quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A crise sob a ótica do mercado imobiliário

             
Ao longo do ano passado muita gente relutou em admitir que o Brasil começava a atravessar uma severa crise econômica, certamente a mais profunda em mais de um século. Alguns, por questões políticas: aceitar a recessão implicava em colocar-se na defensiva, depois de quase uma década da frenética pujança consumista legada pelo lulopetismo, que perdia o discurso a partir da debacle econômica. Outros mostraram-se arredios mais por questão de temperamento, de dificuldade em aceitar que o País ingressava em uma quadra dura, de desemprego elevado e de consumo declinante. São os otimistas incorrigíveis.
                Enquanto a recessão transitou pelo noticiário, com os esotéricos indicadores econômicos em gráficos indecifráveis, tudo bem: aquilo assemelhava-se aos incessantes debates estéreis que a imprensa teima em repisar, sem efeitos práticos. Pouco a pouco, porém, a crise foi migrando da retórica e dos indicadores para a vida real: muitos foram perdendo seus empregos, outros tantos viram seus negócios minguarem, impactando sobre a renda.
                Os primeiros sinais, sutis, começaram a ser percebidos aos poucos. As filas nos supermercados e nas padarias diminuíram, sobretudo nos horários de pico. Os insanos engarrafamentos foram encurtando, aporrinhando menos, sem nenhuma causa milagrosa: a queda na renda e a elevação no preço dos combustíveis forçaram muitos a manter seus veículos nas garagens, esvaziando as ruas.
                  Bares e restaurantes foram perdendo clientes, porque as constantes incursões noturnas pesaram no orçamento. O valor da conta, que nos tempos de bonança não assustava, passou a ser destinado às necessidades mais urgentes. Com isso, a perversa espiral declinante eliminou muitos empregos no outrora promissor setor de serviços, que experimentava um boom inédito nas últimas décadas.

                Setor Imobiliário

                Nos últimos meses a crise passou a pontuar a paisagem sob uma outra perspectiva: a da imensa oferta de imóveis comerciais para venda ou aluguel. Há apenas uns poucos anos era difícil achar loja disponível ou mesmo uma sala no centro da Feira de Santana: os negócios prosperavam e muitos disputavam esses espaços com sofreguidão. Parecia que tudo aquilo que se punha à venda tinha demanda assegurada.
                Aos poucos, desde o ano passado, a situação foi mudando. Muitos empresários tentaram resistir, heroicamente, à falência: recorreram a promoções, enxugaram o que podiam, mas a profundidade e a extensão da crise impediram a continuidade de inúmeros negócios. Dessa forma, tristes queimas de estoque anunciavam, antecipadamente, mais uma baixa provocada pela crise.
                Com isso, placas e cartazes apelativos começaram a se espalhar pelo centro da cidade e adjacências, anunciando a venda ou o aluguel dos mais diversos imóveis comerciais. Com o tempo, muitos desses anúncios se desgastam, rasgam-se, denotando o esforço vão. Afinal, a recessão segue feroz, mordiscando trabalhadores e empresários. A grande imprensa, depois da deposição de Dilma Rousseff (PT), até tenta atenuar a situação, enxergando sinais de arrefecimento da crise, sem convencer.
              Otimista, o novo governo enxerga modesto crescimento do Produto Interno Bruto – PIB para o ano que vem, algo em torno de 1,2%. Muito pouco para as imensas necessidades do País, que mais uma vez viu se diluírem as vãs esperanças de um ciclo duradouro de crescimento. De qualquer forma, talvez a partir de 2017 comecem a se reduzir os incontáveis cartazes de “vende” e “aluga” que tornam deprimente a paisagem do centro comercial da Feira de Santana.

