segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O Sertão vai virar deserto

Quem se aventurava a cortar os inóspitos sertões nordestinos, lá por meados dos anos 1990, recorda bem a penúria em que viviam os pequenos municípios da região. Isoladas na profusão de espinhos de mandacarus e xique-xiques, castigadas pelo sol inclemente, expostas aos rigores das estiagens frequentes e ao fantasma da escassez hídrica, essas pequenas cidades só ganhavam as manchetes quando figuravam nos periódicos decretos de situação de emergência. Ou quando legiões de famélicos saqueavam os armazéns dalgum próspero comerciante.
À época, o Brasil atravessava outra quadra áspera, na qual o receituário do Fundo Monetário Internacional, o FMI, tinha valor de sanção canônica. A pobreza e a exclusão, as profundas desigualdades sociais – jamais atenuadas – e a candente questão do desenvolvimento regional eram temas banidos naqueles anos. Afirmava-se, com sólido saber doutoral, que o livre funcionamento dos mercados resolveria todas essas questões.
Sob o petismo, as campinas sertanejas seguiram ásperas e os grandes temas subnacionais continuaram encobertos, mas a feliz e inesperada convergência de políticas contribuiu para uma espécie de “redenção” dos sertões ignaros. A implantação de políticas de transferência de renda (como o Bolsa Família), a elevação do valor do salário-mínimo e a ampliação do acesso à aposentadoria rural produziram um inédito frenesi de consumo que alavancou as pequenas economias locais.
Os impactos foram notáveis: casebres cobertos por palhas ou telhas velhas foram substituídos por casas espaçosas, arejadas e cobertas por telhado novo; eletrodomésticos incorporaram-se à rotina familiar; o cardápio diversificou-se e pratos antes inacessíveis multiplicaram-se pelas mesas de jantar; viagens e luxos modestos tornaram-se possíveis; e, quem pôde, comprou um carro ou uma motoneta.
Acostumados às incessantes agruras, muitos se espantaram com aquela prosperidade abrupta. Milagre de Padre Cícero? Não, apenas a materialização de um direito que teimava em não sair do papel. Brasil afora, crescia a indignação dos que mimetizavam os patrões, enxergando naquilo um privilégio inadmissível, exigindo passeata e manifestações de rua.
Para êxtase dessa gente, o “privilégio” vai minguar, definhar até se extinguir. No seu epitáfio constará, claro, a PEC 241. Coisa urdida pelos esfoladores da democracia, sob orientação dos rentistas internacionais, aquela turma do FMI que retorna com força total. Pajeando a curta distância, festiva, mas com as mandíbulas à mostra, enxerga-se a grande imprensa.
O leitor desatento talvez esteja estupefato: qual relação de causa e efeito entre a PEC 241, a do “teto dos gastos” e a hipotética derrocada dessa incipiente pujança econômica dos pequenos municípios nordestinos? Muito simples: no longo prazo, o objetivo é comprimir o valor do salário-mínimo e, mais ainda, dos benefícios sociais que alavancam a economia dos lugares sertanejos. Com menos recursos o efeito será, obviamente, um longo e doloroso processo de retrocesso econômico.
Some-se a isso a contínua redução nos valores que serão repassados à educação e à saúde às prefeituras desses municípios. As já escassas oportunidades de trabalho tendem a desaparecer; pobreza e miséria crescerão; muitos serão forçados a migrar, novamente, para as grandes metrópoles brasileiras. É mais uma faceta do retorno ao passado que se desenha para o País.

A turma da língua em riste costuma defender labor, empenho, produtividade como receita universal. Funciona no circuito do pretenso ativismo de rede social, mas não ajuda em nada a entender a complexa realidade social brasileira. 

