quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O pior mês da história do mercado de trabalho em Feira

Dezembro foi o pior mês da história do mercado de trabalho na Feira de Santana. Em trinta dias, evaporaram precisos 1.031 postos formais. O número é oficial, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). No período, houve 23 dias úteis, descartando os sábados. Logo, o saldo foi negativo em 44,8 empregos diários; considerando as oito horas diárias da jornada de trabalho, houve assustadoras 5,6 demissões líquidas – o saldo entre admissões e demissões – a cada hora de trabalho.
Qualitativamente, o mês foi implacável com o trabalhador: o desemprego se irradiou pelos mais diversos setores, alvejando um leque amplo de funções. Mas os mais prejudicados foram os serventes de obra (-115 postos) e os pedreiros (-82 empregos), mostrando que a crise devora, voraz, as oportunidades na outrora festejada construção civil.
Mas outros segmentos também foram afetados: 73 operadores de telemarketing perderam suas ocupações; e o comércio varejista – que naquele mês costuma contratar – registrou saldo negativo de 62 empregos. Nem mesmo os motoristas de caminhão escaparam: no ramo, o saldo líquido foi negativo em 47 postos.
Desde que a avassaladora crise econômica começou, em meados de 2014, nenhum mês registrou tamanha retração quanto dezembro. Os recordes anteriores em 2016 pertenciam aos meses de maio (-883) e julho (-870). No geral, a retração ano passado totalizou saldo negativo de 6.002 vagas. Perdeu para 2015 (com 6,5 mil empregos extintos), mas supera, em muito, 2014, quando houve 914 demissões a mais que admissões.

E 2017?

As perspectivas para 2017, hoje, são muito menos promissoras do que foram no passado. Organismos multilaterais, instituições financeiras, entidades empresariais e os próprios técnicos do governo preveem que o desemprego deve continuar crescendo, pelo menos, até o mês de junho. E apostam também que a retomada posterior deve ser bastante lenta.
Isso em função do modesto crescimento previsto para o Produto Interno Bruto – PIB. A mais desalentadora das estimativas é a do Fundo Monetário Internacional, o FMI: ínfimos 0,2% para 2017; e irrisórios 0,5% para o próximo ano. No mercado financeiro há mais “otimismo”: expansão entre 0,5% e 1% esse ano. Serão dois “pibinhos”, conforme a expressão consagrada por Dilma Rousseff (PT), ela própria czarina de magros desempenhos do PIB.
Muitos brasileiros – e feirenses – vão passar os próximos anos se virando como autônomos, abrindo pequenos negócios, encarando empreitadas temporárias, fazendo biscates ou encorpando o já disforme comércio informal. A renda, claro, tende a declinar; e quem permanecer no mercado formal também será afetado, já que a exaltada reforma trabalhista deverá reduzir direitos e ampliar a precariedade.
Seria ótimo olhar para diante e constatar que o pior já passou. Mas não é bem assim que o futuro se desenha. A – até aqui, hipotética – lenta recuperação é parte do baque da crise e deve se arrastar pelos próximos anos; e as propaladas reformas estruturais devem penalizar ainda mais os trabalhadores, precarizando suas condições de trabalho. Lastimavelmente outros dezembros, como o que passou, não estão descartados.

Prefeito Graciliano Ramos é referência para os dias atuais (II)

O primeiro relatório encaminhado por Graciliano Ramos, prestando contas de sua atuação à frente da prefeitura de Palmeira dos Índios, repercutiu junto à imprensa alagoana e, até mesmo, no Rio de Janeiro. Mais que o desempenho satisfatório das atividades, foi o estilo pessoal e o conteúdo altamente literário que despertaram as atenções da imprensa. Em 1929 o futuro autor de “São Bernardo” repetiu o feito, encaminhando novo relatório com o mesmo estilo.

Naquela época o literato desabrochava: desde 1925 ele se dedicava à elaboração de um romance que só foi concluído oito anos depois: “Caetés”. Anos antes, em 1921, quando era um pacato comerciante à frente da loja “Sincera”, Graciliano Ramos aventurara-se publicando, sob pseudônimo, uma série de artigos num semanário de Palmeira dos Índios, o “Índio”.