O Coronel é uma instituição latino-americana



Dizem os estudiosos, gente metódica do meio acadêmico, que o Coronelismo acabou; Que se trata de fenômeno histórico, esgotado quando Getúlio Vargas triunfou com sua revolução, lá em 1930, sepultando a República Velha. Bobagem: mais que uma categoria ou um elemento de análise sociológica, o Coronelismo é um estado de espírito, uma forma de ser, uma visão particular sobre o mundo e a sociedade. E persiste até os dias atuais, apesar de todos os esforços, infrutíferos, para considerá-lo sepultado.
O Coronel é uma figura pitoresca que não floresce num lugar determinado do Brasil: simbiótico, ele encarna todas as metamorfoses necessárias, mostrando-se perfeitamente ajustado às mais distintas regiões do País. É como o camaleão, cuja tonalidade da pele encarna as características do ambiente em torno. E, faça-se justiça, é figura continental: vê-se espécimes semelhantes espalhadas pela América Latina, emergindo dos fundos de província com seu bigode indefectível, com seu chapéu panamá, com sua retórica beligerante.
Vá lá que, hoje, os espaços de atuação dos Coronéis minguam, relegando-os, aos poucos, às municipalidades enxutas de população, aos rincões distantes, àqueles pedaços de Brasil onde as instituições ainda inspiram respeito e – mais do que elas – as figuras dos Coronéis, já sem os rebenques, mas muitas vezes ainda calçados de botas e, sobretudo, com aquele tom de voz calculadamente intimidador.
Expurgados das metrópoles, dos centros urbanos mais modernos, acomodam-se aos teatros políticos mais modestos, àquelas pequenas cidades onde chamam o eleitor pelo nome, onde sua fortuna é reconhecida e admirada. Tudo bem que estejam em extinção: mas extintos, relegados aos compêndios de História, ainda não, é opinião presunçosa.

A essas alturas, curioso, o leitor mais exigente deve estar cobrando uma caracterização mais clara, até mesmo um conceito preciso sobre essa figura controversa e, ao mesmo tempo, pouco definida. Pois bem: elencaremos um conjunto de características que, embora passe ao largo do conceito preciso, fruto de laborioso empenho acadêmico, vai aproximar o leitor dessa figura que transita do mostruário histórico à rotina diária das repartições públicas, das robustas análises sociológicas ao eito contemporâneo das fazendas.  
Comecemos pela função: Coronel é chefe político. Necessariamente. Essencialmente. Questões relativas à política local, apoio às lideranças subnacionais – estados ou províncias, já que analisamos uma personagem que transcende fronteiras – e até nacionais, acordos eleitorais, tudo passa por ele. Esteja ele ou não no exercício do poder direto, lá na prefeitura, ou via seus apadrinhados, é ele quem emite a palavra final. E essa costuma ser lei, pelo menos para aqueles que o cercam.
A condição de chefe político rende respeito e deferência: os clubes de serviço, as ordens maçônicas, as instituições beneméritas, todos lhe rendem homenagem, reservam-lhe postos destacados em sua hierarquia, consultam-no em suas decisões. Nas solenidades nas quais pululam autoridades engravatadas, que recendem importância e distinção, seu discurso é ansiosamente aguardado e o espaço que lhe granjeiam é, sempre, o mais nobre. Pouco em função do conteúdo, mas muito em virtude de sua condição, como se vê.
É desnecessário dizer o quanto é respeitado e temido na prefeitura, entre os barnabés. Um sorriso ao final de uma piada sem graça é a senha para gargalhadas entusiasmadas entre os que o cercam; um rosnado ou um olhar atravessado provocam calafrios; uma ordem impulsiona uma reação muscular quase instantânea para atendê-lo; e um elogio, um gracejo, um gesto de estima do Coronel elevam o conceito do beneficiário entre seus pares, num misto de admiração e inveja.
 O locus para enxergar o Coronel em sua plenitude, no entanto, não é entre seus pares respeitáveis nas incontáveis solenidades que se inventam ao longo do ano. Tampouco entre a burocracia das repartições, que o teme e, invariavelmente, costuma lhe dever favores. Menos ainda entre os infelizes que lhe servem em suas fazendas, já que o Coronel, em essência, está vinculado ao setor rural. Mesmo que, eventualmente, não tenha uma origem rural, compra terra, porque isso confere maior respeitabilidade.
O Coronel é Coronel em sua plenitude é no contato com o povo, nas esquinas, nas calçadas, nas vielas sem pavimentação nem saneamento da periferia, nas portas dos casebres da zona rural, nas feiras-livres semanais. Nas missas ou nos cultos, nos torneios de futebol que rendem troféus e medalhas, nas festas religiosas ou folclóricas, nos churrascos e celebrações dos cabos eleitorais exercita seu papel com indizível prazer. Conta piadas, narra estórias, relembra causos, desperta simpatias.
Diante de uma casa pobre recomenda juízo à infeliz que vaqueja os filhos pequenos e descalços; adiante, rememora histórias antigas com uma idosa arqueada; acolá promete, sisudo, analisar o pedido de trabalho de um desgraçado de olhos baixos; numa esquina, relata feitos esportivos à turma do futebol, que finge acreditar; mais adiante, entabula conversa com o dono do mercadinho que marcha com o Coronel em todas as eleições.
O apreço à imagem de tocador de obras marca o clímax da encenação: o que está pronto ele examina com escrúpulo minucioso: quando é calçamento pergunta se a poeira e a lama cessaram; praça ele cobra conservação, em tom intimidador, aos azarados que eventualmente estejam por lá durante a inspeção; nas visitas às escolas recomenda às crianças que estudem, senão viram vagabundos, malandros, desocupados, acabam-se na cachaça, largados pelas esquinas, num ócio vergonhoso.
Coronel é sinônimo de respeito às leis, às instituições, à família, à pátria e, sobretudo, à propriedade. Em suma, é um conservador. Boa parte desse respeito, convenha-se, é para consumo externo: contornam-se as leis quando é necessário; as instituições servem para viabilizar interesses, às vezes, inconfessáveis; a família comporta amantes variadas e, em alguns casos, um filho bastardo porque o Coronel precisa referendar sua macheza; a pátria é importante porque, nela, acomodam-se o conjunto dos interesses dos Coronéis, cuja gula exige fronteiras amplas. Propriedade é conceito mais estável, embora flexível quando se trata de cofres públicos.
Essa disposição conservadora, no entanto, costuma ser flexibilizada nos períodos eleitorais. É quando o Coronel abraça a democracia, embala-a ternamente, alça-a à condição de valor político supremo. Isso era dispensável no passado, mas, com todas essas prosopopeias modernas na rua, ele vê-se obrigado a essas concessões no plano retórico. Mas só no plano retórico: nos gabinetes, nos conchavos, nos bastidores, prevalece a hierarquia verticalizada, a ordem incontestável, o tom duro de voz, o olhar intimidador.
A essas alturas o leitor, cético, dirá que o Coronel confunde-se com a figura do político em exercício de mandato. E, implacável, dirá que, sendo assim, o Coronel é figura universal, que também pisa o solo civilizado dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Não se trata, portanto, de uma glória exclusivamente latino-americana, como os Andes, os pampas ou a caatinga. Sendo assim, a figura exposta exige definição mais ajustada e recomenda, por fim, que o cronista estude mais, aprofunde suas reflexões e que extraia uma caracterização mais particular.
Reconheço que, aqui ou ali, as rotinas, a hierarquia, a deferência e as honrarias coincidem. Mas refuto qualquer pretensão acadêmica: a condição de Coronel aqui exposta transcende o mundo material e as convenções sociais. Eleva-se ao nível da subjetividade e revela, na essência, um jeito de ser, de enxergar o mundo e, sobretudo, a si mesmo. É condição com fumos de realeza, já que se conta com um trono imaginário à disposição; e flerta com uma espécie de santidade profana, de aura mística, que os métodos científicos convencionais não conseguem captar.

