. Adiante, ressurgem pomares.
Povoados surgem e, neles, a comunidade negra vende frutas ou aguarda clientes nas biroscas às margens da rodovia. Há sempre mesas e cadeiras plásticas, amarelas ou brancas, além de banners de cervejarias multicoloridos. Algumas placas substituem cardápios, anunciando caldo de sururu, maniçoba ou feijoada, sempre servida aos sábados.
Mais adiante, numa bifurcação após pontes sobre rios estreitos, dobra-se à direita, onde começa a BA 510 em direção às comunidades Pedras, Vitória e Quilômetro 25. São povoações minúsculas, com ruas estreitas, íngremes, calçadas com paralelepípedos recobertos pela poeira. As casas são hermeticamente fechadas, em sua maioria, por portões metálicos inteiriços ou com grades.
Nativos amontoam-se nos bares: bebem cerveja, conversam aos berros em torno de mesas de sinuca e, sobretudo, ouvem os clássicos do arrocha. Placas anunciam a venda de “geladinho” e “geladão”; jovens dedicam-se ao ofício de barbeiro no hall de casas modestas. Não se veem brancos nessas comunidades.

Rica Diversidade

Nas vertiginosas descidas que antecedem a chegada à BA 420, entre Cachoeira e Santo Amaro, sucedem-se bambuzais ressequidos. Vê-se também novas roças de mandioca e a miséria exposta em casas de varas e barro batido. Mulheres se mexem, com panelas, atarefadas no preparo do almoço. Garotos galopam, lépidos, sobre o lombo de jumentos e cavalos. Chega-se, enfim, à BA 420, que une duas das mais emblemáticas cidades da região.
É rica a diversidade econômica do Recôncavo. Isso também contribui para forjar as inúmeras dimensões da efervescente cultura local. Numa despretensiosa viagem, examinando a rodovia, veem-se cenários muito distintos numa extensão de escassos 22 quilômetros. A Feira de Santana – fervilhante meca comercial da região – também é parte dessa riqueza, fazendo circular a produção do entorno.
Vale a pena viajar pelo Recôncavo e conhecer as belezas de um dos mais especiais pedaços do Brasil.

Funcionário público é espécie em extinção

Pouca gente comenta, mas o serviço público no Brasil vive um momento de inflexão radical. Talvez as transformações sejam as mais drásticas desde a década de 1930, quando as reformas tocadas pelo então presidente Getúlio Vargas ajudaram a configurar muito do que se conhece do serviço público atualmente. De qualquer forma, as mudanças são as mais intensas desde a Constituição de 1988, quando o Brasil aspirava ares democráticos e renovadores.
Recentemente, o primeiro impulso transformador foi dado pela demonização dos funcionários públicos. Pelo visto, esta etapa está quase concluída. Incompetência, salários vultosos, vantagens nababescas, ineficiência e inépcia são rótulos que, incessantemente, são colados no funcionalismo público.
Note-se que o conjunto dos servidores públicos, nessas vituperações, paga pelos privilegiados concedidos a castas específicas. Mas, obviamente, não se trata de desinformação: o movimento é deliberado. O passo seguinte, conforme já se percebe, é avançar sobre os direitos desses servidores.
Há quem apoie a ofensiva, movido pela crença ingênua que caminhamos para um Estado mínimo com o máximo de eficiência, conforme apregoa a doutrina liberal. Esses se encaixam na condição de inocentes úteis: movem-se iludidos para legitimar outros interesses, nada nobres, que as manobras recentes ajudam a viabilizar.