Na prefeitura, durante 1928, Graciliano Ramos manteve a luta para extinguir benefícios injustificáveis, o que resultou em expressiva elevação da arrecadação, conforme ele mesmo apontou no segundo relatório encaminhado a Álvaro Paes, o governador alagoano, no início de 1930. Conforme indicado, à época, sua atuação à frente da prefeitura já despertava atenção da imprensa. Algumas intervenções, iniciadas em 1928, rendiam resultados que causavam perplexidade.

Sobre a arrecadação, o prefeito registrou que inicialmente o montante foi estimado em 68 contos de réis, mas pulou para 96 contos: “E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados”.

Mais adiante, Graciliano Ramos ressalta que, já no primeiro ano de governo, buscou adotar medidas que minimizassem as iniquidades tributárias. Extinguiu tributos – e ainda assim a arrecadação subiu –, organizou a vida financeira da prefeitura e conseguiu destinar recursos para intervenções urbanas importantes. Entre elas, o prefeito ressaltava a limpeza do município, com o recolhimento de animais vadios pelas ruas, o recolhimento do lixo e a instalação de matadouros, o que evitou o abate de animais em vias públicas.

O principal foco do gestor Graciliano Ramos, porém, foram as obras de infraestrutura. Aqui o prefeito se permite certa ironia: “Os gastos com viação e obras públicas foram excessivos. Lamento, entretanto, não me haver sido possível gastar mais. Infelizmente a nossa pobreza é grande”.

As intervenções iniciadas em 1928 começaram a dar resultados. É o que se observa sobre a terraplanagem da Lagoa: “Este absurdo, este sonho de louco, na opinião de três ou quatro sujeitos que sabem tudo, foi concluído há meses. Aquilo que era uma furna lôbrega, tem agora, terminado o aterro, um declive suave. Fiz uma galeria para o escoamento das águas. O pântano que ali havia, cheio de lixo, excelente para a cultura de mosquitos, desapareceu. Deitei sobre as muralhas duas balaustradas de cimento armado”.

Os esforços para moderar os poderosos locais consumiram grande parte da energia do prefeito. Isso implicou em mobilização para livrar a população pobre da exploração habitual. É o que relata no trecho seguinte: “Favoreci a agricultura livrando-a dos bichos criados à toa; ataquei as patifarias dos pequeninos senhores feudais, exploradores da canalha; suprimi, nas questões rurais, a presença de certos intermediários, que estragavam tudo; facilitei o transporte; estimulei as relações entre o produtor e o consumidor”.

Mexer com os interesses das elites locais costuma ser politicamente arriscado até hoje. Não foi diferente com Graciliano Ramos à época: “Esforcei-me para não cometer injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim como arma política. (...) Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me”.

O relatório foi concluído com as moderadas expectativas do prefeito. Dois planos, aparentemente vagos, povoavam-lhe a mente: calçar ruas onde as enxurradas decorrentes da chuva arrastavam pessoas e construir um açude na zona rural do município. Confirmando o estilo que o consagrou na literatura, Graciliano Ramos cultivava otimismo discreto, preocupando-se mais em mencionar os riscos envolvidos na empreitada e a crônica escassez de recursos.

Depois de dois anos de esforços intensos à frente da prefeitura, Graciliano Ramos renunciou. Logo em seguida foi aproveitado em dois prestigiosos cargos da administração pública alagoana: diretor da Imprensa Oficial e, posteriormente, da Instrução Pública. No início de 1936 foi preso e passou onze meses encarcerado, acusado de atividades subversivas pela ditadura de Getúlio Vargas.

À época, os dois relatórios encaminhados ao governador Álvaro Paes começavam a virar notícia, em função do estilo de redação. Uma cópia foi parar nas mãos do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, que desconfiou da existência de um romance engavetado. De fato, havia: era “Caetés”, que marcou a estreia literária do autor, posteriormente consagrado com “Angústia”, “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”.