   

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A Reforma da Bíblia


Eu nem sabia que era possível apresentar emenda para modificar a Bíblia. Pelo que entendi, isso é possível lá no Planalto Central, em Brasília, na Câmara dos Deputados. Atribuição de político graúdo. Não é à toa que os mais entendidos dizem que na capital do País se fazem coisas que até Deus duvida. Ou talvez não recomende, como é o caso em questão. Confesso que isso me animou: com muita modéstia, sem aquela circunspecção teológica dos doutos nas Sagradas Escrituras, tenho lá minhas humildes propostas para aprimorar a Bíblia, ajustá-la a algumas necessidades da vida moderna. Mas claro que só faria isso a partir de intensos debates, ouvindo especialistas e a comunidade, como é a praxe nos dias atuais.
 Meu problema é chegar lá, no Planalto Central: é longo e tortuoso o caminho de quem ascende na vida partidária. Daqui a dois anos tem eleição para deputado federal mas reconheço que, hoje, minhas chances são mínimas, mesmo com uma plataforma eleitoral reluzente: a reforma das Sagradas Escrituras. Serei repudiado por muitos, reconheço. Mas muita gente anseia por mudanças. É nessa faixa do eleitorado que eu aposto.
Imagino que meu primeiro estágio eletivo seja na Câmara Municipal aqui da Feira de Santana. Nesse 2016 já não dá mais: perdi prazos, por enquanto não tenho apoiadores e faria uma campanha muito modesta, andando a pé, sem dinheiro para remunerar cabos eleitorais. Mas, de antemão, já lanço minha candidatura para 2020. Claro que, daqui a dois anos, terei que enfrentar a corrida eleitoral – com poucas chances de vitória, reitero – apenas para ficar mais conhecido, divulgar minhas pretensões reformistas.
Não vou enganar meus eleitores: na Feira de Santana não é possível apresentar emenda, mudar a Bíblia, nada disso. Mas vou apresentar um argumento irrefutável: aqui, conversando com os feirenses, vou coletar propostas, construir consensos, amadurecer ideias. Assim, quando chegar em Brasília e encaminhar as emendas, a Feira de Santana estará na vanguarda da reforma da Bíblia. Já penso até em ser o vereador mais votado...