Precarização

A precarização do serviço público não visa, na verdade, reduzir o tamanho do Estado. Visa substituir o modelo atual por outro, mais rentável em termos partidários, cujos primeiros sinais já são visíveis. A ideia fundamental é trocar o modelo do servidor estável, efetivo, pela gestão terceirizada e pelos vínculos precários e transitórios de trabalho. Será o paraíso do toma-lá-dá-cá.
No Brasil, quem vence eleição não deseja encontrar servidores estáveis, qualificados, capazes de tocar a oferta de serviços públicos, independente do grupo político de plantão no poder. Almeja-se o butim integral: indicar cargos comissionados e toda a fauna de penduricalhos administrativos possível. Isso para melhorar a oferta de serviços? Não: para acomodar os indicados dos membros do consórcio eleitoral vencedor.
Abandona-se, assim, a perspectiva do Estado voltado para a oferta de serviços essenciais à população. O que se pretende, na verdade, é vitaminar a lógica do balcão, loteando a administração entre os felizes integrantes do consórcio vencedor. Serviço para o cidadão fica num segundo plano. Nada pessoal: a lógica do toma-lá-dá-cá é autônoma, é quase um fim em si mesmo.
Para isso, instrumentos diversos foram sendo viabilizados. No começo, ocorreu a terceirização de serviços não finalísticos, como a limpeza, a vigilância e a manutenção. Depois, vieram os contratos temporários – o famoso Reda – que de tão frequentes tornaram-se permanentes. Mudam as peças no tabuleiro, mas os dedos que movem as peças permanecem os mesmos. Por fim, vieram as organizações sociais amigas que assumem serviços públicos concedidos mediante as afamadas parcerias público-privadas.

Indicações

Esquemas do gênero alavancaram o balcão de maneira impressionante desde a Constituição de 1988. Antes, quem tinha padrinho era indicado, via os famosos “bilhetinhos”, para os cargos públicos. Muitos se tornaram efetivos, mas a rentabilidade política do sistema era baixa: os modelos atuais – dinâmicos, variados e rotativos – são muito mais rentáveis, pois alcançam circuitos maiores.
Esse modelo é irrevogável? Não, ao contrário do que se alardeia. Ele subsiste graças à lógica política que foi se consolidando no Brasil no pós-1988. Por aqui, política sempre foi sinônimo de distribuição de benesses. Não se tornou diferente no mais longo período de vigência democrática, até a ascensão de Michel Temer.
Justiça seja feita: o modelo estende-se por todo o espectro partidário, bordejando os extremos ideológicos à esquerda e à direita. Glutona, a ex-esquerda abraçou com sofreguidão os esquemas que fustigava até chegar ao poder; e aqueles à direita mantiveram-se coerentes, felizes com a geleia geral instituída na última década.
Por fim, é necessário também fazer justiça: muita gente competente, séria e avessa aos jogos do poder ocupa, transitoriamente, cargos públicos. Poderiam, sem dúvida, integrar os quadros do Estado com desempenho satisfatório. Mas concurso, hoje, está fora de moda. Simplesmente porque não representa filão para a exploração política. A população precisa reagir, mas ninguém sabe quando isso vai acontecer. Por enquanto, a única coisa que brilha no horizonte é o lustro do balcão...

Os números do Ensino Médio em Feira

O Ensino Médio se tornou destaque no noticiário a partir da polêmica proposta de reforma aprovada no Congresso Nacional. O governo alardeia que, com a reforma, o ensino vai melhorar. Muita gente acha que não, inclusive profissionais da educação. Não há dúvidas que o Ensino Médio precisa melhorar muito no Brasil. E, aqui na Feira de Santana, essa realidade não é diferente.
Dados do Censo Escolar, realizado pelo Ministério da Educação, ajudam a dimensionar o drama. Os números utilizados na comparação referem-se aos anos de 2005 e 2015 e estão disponíveis no site do IBGE. Qualquer análise superficial permite inferir que a situação, de fato, precisa mudar.
Logo de imediato, percebe-se que o número de matrículas encolhe no município: eram 27,3 mil em 2005 e recuaram para pouco mais de 22 mil dez anos depois. No ensino privado, houve leve elevação: foi de 3,1 mil para 3,2 mil.
A redução mais sensível, pra variar, aconteceu na rede estadual, responsável exclusiva pela oferta desse serviço. Ocorreram, em 2005, 24,1 mil matrículas, que caíram para 18,4 mil após uma década. No intervalo, o Instituto Federal da Bahia (Ifba) entrou em operação. Em 2015, lá, havia 267 alunos.
Curiosamente, o número de escolas se ampliou: passou de 59 para 74, no total. As escolas privadas passaram de 16 para 22; as estaduais, de 43 para 51; e o já mencionado Ifba começou a funcionar como instituição federal.
Também houve ampliação do quadro docente: pulou, no total, de 1.503 para 1.752. Houve expansão no número de profissionais nas esferas pública e privada: de 273 para 307 na rede privada; de 1.230 para 1.416 na rede estadual; e, no Ifba, foram contabilizados 29 professores.
Dados adicionais do IBGE oferecem um panorama mais preciso sobre o Ensino Médio na Feira de Santana. O acesso – a frequência bruta – até aproxima-se do razoável: era de 83,6% em 2000 e saltou para 86,7% uma década depois; o desastre está na frequência líquida – quando se abate a evasão, por exemplo – apesar de haver algum avanço: era 26,2% em 2000 e passou a 43% em 2010.
É possível que, nos últimos anos, até tenham ocorrido melhoras em relação à frequência líquida. Mas, com certeza, ainda estão muito aquém do necessário para garantir a presença dos adolescentes nas escolas.
O que provocou a redução no número de matriculados no Ensino Médio? Até onde vai a influência do fator demográfico? Será que a educação ofertada nos moldes atuais não afugenta o aluno da escola? São algumas das questões que precisam ser respondidas para que, efetivamente, adolescentes e jovens permaneçam na escola, com aproveitamento satisfatório.
As alegadas virtudes do modelo aprovado pelo emedebismo essa semana são questionadas. E contesta-se, sobretudo, o açodamento na elaboração e na própria tramitação. A conferir se, nos próximos anos, as estatísticas sinalizarão para melhoras aqui na Feira de Santana.