Prefeito Graciliano Ramos é referência para os dias atuais (I)

Em 2017 milhares de prefeitos assumiram o cargo para mandato de quatro anos. Nesse momento de crise – política, econômica e ética – muitos deveriam se inspirar num dos mais célebres prefeitos brasileiros: Graciliano Ramos, posteriormente consagrado como autor de “Vidas Secas”, clássico da literatura brasileira. Eleito em 1927, permaneceu na prefeitura de Palmeira dos Índios por dois anos. Posteriormente, assumiu a Imprensa Oficial de Alagoas e foi diretor da Instrução Pública do estado, antes de se consagrar como um dos mais importantes escritores brasileiros.

A eleição de Graciliano Ramos foi cercada de fatos pitorescos. Sua indicação partiu do deputado federal Álvaro Paes e dos irmãos Francisco e Otávio Cavalcanti, líderes políticos locais. Inicialmente, Graciliano resistiu à indicação, só cedendo quando os adversários começaram a espalhar o boato que ele estava com medo de concorrer. É o que relata Dênis de Moraes na biografia do escritor.

Após inúmeras tratativas, o pleito ocorreu em 07 de outubro de 1927 e Graciliano concorreu como candidato único, obtendo 433 votos. As eleições guardaram as características da época, conforme reconheceu o próprio prefeito: “Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando”.

Nos dois anos que passou pela prefeitura Graciliano Ramos mostrou-se capaz de contrariar interesses arraigados dos poderosos locais, ordenar a situação caótica da cidade e executar obras que melhoraram a vida no município no sertão de Alagoas. Esse desempenho, inclusive, despertou a simpatia das pessoas comuns, habituadas à opressão imposta pelas elites locais. As intervenções do prefeito incluíram a construção de escolas em povoados, abertura de um posto de saúde e a implantação de um abatedouro na cidade.

No início de 1929, Graciliano Ramos encaminhou seu primeiro relatório de atividades para o governador Álvaro Paes. Sintético, o documento discorre sobre o conjunto das medidas adotado no exercício de 1928. Além do rigor estilístico que, posteriormente, se tornaria marca de sua produção literária, o documento foge dos clichês, costumeiros em documentos oficiais, enveredando para uma visão particular e, às vezes, pessimista, do próprio desempenho e de suas realizações.

Uma das primeiras medidas anunciadas pelo prefeito foi ordenar as funções dentro da prefeitura, suprimindo prerrogativas informais que, ao longo do tempo, foram cristalizando privilégios. É o que se pode observar em um trecho do famoso relatório: “Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses resolviam questões de polícia e advogavam”.

Ao final do primeiro ano de gestão, Graciliano Ramos se permitiu fazer um balanço do funcionalismo: “Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas”.

A viabilidade de sua gestão dependia de arrecadação maior. Contrariando as práticas habituais, que sobretaxavam os mais pobres enquanto os ricos pagavam pouco ou nenhum imposto, Graciliano Ramos concentrou esforços na arrecadação de dívidas dos inadimplentes. Essa medida rendeu-lhe dissabores. Apesar das dificuldades, manteve-se tenaz: “As despesas com a cobrança de impostos montaram 5:602$244. Foram altas porque os devedores são cabeçudos. Eu disse ao Conselho, em relatório, que aqui os contribuintes pagam ao Município se querem, quando querem e como querem”.

No primeiro ano de gestão Graciliano Ramos se esforçou para promover investimentos em infraestrutura. Além de um conjunto de intervenções em estradas para permitir a locomoção, o prefeito conduziu duas obras que mereceram referência especial no relatório: a construção da estrada para Palmeira de Fora – cujas obras seriam concluídas no ano seguinte, aproximando o município de Santana do Ipanema - e a terraplenagem do bairro da Lagoa, onde se acumulavam mato, imensas quantidades de lixo e para onde acorriam as águas das chuvas.

Graciliano Ramos descreveu no documento as dificuldades políticas enfrentadas: “Durante meses mataram-me o bicho do ouvido com reclamações de toda ordem contra o abandono em que se deixava a melhor entrada para a cidade. Chegaram lá pedreiros – outras reclamações surgiram, porque as obras irão custar um horror de contos de reis, dizem. (...) O que a prefeitura arrecada basta para que não nos resignemos às modestas tarefas de varrer as ruas e matar cachorros”.