Reforma Latino-americana

Corro o risco da demasiada sinceridade, mas tenho ambições amplas: ficarei, provavelmente, apenas dois anos como vereador. Meus eleitores já ficam de antemão avisados. Em 2022 – bicentenário da Independência – darei o primeiro grande salto: migrarei para a Assembleia Legislativa. Lá, pretendo fazer caravanas por todas as regiões do estado para, em plenárias, coletar mais propostas. Entre os estados, a Bahia estará na vanguarda da reforma da Bíblia.
Sendo assim, as mudanças nas Sagradas Escrituras só devem começar, mesmo, daqui a uns dez anos, quando me eleger deputado federal. Alguns podem julgar o prazo demasiado longo. Mas é coisa do processo legislativo, do debate de ideias. Descontando a roubalheira, nada é célere em Brasília. A demora tem um lado bom: não permitirei emendas oportunistas, coisa de quem só pensa no imediato. Não: a reforma será pensada nos mínimos detalhes. Modéstia à parte, é uma postura equilibrada, típica de quem tem perfil para liderar a frente parlamentar da reforma da Bíblia...
Finda essa tarefa, não pretendo seguir em Brasília: meu apego àquelas benesses do poder é nenhum. Isso se deve a mais uma ambição: reformar a Bíblia no âmbito da América do Sul, quiçá da América Latina. Pretendo, pois, entrar num desses parlamentos latinos aí. Claro que terei problemas, são diversos idiomas distintos, o esforço vai exigir gente altamente especializada. Mas acho que vale a pena.
Por fim, não temo nenhuma represália divina. Estou convencido da lisura dos meus propósitos. Pelo que soube, Deus disse: “ai de quem retirar um til da Bíblia”. Concordo, mas com uma ressalva: no aramaico, idioma original das Sagradas Escrituras, esse acento não existe. Logo, pelo jeito, pode se mexer à vontade. E, aqui, é possível contornar essa restrição: basta promover antes mais uma reforma ortográfica, abolindo esse famigerado til. O problema é que isso pode gerar mais atrasos na reforma da Bíblia...

       

País precisa de eleições presidenciais já

                                
                Quem observa a cena política brasileira de fora, sem a passionalidade de quem mergulhou no lufa-lufa disputando nacos de poder a unhas e dentes, não consegue deixar de constatar que o melhor para o país é a realização de eleições presidenciais o mais rápido possível. Dilma Rousseff (PT) caiu em função de diversos fatores – inclua-se aí a crise econômica e o evidente estelionato eleitoral de quem se elegeu prometendo uma coisa e, depois, fazendo outra – e seu sucessor, Michel Temer (PMDB), além de ter urdido a manobra que apeou a antecessora do cargo, tenta implementar uma agenda que não passou pelo crivo das urnas.
                Ambos ostentam, portanto, múltiplas fragilidades: ela, apesar de eleita, conduzia um governo claudicante desde os primeiros momentos; ele, exibindo ares de “Salvador da Pátria”, chafurda na mesma lama do clientelismo, operando como gerente de um grande balcão fisiológico. Ambos constituem péssimas opções. Nada melhor, portanto, que a realização de novas eleições.
                A possibilidade de que ocorram novas eleições, porém, é mínima: o PMDB jamais admitiria a hipótese de deixar o poder que não conquistaria pela via eleitoral. Os petistas, por sua vez, já acham que o mais cômodo é aguardar 2018 e apostar no desgaste do atual governo. Entre os demais atores políticos, a ideia é desencorajada por aqueles que não podem abdicar dos seus cargos no momento e que preferem esperar mais dois anos para, eles mesmos, disputarem as eleições presidenciais.
                O ideal seria recomeçar do zero, conferindo legitimidade a quem se candidatasse e vencesse a eleição, seja quem for. Mas, movida por suas conveniências particulares, a classe política, como sempre, caminha na contramão dos interesses do País, optando pela manutenção do caos atual. Afinal, embora milhões de brasileiros estejam desempregados e outros tantos vejam seus rendimentos minguarem, os políticos mantêm, intocados, seus inúmeros privilégios. Para eles, não há problema em aguardar 2018.
                Paradoxalmente, em meio a esse atoleiro político, preparam-se eleições municipais, como se não houvesse nenhuma crise em curso no país. Nada de se discutir o sistema político apodrecido, a excrecência de mais de três dezenas de partidos, o jogo fisiológico que determina vitoriosos e vencidos. Finge-se que nada está acontecendo, justamente para ficar tudo como está. É essa a lógica que vai reger as próximas eleições.