Crônicas Temerárias (III)

O modus operandi que Michel Temer e seu PMDB estão empregando para produzir o maior retrocesso civilizatório da História do Brasil já está bastante claro. O ponto de partida é, sempre, um consenso fácil, uma dessas proposições tão lógicas que ninguém, à primeira vista, consegue se opor. “´É necessário limitar os gastos públicos”, apregoa o discurso oficial que reverbera na imprensa; ou “o Ensino Médio precisa mudar”, constata-se nos gabinetes palacianos, com eco imediato junto à mídia, apenas para ficar num segundo exemplo.
Qualquer imbecil sabe que é impossível gastar ad infinitum e ad aeternum, incluindo nessa lógica os cofres públicos. Até os deputados do baixo clero conseguem entender isso. O problema não reside, necessariamente, no diagnóstico, mas sim nas controversas soluções que são colocadas como se fossem a única alternativa, a opção solitária.
Para conter a sangria nos gastos públicos o caminho encontrado é a redução nos investimentos em saúde e educação, o arrocho sobre o salário-mínimo, o achatamento e a redução dos benefícios sociais e consideráveis exigências adicionais para o acesso à aposentadoria. Em síntese, os trabalhadores e os mais pobres é que vão arcar com a “austeridade”.
Ninguém cogitou a extinção das indiscriminadas isenções fiscais, que fazem a alegria do grande empresariado; não se falou em apertar os sonegadores, que embolsam criminosamente parcelas consideráveis de impostos; menos ainda se fala em cobrança de impostos dos mais ricos, que proporcionalmente pagam muito menos que os mais pobres; e não se vê debate sobre eventuais freios às milionárias aposentadorias do habitual magote de privilegiados.
Há, claro, um tabu: o dinheiro da banca, os 40% do orçamento da União que sustentam a ciranda financeira dos multimilionários, é intocável. Podem sobrevir epidemias, crises humanitárias, necessidades sociais, descalabros econômicos, o que for: o rico dinheiro dos financistas internacionais é sagrado. Nele, ninguém toca. E é tema também que não se discute.
A encalistrada “onda azul” que varreu os “vermelhos” e suas ameaças comunistas vive dias de glória. Afinal, as cobranças por resultados ainda não começaram. Mas não tardarão: a crise está aí, os serviços públicos permanecem lastimáveis e o futuro, para o brasileiro médio, é cada vez mais sombrio. Basta entender o que está se passando para perceber que não existem motivos para esperanças.
No entanto, o presente sem cobranças, pejado de retórica vazia, explica, em parte, o êxtase impudente dos rufiões da democracia encastelados no poder. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Crônicas temerárias (II)

           
Parece que, nos próximos meses, pretende-se revogar esse negócio de aposentadoria, de direito a ócio remunerado no fim da vida. É o que se deduz com base nas propostas que estão sendo urdidas lá no Planalto Central, em Brasília, pelo controverso presidente Michel Temer e sua equipe. Pelo que noticia a imprensa, aposentadoria, para os mais jovens, só a partir dos 65 anos; mas com valor integral só com inacreditáveis 50 anos de contribuição.
Alguém na temerária Brasília deve ter descoberto que aposentadoria é coisa de comunista, de subversivo, de malandro, de vagabundo, de quem não gosta de trabalhar. Daí resolveram revogar esse inadmissível privilégio com um expediente sorrateiro: estabelecem-se pisos altíssimos demais, para que apenas uns poucos privilegiados consigam alcançá-lo. Mas, evidentemente, cobra-se de todo mundo, é claro.
Quando criança, na década de 1980, espantava-me andar pela Feira de Santana e me deparar com incontáveis idosos desvalidos, pedindo esmola, sem um mínimo de dignidade no fim da vida. Caso a temerária reforma da Previdência prospere, voltaremos àquela época em um par de décadas, no máximo. Pior: com muito mais idosos perambulando pelas ruas.
Na era da informalidade desenfreada, do renitente subemprego, do desemprego crônico e da terceirização voraz, exigir idade mínima de 65 anos, com pelo menos 25 anos de contribuição e outros 50 anos para ter acesso à aposentadoria integral – normalmente, com valores irrisórios – é tramar um genocídio contra os futuros idosos brasileiros. Sobretudo contra a base da pirâmide social, os brasileiros mais pobres, que se dedicam à labuta mais pesada.
Quem não atender essas exigências, provavelmente, vai vegetar à míngua, à espera de improváveis benefícios sociais, triste mendicante no fim da vida. Apesar da contumaz letargia coletiva que caracteriza a conduta política dos brasileiros, é improvável que a reforma traiçoeira seja aprovada sem reações. Mesmo com o nocivo Congresso Nacional que vota conforme o que se regateia no balcão.
O Brasil atravessa uma quadra insana, de conservadorismo extremado. Nela, visa-se revogar os mais elementares direitos dos trabalhadores, empunhando-se os rótulos da “modernização” e da “flexibilização”. Por enquanto, esse discurso reverbera sem o contraditório, prevalecendo a versão governista. Pois bem: caso quem trabalha não acorde, lá adiante, quando essas regras draconianas começarem a produzir efeitos, poderá ser tarde demais.