E conclui, amargo, o relatório referente a 1928: “Procurei sempre os caminhos mais curtos (...) Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos (...) Há quem ache tudo ruim (...) Há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal”.


Triste realidade que se arrasta até os dias atuais.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Valor do Bolsa Família cai 56% em quatro anos em Feira

Em dezembro, o valor repassado pelo Governo Federal aos beneficiários do programa Bolsa Família na Feira de Santana alcançou R$ 4,088 milhões. É o valor mais baixo desde agosto de 2009, quando os feirenses contemplados pelo programa receberam, no total, R$ 3,949 milhões. Corrigido, esse valor de então alcançaria R$ 6,3 milhões em dezembro passado. Os números são oficiais, divulgados no balanço mensal do programa Brasil sem Miséria, no site do antigo Ministério do Desenvolvimento Social.
O número de beneficiários do programa no município também segue em queda: no mês passado, eram apenas 34.045 famílias atendidas. Em dezembro do ano anterior – já em plena crise econômica – o número alcançava 41,3 mil famílias. Isso significa sete mil famílias a menos – ou quase 30 mil pessoas – público superior à população de centenas de municípios baianos.
Em março de 2013 os repasses alcançaram o auge: R$ 7,080 milhões. Em valores atuais, esse montante representa R$ 9,1 milhões. Em outras palavras, em menos de quatro anos, o valor repassado pelo Bolsa Família em Feira de Santana caiu, em termos reais, cerca de 56%.
A redução dos valores reais reflete a queda na população atendida pelo programa.  Segundo o levantamento do Brasil sem Miséria, o auge no volume de beneficiários ocorreu em abril de 2012: 51,5 mil famílias. Hoje, o número só não é inferior àquele observado em maio de 2006: 33,8 mil famílias. No mês seguinte, junho, à época, a soma já ultrapassava 40,3 mil.

Comemoração

A redução soa estranha: ocorre justamente quando 12,4 mil empregos foram extintos na Feira de Santana, no contexto da severa crise econômica que eclodiu no País em meados de 2014. Mais desemprego e menos renda elevam, logicamente, a exposição dos trabalhadores à pobreza e à miséria. Nesse contexto, a necessidade de benefícios sociais se eleva, e não o contrário.
O cenário na Bahia também mostra declínio, mas muito mais suave. O total de famílias beneficiárias, por exemplo, que alcançou 1,835 milhão em fevereiro do ano passado, declinou para 1,772 milhão em dezembro. O patamar atual é próximo ao de 2013, o que evidencia a queda bem menos acentuada.
Os repasses na Bahia, ao contrário, se elevaram a partir do reajuste do ano passado: tinham declinado para R$ 297,5 milhões em junho, mas avançaram para R$ 327,7 milhões em novembro de 2016. Houve a festejada queda no total de famílias, mas o valor subiu em função do aumento concedido pelo atual governo.
A pobreza e a miséria estão se agravando novamente na Feira de Santana. Basta circular pelas ruas da cidade para enxergar os pedintes andrajosos, a informalidade precária, os feirenses aperreados com o desemprego. Seria ótimo se o País estivesse evoluindo e a dependência dos benefícios sociais caísse. Não é, no entanto, o que está acontecendo. Dessa forma, o suporte das políticas de transferência de renda segue essencial.

