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Brasil lança as bases do “neoclientelismo”

A abordagem aconteceu ali na avenida Getúlio Vargas, em frente a uma agência bancária. Era manhã de um feriado qualquer. Ia distraído, até ser abordado por uma jovem que sustentava uma braçada de revistas. Pretendia argumentar que aqueles produtos não me interessavam, que estava apressado, mas acabei cedendo à conversa. Estudante, queria repassar revistas antigas em troca de contribuição para sua formatura. As oportunidades de leitura eram vastas: iam da arquitetura à economia e finanças. Mas tudo publicação antiga, que desestimulavam até a solidariedade. Dedicava-se, particularmente, à recomendação de uma conhecida revista cujo público preferencial eram executivos e empreendedores. “O senhor é empresário?”, indagou a jovem, com vivacidade. “Não. Sou funcionário público”, redargui, satisfeito com o ar de ojeriza que ela esboçou. Aí o papo esfriou e segui meu caminho. À distância, notei que me julgava parasita ou algo do gênero. A repugnância ao funcionalismo público vem se tornando freq…
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Escola sem partido, mas com religião

Quando criança, assisti às inevitáveis aulas de religião na escola. A professora era uma espécie de beata, muito afável e risonha, que frequentava a igreja católica ali do Alto do Cruzeiro, nas imediações do Sobradinho. Naqueles tempos, boa parte da população era católica. Eu próprio tive formação católica: assim, embora não me recorde mais do conteúdo das aulas, lembro que aquilo não me causava estranhamento. Tudo mudou quando cheguei à antiga sétima série, noutra escola: autoritária e intolerante, a professora provocava estranhamento e, não raras vezes, ojeriza à classe. Cavoucando a memória, recordo de uma freira que, uma vez por semana, falava com voz mansa em aulas de religião, já no terceiro ano do antigo segundo grau. O que falava, também já não recordo. Mas lembro do enfado da turma adolescente ouvindo as tradicionais prédicas cristãs. Essas aulas eram obrigatórias, ministradas na rede pública, onde avultavam deficiências. Hoje, imagino que o tempo seria aproveitado mais adequa…

Amigo de político é a profissão do futuro

Caso eu fosse muito jovem e estivesse ingressando na terceira década de vida – com pouco mais de vinte anos – investiria nas profissões do futuro no Brasil: amigo de político ou cabo eleitoral. É bobagem estudar, gastar a vista lendo, mourejar anos a fio aprendendo uma profissão, exercitar os conhecimentos adquiridos com zelo e diligência. Sequer adianta ficar farejando as profissões do futuro, apostar numa meritocracia que só existe no plano da retórica. Tudo isso é besteira. Profissão do futuro, no Brasil, reafirmo, é cabo eleitoral ou amigo de político. Muita gente vive aí se debruçando sobre livros, estudando, tentando passar em concurso público. É besteira, reitero: os barnabés estão sofrendo arrocho salarial, serão submetidos a avaliação e demissão com base em critérios enigmáticos, levam a culpa pelo descontrole das contas públicas e ainda são acusados de incompetência e corpo mole. O futuro dessa gente, portanto, é bem mesquinho. Mas o futuro dos amigos dos políticos é radiante:…

Rumores dos quartéis abafam a democracia

Tudo indica que, a partir daqui, quem acompanha o noticiário político vai precisar prestar atenção nos rumores que vêm dos quartéis. Afinal, um general anunciou a possibilidade de uma “intervenção militar” caso o Judiciário falhe na sua missão de combater a corrupção. Passível de punição pelas declarações, o militar teve suas palavras relativizadas pelo chefe numa entrevista. Este até saiu arranjando justificativas, colocando panos quentes, negando punição, quase aquiescendo. Acuado, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, saiu com uma nota chocha, protocolar, evasiva, acomodatícia. E o chefe supremo das Forças Armadas – Michel Temer (PMDB-SP), o mandatário de Tietê – ouviu calado toda a afronta. Sequer franziu o cenho, fez os consagrados muxoxos e – menos ainda – encenou arroubos retóricos com aquele vocabulário de rábula do século XIX. Desde os primeiros momentos da ascensão emedebista que ficou patente o medo do mandatário de Tietê dos militares. Primeiro, livrou-os da reforma da Previd…

Cunha estava certo: Brasil precisa de misericórdia divina

“Que Deus tenha misericórdia desta nação”, vaticinou o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no dia da votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT), em abril de 2016. Pouco depois, acabou afastado do cargo, perdeu o mandato e, hoje, aguarda sentença de prisão em uma penitenciária no Paraná. Mas suas palavras foram premonitórias, quase proféticas: de lá para cá o Brasil segue descendo a ladeira, sob o controle de um grupelho que a própria Polícia Federal classifica de “quadrilhão”, chefiado pelo próprio presidente da República, Michel Temer (PMDB-SP). Principal artífice da deposição do petismo, Eduardo Cunha falava com autoridade: afinal, confabulava com Michel Temer – principal beneficiário da manobra – e, certamente, sabia quem ascenderia a partir da derrocada de Dilma Rousseff. Mas, mesmo assim, o turbilhão político gira numa velocidade incontrolável, com desdobramentos cada vez mais imprevisíveis até para quem ocupa lugar privilegiado no palco. A última…

Centro de Abastecimento desaparece na paisagem feirense

Milhares de feirenses transitam, todos os dias, pelo Terminal Central. Quem se desloca por ali, passa pela avenida Canal ou pela própria rua Olímpio Vital vê as obras do festejado shopping popular avançando. No início, o que havia eram apenas os tapumes metálicos. Depois, foram se erguendo as colunas cinzentas que dão sustentação ao empreendimento. Por fim, nos últimos dias, vão sendo colocados o teto e os pisos que demarcarão os andares. Máquinas e operários trabalham, frenéticos. Quando a obra estiver concluída o Centro de Abastecimento vai perder visibilidade: quem circula por ali só vai enxergar o novíssimo empreendimento, portentoso, que já desperta interesses até de empresários chineses e coreanos, embora se argumente que o espaço abrigará a variada fauna de camelôs e ambulantes que se espalha pelas ruas do centro da cidade. Só quem passa pela avenida Canal é que vai seguir enxergando o Centro de Abastecimento. Porém, contrastando com o novo símbolo do progresso feirense, a visão …

A interminável espera para o recadastramento biométrico

Tenho ouvido, com frequência, reclamações de eleitores sobre a dificuldade de fazer o cadastramento biométrico no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) aqui na Feira de Santana. O serviço, pelo que percebo, é péssimo nas duas modalidades: seja tentando agendar horário pela Internet, seja comparecendo ao posto para enfrentar filas monumentais e ficar, horas intermináveis, aguardando atendimento, exposto ao sol, à chuva e a uma humilhação injustificável. Adepto moderado das novas tecnologias – e de um mínimo de comodidade – tento, há semanas, agendar o bendito atendimento, sem sucesso. Invariavelmente, as vagas são todas preenchidas em alguns poucos minutos: nunca consegui, sequer, esboçar a marcação. Ou enxergar, sequer, a mínima disponibilidade. É irritante embora, contraditoriamente, fique comovido – quase às lágrimas – com a demonstração de civismo do feirense. Pretendo seguir tentando mais algum tempo. Quando vier a desilusão de que não conseguirei reservar uma mísera vaga, vou começar a…