Crônicas temerárias (I)

            Quando flertava com a manobra traiçoeira que apeou Dilma Rousseff do poder, Michel Temer (PMDB) proclamou que conduziria um governo de “salvação nacional”. E anunciou, solene, que montaria um ministério de “notáveis” para conduzir essa sagrada missão. Como todos sabem, os notáveis ficaram pelo caminho, atropelados pelos políticos profissionais que alcançaram o balcão – essa imortal instituição nacional – em desabalada carreira. Os “notáveis” figuraram como piada um par de dias mas, depois, foram esquecidos.
            Há quem enxergue no temerário ministério um magote de nulidades, pouco qualificados em questões gerenciais; outros adotam uma perspectiva ética: figuram no olimpo temerário figuras altamente suspeitas de envolvimento com corrupção, inclusive nos mesmos escândalos que serviram para escorraçar os petistas, embora isso a chamada grande mídia não repise.
Passados quase cinco meses do controverso mandato, porém, uma outra característica avulta do famigerado ministério: a língua solta. Nesses quase 150 dias, diversos boquirrotos soltaram indiscrições que colocaram muitos brasileiros de orelha em pé, receosos em relação ao futuro próximo. Caso essas divagações se concretizem, embarcaremos num inusitado retorno ao século XIX, na melhor das hipóteses.
O ministro da saúde cogitou menos direitos para os usuários do Sistema Único de Saúde; o do trabalho especula a legalização de jornadas diárias de trabalho com até 12 horas de duração; outro não vê problema na manobra escandalosa que pretende perdoar os adeptos do caixa 2; o titular da Justiça insinua, com fanfarronice, a iminência de operações policiais supostamente sigilosas. E por aí vai, numa anarquia digna dos estertores da gestão Dilma Rousseff.
Em todos esses episódios, o condottiere da “salvação nacional” pouca coisa fez além do tradicional beicinho, que invariavelmente emoldura suas fotografias, largamente utilizadas na festiva cobertura da imprensa. Agora, sai-se com o anúncio de que vai escalar um porta-voz para falar em nome do governo. É coisa de quem insiste em ver estrelas em meio a uma tempestade de meteoros.

O brasileiro médio, aquele que acompanha o noticiário pacificamente da sala de sua casa, torce para estar errado, mas intui que o Brasil segue sem rumo. Isso apesar de toda a retórica do liberalismo caipira que se pretende implementar por aqui...

Meio ambiente é tema banido das eleições municipais

             
Faltam poucos dias para as eleições municipais. No próximo final de semana, mais precisamente, saberemos quem vai conduzir a Feira de Santana até 2020. Isso se não houver segundo turno, o que as pesquisas descartam até aqui. A campanha foi curta: meros 45 dias, com pouco mais de 30 dias de campanha na televisão. E o tempo foi dramaticamente encurtado, com somente duas inserções diárias de apenas 10 minutos. Com tão pouco tempo, ficou difícil saber o que os candidatos a prefeito pensam sobre uma série de temas.
A questão ambiental, por exemplo, exigiria um debate mais profundo. A rigor, a Feira de Santana possui uma Secretaria de Meio Ambiente o que, em tese, configura um avanço. Mas, embora disponha de estrutura institucional, o município não conta com nenhuma política para o setor. O que se anuncia, sempre, são intervenções pontuais, normalmente anunciadas com estardalhaço.
As lagoas feirenses seguem sendo tragadas pela especulação imobiliária. Muitas se transformaram no piso instável de centenas de barracos de novas favelas; outras, devidamente aterradas, deram lugar a vistosos empreendimentos privados; e outras, com destino menos infeliz, tiveram seu espelho d’água dramaticamente reduzido. E o destino de algumas desperta intensa inquietação, como a Lagoa Salgada, que aguarda iniciativas concretas de preservação.
A Feira de Santana também carece de árvores. Quem vem de fora e examina as ruas da cidade nem sempre contém o horror: apesar do calor inclemente, dos prolongados períodos de estio, das manhãs e tardes escaldantes, faltam milhares de árvores. Há ruas inteiras sem, sequer, um singelo fícus; as poucas árvores existentes apresentam aspecto deplorável, como as que resistem nas malcuidadas praças feirenses.
A ojeriza ao verde, ao contrário do que alguns podem imaginar, não é disseminada Brasil afora. Muitas cidades brasileiras são bem arborizadas e, por essa razão, asseguram maior qualidade de vida à sua população. Aqui, empunha-se um canhestro conceito de progresso que exige a revogação do verde, conforme se viu no episódio do polêmico BRT na avenida Getúlio Vargas.
A festejada obra da Lagoa Grande é outro exemplo contundente. Ainda não foi inaugurada, mas de longe percebe-se que, no entorno, não há uma mísera árvore. Somente a lâmina d’água e, nos incontáveis dias de estio, o sol inclemente. É estranha a ideia de um espaço de lazer, ao ar livre, sem cobertura vegetal. Mas deve ser cisma minha.
Sobram amor, paixão, abnegação e demais subjetividades na propaganda eleitoral. Faltam propostas. Exatamente como vem ocorrendo desde sempre nas eleições feirenses. Sinal de que vamos seguir na mesma toada em relação ao meio ambiente.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A crise sob a ótica do mercado imobiliário