Números do Ensino Fundamental em declínio

A quantidade de estudantes, de profissionais da educação e de escolas do Ensino Fundamental está em queda na Feira de Santana. Isto nas redes pública e privada. A constatação decorre da comparação dos levantamentos de 2005 e 2015 do Censo Escolar, realizado pelo Ministério da Educação. As informações estão disponíveis no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Em tese, o recuo se deve à drástica redução da população na faixa etária até os 14 anos, verificável nos últimos censos populacionais.
A quantidade de matrículas no Ensino Fundamental, por exemplo, recuou de 93,9 mil em 2005 para 74,1 mil dez anos depois. Só cresceram as matrículas na rede privada: passaram de 16,9 mil para 19,1 mil. A oscilação positiva é compreensível: a bonança econômica do período permitiu a muitos pais matricularem os filhos em escolas privadas, na tentativa de fugir da precariedade da rede pública.
Essa rede pública, a propósito, registrou quedas expressivas. A mais drástica foi no sistema estadual: o número de estudantes caiu de 41,3 mil para 25,5 mil. Provavelmente, o declínio se deve à redução do papel do Estado neste nível de ensino. Mas na rede municipal também houve decréscimo: passou de 35,6 mil em 2005 para 29,4 mil dez anos depois.
Caiu também o número de escolas de Ensino Fundamental no intervalo analisado. Antes, no total, eram 426, passando para 343. Nesse item, houve queda na rede particular (de 165 para 107), na rede estadual (passou de 85 para 66) e, na rede municipal, o recuo foi menos expressivo, passando de 176 para 170.

Desemprego docente

Caiu o número de professores do Ensino Fundamental entre 2005 e 2015 na Feira de Santana: eram exatos 4.154 e tornaram-se 3.857. Aqui, também, a queda foi verificada nos sistemas público e privado. A variação menos sensível foi na rede privada, passando de 1.169 para 1.150. Novamente a queda maior ocorreu na rede estadual, que declinou de 1.740 para 1.493. Por fim, os professores da prefeitura passaram de 1.245 para 1.214.
Expandir a rede de Ensino Fundamental deixou de fazer sentido na Feira de Santana. Afinal, a queda nas taxas de natalidade reduziu dramaticamente a demanda por esse nível de educação. Mas, como se sabe, a diminuição no número de estudantes não foi acompanhada da elevação na qualidade do ensino, conforme atestam levantamentos do próprio Ministério da Educação.
A partir de 2015 a rede privada certamente encolheu, com muitos estudantes migrando para as escolas públicas. A avassaladora crise econômica forçou muitas famílias à redução de despesas, o que inclui gastos com educação privada. Este movimento, todavia, só deve ser captado no levantamento que ocorre agora em 2017.
O levantamento também não considera a questão crucial da qualidade da educação. Supostamente, a redução no número de estudantes deveria se traduzir na elevação do aprendizado. Não é o que vem se verificando, não apenas aqui, na Feira de Santana, mas também no Brasil.