Tarifas de ônibus sobem mais que a inflação

O feirense vai atravessar o janeiro escaldante precisando desembolsar bem mais para utilizar o serviço de transporte público no município. A partir dessa quarta-feira (18) os valores passam a R$ 3,65 (para quem paga em dinheiro) e R$ 3,32 (para quem utiliza o cartão Via Feira). O reajuste está bem acima da inflação anual apurada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 6,29% ao longo dos 12 meses do ano passado.
Quem paga em dinheiro se deu mais mal ainda: o valor era de R$ 3,30 e saltou para R$ 3,65, conforme mencionado. Nada menos que 10,6% de aumento. O pior é que, em outubro, já tinha havido reajuste: passou de R$ 3,10 para R$ 3,30 (ou 17,74% de majoração em apenas três meses). Os que utilizam o cartão também foram penalizados, com o aumento de 7,09%, de R$ 3,10 para R$ 3,32.
O trabalhador feirense ganha pouco: dados de 2010 do IBGE, corrigidos pelo IPCA, indicam que a renda média de quem está no mercado formal é de R$ 1.440; já os informais recebem bem menos: apenas R$ 847. Desconsiderando, claro, o achatamento decorrente da crise econômica em andamento. É muito pouco para arcar com tarifa tão elevada.
Vá lá que segurar reajuste é difícil, sobretudo a partir da elevação dos preços dos combustíveis e, dentro em breve, dos salários dos rodoviários. A questão é que as tarifas vêm subindo muito acima da inflação, sem a oferta de serviços compatíveis com as necessidades da população.

Transporte clandestino

Recentemente houve licitação e ônibus novos circulam pelas ruas, mas esperas nos pontos costumam ser prolongadas, sobretudo para bairros periféricos. As queixas da população são constantes, mas, até aqui, nada mudou. Quem trabalha, estuda ou tem compromisso com horário marcado, pena para não se atrasar. Isso sob o habitual sol escaldante.
Não é à toa que o transporte clandestino encontra tanta demanda. Quem se aventura num ponto qualquer logo é convidado, aos berros, para embarcar num desses “ligeirinhos”. A perspectiva de um deslocamento rápido atrai muitos interessados. Basta observar em boa parte dos pontos da cidade.
Outra opção é a infinidade de mototaxistas, legalizados ou não. A crise e o desemprego empurraram muitos jovens – e gente de meia-idade – para a aventura do transporte alternativo, já que o emprego anda escasso. As prolongadas esperas estimulam os feirenses a recorrer a essas opções, apesar dos apelos em cartazes para que utilize o sistema regular.
Os reajustes sistemáticos tendem a afugentar os passageiros, o que repercute sobre o faturamento das empresas. Aí, começam as pressões por mais aumentos, num infindável círculo vicioso, cujo desdobramento mais visível é a precarização dos serviços e as intermináveis esperas que atormentam os feirenses.

Escassez de chuvas castiga Brasil Setentrional

As trovoadas seguem escassas no Brasil Setentrional, particularmente na porção semiárida, que amarga o quinto ano de seca, conforme afirmam os meteorologistas. As estimativas também não são lá muito otimistas: prevê-se que, em 2017, as chuvas não serão muito intensas, apesar do ciclo do El Niño ter findado ano passado. Estudos apontam que o fenômeno é o mais agudo em um século, superando estiagens severas, como a que se estendeu de 1979 até 1983.
A seca – que comprime a renda do setor agropecuário, afetando, sobretudo, os pequenos produtores – soma-se à voraz crise econômica, potencializando os efeitos nocivos sobre a frágil economia da região. Os prejuízos acumulados com os rebanhos dizimados e a constante perda das safras somam bilhões de reais.
As esperanças vão se manter vivas pelo menos até 19 março, data consagrada a São José. Na sabedoria popular, esse dia é determinante para que o inverno chegue – chuvas intensas ou trovoadas –, permitindo uma boa safra. Pouco depois disso, caso chova, as precipitações se limitam à garoa que apenas ajuda a manter a vegetação agreste verde.
Desde dezembro que as nuvens se avolumam, o horizonte ganha aquele ar acinzentado das tempestades, mas chuvas mais intensas – e frequentes – não caem. Um ou outro trovão ocasional desperta o saudosismo dos “anos bons”, de chuva farta.
O Centro de Abastecimento é um ambiente privilegiado para se investigar os efeitos da prolongada estiagem. Com dinheiro curto, quem vem da roça compra pouco, normalmente só o essencial; Quem vende lucra menos e investe menos em estoque; por fim, quem fornece também padece, às vezes até retraindo a produção.
O impacto não se restringe ao Centro de Abastecimento: as artérias de comércio popular no centro da cidade também se ressentem com a seca, além dos efeitos da crise, claro. A roupa barata, o sapato com preço em conta, a ferramenta para a lida na roça, o prato feito e os utensílios domésticos são menos requisitados quando o real no bolso do tabaréu escasseia.
O quadro só não é de descalabro em função dos avanços sociais da última década. O Bolsa Família, a aposentadoria rural, o benefício social para os idosos e deficientes vem sendo essenciais para atenuar os efeitos da estiagem rigorosa. Afinal, diminuiu a dependência dos pequenos produtores das safras incertas.
Michel Temer, o controverso mandatário, a propósito, esteve nas Alagoas e disse que gostaria de ser lembrado como o maior “presidente nordestino”. Nem precisava do arroubo retórico: caso ele não comprima nem revogue esses escassos direitos, a coisa já fica de bom tamanho. Não é, no entanto, o que se desenha.
Com frequência, comentamos que falta ao Nordeste – e a outras regiões menos dinâmicas do Brasil – um plano de desenvolvimento. Durante mais de uma década no poder o Partido dos Trabalhadores (PT) não investiu nessa ideia. A ascensão de Michel Temer sepulta de vez essa ambição, pelo menos no médio prazo.
Por enquanto, temos que aguardar as tempestades caprichosas que teimam em não cair.