             
Ao longo do ano passado muita gente relutou em admitir que o Brasil começava a atravessar uma severa crise econômica, certamente a mais profunda em mais de um século. Alguns, por questões políticas: aceitar a recessão implicava em colocar-se na defensiva, depois de quase uma década da frenética pujança consumista legada pelo lulopetismo, que perdia o discurso a partir da debacle econômica. Outros mostraram-se arredios mais por questão de temperamento, de dificuldade em aceitar que o País ingressava em uma quadra dura, de desemprego elevado e de consumo declinante. São os otimistas incorrigíveis.
                Enquanto a recessão transitou pelo noticiário, com os esotéricos indicadores econômicos em gráficos indecifráveis, tudo bem: aquilo assemelhava-se aos incessantes debates estéreis que a imprensa teima em repisar, sem efeitos práticos. Pouco a pouco, porém, a crise foi migrando da retórica e dos indicadores para a vida real: muitos foram perdendo seus empregos, outros tantos viram seus negócios minguarem, impactando sobre a renda.
                Os primeiros sinais, sutis, começaram a ser percebidos aos poucos. As filas nos supermercados e nas padarias diminuíram, sobretudo nos horários de pico. Os insanos engarrafamentos foram encurtando, aporrinhando menos, sem nenhuma causa milagrosa: a queda na renda e a elevação no preço dos combustíveis forçaram muitos a manter seus veículos nas garagens, esvaziando as ruas.
                  Bares e restaurantes foram perdendo clientes, porque as constantes incursões noturnas pesaram no orçamento. O valor da conta, que nos tempos de bonança não assustava, passou a ser destinado às necessidades mais urgentes. Com isso, a perversa espiral declinante eliminou muitos empregos no outrora promissor setor de serviços, que experimentava um boom inédito nas últimas décadas.

                Setor Imobiliário

                Nos últimos meses a crise passou a pontuar a paisagem sob uma outra perspectiva: a da imensa oferta de imóveis comerciais para venda ou aluguel. Há apenas uns poucos anos era difícil achar loja disponível ou mesmo uma sala no centro da Feira de Santana: os negócios prosperavam e muitos disputavam esses espaços com sofreguidão. Parecia que tudo aquilo que se punha à venda tinha demanda assegurada.
                Aos poucos, desde o ano passado, a situação foi mudando. Muitos empresários tentaram resistir, heroicamente, à falência: recorreram a promoções, enxugaram o que podiam, mas a profundidade e a extensão da crise impediram a continuidade de inúmeros negócios. Dessa forma, tristes queimas de estoque anunciavam, antecipadamente, mais uma baixa provocada pela crise.
                Com isso, placas e cartazes apelativos começaram a se espalhar pelo centro da cidade e adjacências, anunciando a venda ou o aluguel dos mais diversos imóveis comerciais. Com o tempo, muitos desses anúncios se desgastam, rasgam-se, denotando o esforço vão. Afinal, a recessão segue feroz, mordiscando trabalhadores e empresários. A grande imprensa, depois da deposição de Dilma Rousseff (PT), até tenta atenuar a situação, enxergando sinais de arrefecimento da crise, sem convencer.
              Otimista, o novo governo enxerga modesto crescimento do Produto Interno Bruto – PIB para o ano que vem, algo em torno de 1,2%. Muito pouco para as imensas necessidades do País, que mais uma vez viu se diluírem as vãs esperanças de um ciclo duradouro de crescimento. De qualquer forma, talvez a partir de 2017 comecem a se reduzir os incontáveis cartazes de “vende” e “aluga” que tornam deprimente a paisagem do centro comercial da Feira de Santana.