Barafunda ideológica se aprofunda mundo afora

Pouca gente comentou até agora, mas 2017 é ano emblemático. Marca o centenário do triunfo da Revolução Russa, que instituiu a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). É certo que, décadas adiante – mais precisamente, em 1991 – a pioneira experiência socialista ruiu, deixando órfãos milhões de comunistas mundo afora. Naquele momento parecia que o capitalismo triunfaria, hegemônico, prevalecendo como única alternativa de organização da produção.
Os mais entusiasmados previam um futuro venturoso, com capitalismo e democracia entrelaçando-se em simbiose perfeita. Não foi o que aconteceu até agora. Ao contrário: uma intensa crise econômica arrasta-se desde 2008. Com ela, bilhões de pessoas foram afetadas pelo planeta. Incluindo aí, claro, milhões de trabalhadores das nações desenvolvidas, barrados no baile da globalização.
Foram eles que elegeram Donald Trump nos Estados Unidos e, meses antes, avalizaram a saída da Inglaterra da União Europeia. São eles também que ameaçam alçar ao poder a extrema direita na França, na Holanda, no Leste da Europa e que sacodem a supostamente sólida engenharia que erigiu a União Europeia. Suprema ironia: o eleitorado tende a consagrar a extrema direita nas urnas não pelas virtudes do capitalismo triunfante, mas em função de suas mazelas...
Quem envereda na direção ideológica oposta também não tem lá muitas razões para sorrir. Afinal, na recente reunião de Davos, na Suíça, os chineses – isso mesmo, os comunistas chineses – exaltaram as virtudes da economia de mercado, embora não a pratiquem. E Cuba, coitada, verga sob o assédio capitalista, mesmo com todos os discursos oficiais negando.

E o Brasil?

Por aqui, a confusão é ainda mais intensa. E não apenas por causa do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que provocou salseiro inédito no cenário político. No Brasil a situação andava confusa há muito tempo. A famosa Carta aos Brasileiros – na verdade, uma manifestação de boas intenções para os banqueiros, quando Lula concorria à presidência em 2002 – talvez funcione como um dos marcos do intenso rebuliço ideológico recente.
Há quase um ano, PT e PC do B repisavam que o impeachment era golpe. E defenestravam a velha direita caquética à qual estavam aliados até a véspera. Pois não é que ventos oportunistas desvirtuaram a biruta ideológica e o PC do B e parte do PT votaram em Rodrigo Maia (DEM), um dos artífices do impeachment, para presidir a Câmara dos Deputados pelos próximos dois anos?
A perspectiva de assumir o poder também produziu embaraços ideológicos no PMDB. Os pajés do partido sempre viveram à sombra do Estado, ocupando cargos, mercadejando verbas e vitaminando seu projeto político com o estímulo irrefrável dos cofres públicos. E não é que, subitamente, os próceres da legenda converteram-se em inveterados privatistas, apóstolos do Estado mínimo? A convicção decorreu das conveniências da ocasião, claro.

Populismo

E o que comentar do PSDB, a legenda que sempre requisitou o primado da técnica e da boa gestão? Converteu-se em valhacouto de populistas rasteiros. É o caso do atual prefeito de São Paulo, João Dória. Descontando os factoides e as performances, o “gestor” que renega a política vai pouco além da demagogia de gente do naipe de Paulo Maluf.
É claro que muitas legendas abrigam gente coerente: os que estão sempre na situação. E que se ajustam com perfeição tanto aos impulsos estatizantes quanto às vagas privatizantes, extraindo o máximo proveito pessoal possível. Quase todo o emaranhado de siglas vazias que organizam a fauna política brasileira encaixa-se nessa definição.
Os profetas da Revolução Socialista devem acompanhar, no além-túmulo, desolados, a derrocada dos seus regimes mundo afora e, sobretudo, a degeneração dos partidos que alegam defender suas ideias; do outro lado, os liberais ideológicos – aqueles movidos por ideologia, não por conveniência – devem revolver-se nas tumbas, testemunhando o apetite dos pretensos privatistas sobre os cofres públicos.
O mais desesperador é que nada sinaliza para melhoras no médio prazo. Contrariando o dito popular, talvez, “nem Jesus na causa”. Afinal, no Brasil, o que não falta é partido abrigando gente que diz falar em nome do Cristo...