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Oposição não vai se restringir aos partidos políticos

Nos próximos meses a oposição à extrema-direita – que chegou ao poder no Brasil – deve se recompor e começar a se articular. Contrariando a lógica pretérita – na qual os partidos políticos eram, praticamente, os únicos catalisadores da insatisfação com os donos do poder – o País deve viver experiências inéditas a partir daqui. Muitos ainda não perceberam, mas aquele intervalo batizado de Nova República – e que se estendeu de 1985 a 2016 – findou. Uma nova dinâmica deve reger a política desde já. Isso significa que a importância relativa dos partidos políticos, por exemplo, deve diminuir. Desde 2013, com aquelas monumentais manifestações, ficou evidente que os canais convencionais da democracia representativa – como os parlamentos – estão desgastados e precisam sintonizar-se às ruas, arejar-se, refletir o que pensa o cidadão comum. Isso não foi feito até aqui. E deu no que deu: um candidato de extrema-direita – Jair Bolsonaro (PSL) – com um calculado discurso iconoclasta chegou ao poder,…
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Vizinho Uruguai é referência democrática na América do Sul

É sempre prazeroso caminhar pelas ruas de Montevidéu, a capital do vizinho Uruguai. A cidade se irradia a partir da ciudad vieja – o centro antigo, que abriga o porto e imóveis imponentes, históricos – se estendendo ao longo do Rio do Prata, caudaloso, interminavelmente largo, com suas águas ora barrentas, ora plúmbeas. O prazer é mais intenso a partir da primavera, quando o inverno rigoroso é sucedido por um período de frio suportável e sol radioso. Andar, então, pelas calles pontuadas por plátanos, implica em satisfação adicional. Geograficamente, o Uruguai se espreme entre dois gigantes: a Argentina e, sobretudo, o Brasil. Foi, inclusive, palco de intensas disputas entre os portugueses e os espanhóis, que acabaram prevalecendo, isso séculos atrás, no período colonial. Essa disputa contribuiu – e a histórica cidade de Colônia atesta, com sua arquitetura híbrida, inspirada nas tradições das duas outrora poderosas nações ibéricas – para forjar o aguerrido espírito da população do peque…

A vitória de Tanatos

- Não tem um homem com autoridade para governar esse País, rapaz. Só tem ladrão. O inconformado trajava uma surrada bermuda escurecida pela graxa e uma camiseta verde, dessas de bloco de Micareta. Gesticulava, agitado, esticando o braço direito, muito queimado de sol. Defendia alguns trocados fazendo bico como borracheiro ou ajudante de mecânico. A pregação era numa daquelas biroscas ali nas imediações do Cemitério Piedade. Ambiente vulgar: marmanjos de bermudas e chinelos de dedo, esvaziando minigarrafas de cerveja em copos americanos ou encarando cachaça com ervas aromáticas em copos plásticos. Ouviam-no distraídos, mas havia quem concordasse. Noutra ocasião, num daqueles restaurantes minúsculos em um dos becos do centro da cidade um lavador de carros despejava, generoso, a farinha grossa sobre o prato-feito que ele se preparava para devorar. Um sorriso indiferente despontava sob o bigode farto enquanto o interlocutor – comerciário numa loja minúscula de acessórios de som – doutrinava…

Começam especulações sobre as eleições 2020

Antes mesmo da realização do segundo turno das eleições presidenciais já começaram as especulações para as eleições municipais de 2020. Falta muito tempo ainda: são pelo menos dois anos e dois meses de gestão; ou seja, mais da metade de um mandato. Até lá, muita coisa deve acontecer neste Brasil cada vez mais imprevisível. E esses acontecimentos, sem dúvida, vão influenciar nas realidades locais. É precipitado, portanto, o esforço para ir desenhando cenários, mapeando potenciais pré-candidatos, visualizando tendências que estão longe de se confirmar. Indagado, o ex-prefeito José Ronaldo de Carvalho (DEM) – principal liderança política local – preferiu desconversar. A prudência é cabível: afinal, faltam dois anos até as eleições. Supreendentemente, apesar do longo intervalo, o petê já começou a se movimentar. Foi o que se percebeu com o inesperado anúncio de que lideranças políticas locais – incluindo o deputado estadual Carlos Geilson (PSDB), que não se reelegeu – estão migrando para a …

Lá vem chegando o Verão

Lentamente o verão vem se aproximando. O indício mais visível é o aumento médio da temperatura. Desde meados de julho que o sol se impõe, radioso, em manhãs e tardes que foram, aos poucos, se tornando incandescentes. Houve dias abrasadores – via-se pouca gente circulando pelas ruas – e, logo a seguir, vieram chuvas tímidas que, pelo menos, atenuaram o calor. Mas as temperaturas elevadas estão retornando e devem se estender, no mínimo, até o mês de março. Quem é de olhar o céu, porém, vê a proximidade do verão sob outra perspectiva. Começa pelo alvorecer, que vai se antecipando, encurtando a madrugada, despertando os pássaros que cantam em álacre sintonia. É quando a luz do sol atinge as copas das árvores com uma luz alaranjada, irreal, ainda cálida. Depois – durante quase todo o dia – o azul assume uma tez esbranquiçada, que reflete a luminosidade estonteante. Só lá pelo meio da tarde em diante – depois das 15 horas – é que o espetáculo se aproxima do clímax, com o astro dourado declina…

Eleições e “Fake News”

“Por que você não quer acreditar nessa notícia?”. A indagação foi feita a um profissional de imprensa feirense numa dessas redes sociais que se acessa pelo celular. A notícia – se é que se pode chamar assim – era uma evidente mentira sobre um poderoso político da capital. Mas, nesses tempos em que se propala muita fé, bastava um pouco de crença para que aquilo fosse visto como fato em potencial. Justamente nisso aí o profissional da imprensa foi cobrado: “Por que você não quer acreditar nessa notícia?”. Um pouquinho de credulidade converteria aquilo em verdade. Daí a sair compartilhando, bastava um leve impulso. A “notícia” era mentira, mas, mesmo assim, os comentários ácidos se multiplicaram – aquele habitual e covarde linchamento virtual – com a ferocidade costumeira. Mas, renitente, essa indagação – “Por que você não quer acreditar nessa notícia?” – ficou pulsando na memória. É que ela definiu – de forma involuntária, diga-se de passagem – com felicidade rara esses tempos de beligerâ…

Recessão segue esquecida nas eleições presidenciais

“Vende-se”. “Fulano Vende”. “Aluga-se”. “Aluga”. Placas com essas sentenças curtas estão espalhadas por toda a Feira de Santana. Mas não somente por aqui: quem dispõe da oportunidade de fazer uma longa viagem rodoviária – sobretudo atravessando mais de um estado e, sobretudo, distintas regiões do País – consegue perceber que anúncios do gênero constituem regra. A amplitude é democrática: vai dos pequenos lugarejos esquecidos pelo sertão até as badaladas metrópoles do Sudeste do Brasil. Nos grandes centros urbanos, a propósito, o apelo é mais aflito: começa nas regiões industriais à margem das rodovias e vai se insinuando pelos adensamentos periféricos, alcançando até mesmo aqueles bairros badalados que figuravam nos encartes imobiliários das publicações. Indústrias desativadas, sedes extintas de grandes empresas, galpões que acomodavam fartos estoques que giravam vertiginosamente: tudo vai assumindo ares melancólicos com o abandono, a pintura que se apaga, as instalações que acomodam den…