O Coronel é uma instituição latino-americana



Dizem os estudiosos, gente metódica do meio acadêmico, que o Coronelismo acabou; Que se trata de fenômeno histórico, esgotado quando Getúlio Vargas triunfou com sua revolução, lá em 1930, sepultando a República Velha. Bobagem: mais que uma categoria ou um elemento de análise sociológica, o Coronelismo é um estado de espírito, uma forma de ser, uma visão particular sobre o mundo e a sociedade. E persiste até os dias atuais, apesar de todos os esforços, infrutíferos, para considerá-lo sepultado.
O Coronel é uma figura pitoresca que não floresce num lugar determinado do Brasil: simbiótico, ele encarna todas as metamorfoses necessárias, mostrando-se perfeitamente ajustado às mais distintas regiões do País. É como o camaleão, cuja tonalidade da pele encarna as características do ambiente em torno. E, faça-se justiça, é figura continental: vê-se espécimes semelhantes espalhadas pela América Latina, emergindo dos fundos de província com seu bigode indefectível, com seu chapéu panamá, com sua retórica beligerante.
Vá lá que, hoje, os espaços de atuação dos Coronéis minguam, relegando-os, aos poucos, às municipalidades enxutas de população, aos rincões distantes, àqueles pedaços de Brasil onde as instituições ainda inspiram respeito e – mais do que elas – as figuras dos Coronéis, já sem os rebenques, mas muitas vezes ainda calçados de botas e, sobretudo, com aquele tom de voz calculadamente intimidador.
Expurgados das metrópoles, dos centros urbanos mais modernos, acomodam-se aos teatros políticos mais modestos, àquelas pequenas cidades onde chamam o eleitor pelo nome, onde sua fortuna é reconhecida e admirada. Tudo bem que estejam em extinção: mas extintos, relegados aos compêndios de História, ainda não, é opinião presunçosa.