PEC do Teto de Gastos pode desafogar cadeias?

No final do segundo mandato, em 2001, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tomou uma decisão histórica: assinou um decreto que determinava o fim dos manicômios no Brasil. A medida convergia com o esforço de décadas dos que advogavam pelo fim daquelas instituições que se pareciam com “depósitos de seres humanos”, de tão degradantes. Com a medida, a internação compulsória foi substituída pelo acompanhamento médico, com a possibilidade dos pacientes ficarem em casa. As famílias que acolhessem seus pacientes passaram a ter direito a um salário-mínimo mensal.
Para além da dimensão humanitária, o Ministério da Fazenda espichava o olho para o aspecto financeiro: essa medida custava menos que manter pacientes reclusos em condições subumanas. Houve quem protestasse, prevendo multidões de loucos violentos pelas ruas. Não foi o que aconteceu.
A atual crise no sistema carcerário pode levar à adoção de medidas semelhantes. Cerca de 40% dos presos nos cárceres brasileiros são provisórios, estão aguardando julgamento; outros tantos estão presos por delitos menos graves, sem uso da violência. Poderiam, portanto, estar cumprindo pelas alternativas, ao invés de reforçar, compulsoriamente, as facções que dominam as cadeias.
Por outro lado, o garrote fiscal aplicado com a PEC do Teto de Gastos começa a se revelar. Não vão existir recursos adicionais para medidas emergenciais no sistema prisional: ou se tira de outros setores, ou quem gerencia as cadeias vai ter que se virar com o que tem hoje. Aposto que ninguém vai propor, por exemplo, tirar dinheiro da saúde e da educação para aplicar nos presídios. Seria suicídio político.

Insustentável

Como a situação nas cadeias é insustentável, então resta uma saída: desafogá-las, concedendo a liberdade a muitos presos que poderiam cumprir punição nas ruas, através de medidas alternativas. Até a própria imprensa – sempre com a língua em riste para exigir punições severas – está tendo que aquiescer: como está para o caos chegar às ruas é questão de tempo.
Resta saber que governo vai assumir a tarefa de, pelo menos, atenuar no curto prazo a crise no sistema carcerário. O que aí está não vai além de minimizar os acontecimentos ou requentar planos antigos, de eficácia duvidosa; em 15 dias, ficou patente que o crime encastelado nas prisões está muito mais organizado que o governo de Michel Temer (PMDB-SP).
A gravidade da situação não permite o luxo de prolongadas confabulações ou de intermináveis tratativas, como está acontecendo. Nesse caso, a inércia é sinônimo de mais mortes nas cadeias e nas ruas, apesar de todo o discurso do “controle” evocado nos últimos dias.
A iniciativa de desafogar as prisões passa, sobretudo, pelo Judiciário. Caso a ideia prospere – e não se trate de mera reação diante dos massacres no Amazonas, em Roraima e, agora, no Rio Grande do Norte – pode ser que, lá adiante, se veja alguma saída para a aterradora situação penal brasileira.