A essas alturas, curioso, o leitor mais exigente deve estar cobrando uma caracterização mais clara, até mesmo um conceito preciso sobre essa figura controversa e, ao mesmo tempo, pouco definida. Pois bem: elencaremos um conjunto de características que, embora passe ao largo do conceito preciso, fruto de laborioso empenho acadêmico, vai aproximar o leitor dessa figura que transita do mostruário histórico à rotina diária das repartições públicas, das robustas análises sociológicas ao eito contemporâneo das fazendas.  
Comecemos pela função: Coronel é chefe político. Necessariamente. Essencialmente. Questões relativas à política local, apoio às lideranças subnacionais – estados ou províncias, já que analisamos uma personagem que transcende fronteiras – e até nacionais, acordos eleitorais, tudo passa por ele. Esteja ele ou não no exercício do poder direto, lá na prefeitura, ou via seus apadrinhados, é ele quem emite a palavra final. E essa costuma ser lei, pelo menos para aqueles que o cercam.
A condição de chefe político rende respeito e deferência: os clubes de serviço, as ordens maçônicas, as instituições beneméritas, todos lhe rendem homenagem, reservam-lhe postos destacados em sua hierarquia, consultam-no em suas decisões. Nas solenidades nas quais pululam autoridades engravatadas, que recendem importância e distinção, seu discurso é ansiosamente aguardado e o espaço que lhe granjeiam é, sempre, o mais nobre. Pouco em função do conteúdo, mas muito em virtude de sua condição, como se vê.
É desnecessário dizer o quanto é respeitado e temido na prefeitura, entre os barnabés. Um sorriso ao final de uma piada sem graça é a senha para gargalhadas entusiasmadas entre os que o cercam; um rosnado ou um olhar atravessado provocam calafrios; uma ordem impulsiona uma reação muscular quase instantânea para atendê-lo; e um elogio, um gracejo, um gesto de estima do Coronel elevam o conceito do beneficiário entre seus pares, num misto de admiração e inveja.
 O locus para enxergar o Coronel em sua plenitude, no entanto, não é entre seus pares respeitáveis nas incontáveis solenidades que se inventam ao longo do ano. Tampouco entre a burocracia das repartições, que o teme e, invariavelmente, costuma lhe dever favores. Menos ainda entre os infelizes que lhe servem em suas fazendas, já que o Coronel, em essência, está vinculado ao setor rural. Mesmo que, eventualmente, não tenha uma origem rural, compra terra, porque isso confere maior respeitabilidade.
O Coronel é Coronel em sua plenitude é no contato com o povo, nas esquinas, nas calçadas, nas vielas sem pavimentação nem saneamento da periferia, nas portas dos casebres da zona rural, nas feiras-livres semanais. Nas missas ou nos cultos, nos torneios de futebol que rendem troféus e medalhas, nas festas religiosas ou folclóricas, nos churrascos e celebrações dos cabos eleitorais exercita seu papel com indizível prazer. Conta piadas, narra estórias, relembra causos, desperta simpatias.
Diante de uma casa pobre recomenda juízo à infeliz que vaqueja os filhos pequenos e descalços; adiante, rememora histórias antigas com uma idosa arqueada; acolá promete, sisudo, analisar o pedido de trabalho de um desgraçado de olhos baixos; numa esquina, relata feitos esportivos à turma do futebol, que finge acreditar; mais adiante, entabula conversa com o dono do mercadinho que marcha com o Coronel em todas as eleições.
O apreço à imagem de tocador de obras marca o clímax da encenação: o que está pronto ele examina com escrúpulo minucioso: quando é calçamento pergunta se a poeira e a lama cessaram; praça ele cobra conservação, em tom intimidador, aos azarados que eventualmente estejam por lá durante a inspeção; nas visitas às escolas recomenda às crianças que estudem, senão viram vagabundos, malandros, desocupados, acabam-se na cachaça, largados pelas esquinas, num ócio vergonhoso.
Coronel é sinônimo de respeito às leis, às instituições, à família, à pátria e, sobretudo, à propriedade. Em suma, é um conservador. Boa parte desse respeito, convenha-se, é para consumo externo: contornam-se as leis quando é necessário; as instituições servem para viabilizar interesses, às vezes, inconfessáveis; a família comporta amantes variadas e, em alguns casos, um filho bastardo porque o Coronel precisa referendar sua macheza; a pátria é importante porque, nela, acomodam-se o conjunto dos interesses dos Coronéis, cuja gula exige fronteiras amplas. Propriedade é conceito mais estável, embora flexível quando se trata de cofres públicos.
Essa disposição conservadora, no entanto, costuma ser flexibilizada nos períodos eleitorais. É quando o Coronel abraça a democracia, embala-a ternamente, alça-a à condição de valor político supremo. Isso era dispensável no passado, mas, com todas essas prosopopeias modernas na rua, ele vê-se obrigado a essas concessões no plano retórico. Mas só no plano retórico: nos gabinetes, nos conchavos, nos bastidores, prevalece a hierarquia verticalizada, a ordem incontestável, o tom duro de voz, o olhar intimidador.
A essas alturas o leitor, cético, dirá que o Coronel confunde-se com a figura do político em exercício de mandato. E, implacável, dirá que, sendo assim, o Coronel é figura universal, que também pisa o solo civilizado dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Não se trata, portanto, de uma glória exclusivamente latino-americana, como os Andes, os pampas ou a caatinga. Sendo assim, a figura exposta exige definição mais ajustada e recomenda, por fim, que o cronista estude mais, aprofunde suas reflexões e que extraia uma caracterização mais particular.
Reconheço que, aqui ou ali, as rotinas, a hierarquia, a deferência e as honrarias coincidem. Mas refuto qualquer pretensão acadêmica: a condição de Coronel aqui exposta transcende o mundo material e as convenções sociais. Eleva-se ao nível da subjetividade e revela, na essência, um jeito de ser, de enxergar o mundo e, sobretudo, a si mesmo. É condição com fumos de realeza, já que se conta com um trono imaginário à disposição; e flerta com uma espécie de santidade profana, de aura mística, que os métodos científicos convencionais não conseguem captar.