                Fundamentalismo

                É possível que as bancadas religiosas se ampliem nos municípios, aprofundando a mistura explosiva entre Estado e Religião. Com isso, tendências de cerceamento de direitos de segmentos específicos da população – como mulheres, homossexuais e adeptos das religiões de matriz africana – podem se aprofundar, com desdobramentos catastróficos no futuro.
                O abuso do poder econômico vem filtrando os eleitos, favorecendo ainda mais quem detêm o capital. Não é à toa que, nos parlamentos, prevalecem discussões que favorecem, estritamente, esses grupos. É o caso do renitente discurso da “flexibilização” trabalhista, eufemismo para extinguir direitos de trabalhadores. Sonegação e reforma tributária progressiva, por outro lado, são temas banidos.
                A baixa qualidade do perfil dos eleitos também vem contribuindo para tornar as coisas piores. Nessas situações, emergem temas como o “combate ao comunismo”, o fim do “viés ideológico” da educação, a revogação do estatuto do desarmamento, a burocratização do atendimentos às vítimas de estupro e inúmeras outras sandices. Mais que proposta de candidato conservador, é bandeira de quem tem pouca desenvoltura com padrões mínimos de civilidade.

                Enquanto isso, o presidente interino e sua equipe econômica urdem um arrocho brutal para a próxima década, traçado sob encomenda pelo capital financeiro. Nesse cenário, ao povão restará tomar as ruas e pressioná-lo, já que o presidente-caranguejo sempre recua quando pressionado...   

Hábitos urbanos mudaram celebrações juninas



Os festejos juninos costumam figurar no imaginário do nordestino como um período de fartura. Uma trégua breve em meio às constantes agruras climáticas que afligem a região. Daí, provavelmente, derivou inicialmente a alegria contagiante do período, associada à ampla variedade de quitutes e bebidas consumidas nesses dias de festa e, também, à profusão de fogos que fazem a alegria de adultos e crianças. Isso, claro, ocorre no contexto da celebração cristã. Junho, aliás, é prenhe em homenagens a alguns dos mais populares santos católicos.
Noutros tempos, em anos bons, as chuvas caíam até o dia de São José, em 19 de março, assegurando colheita farta em meados de junho, quando se comemora o São João. Com todos os desarranjos climáticos em curso no planeta – com evidentes impactos sobre a frágil caatinga nordestina – essa tradição, em parte, se desfez porque as precipitações, em alguma medida, se tornaram erráticas.
Não foi apenas o regime climático que provocou mudanças nos festejos juninos. Antigamente, gigantescas fogueiras agregavam famílias, que compartilhavam pratos, o licor caseiro comum no período, as alegrias da noite iluminada pelo espocar dos fogos. As crianças, álacres, saltavam fogueiras, os adultos improvisavam quadrilhas. Embalando tudo, o autêntico forró nordestino, com seu retinir contagiante.
A redução da população rural foi fragilizando essas tradições: os migrantes foram se ajustando às idiossincrasias da vida urbana, adquirindo novos hábitos e esquecendo os antigos, muitos deles incompatíveis com as limitações impostas pela rotina da cidade. Nos grandes centros urbanos o fenômeno foi mais intenso, mas alcançou com o mesmo vigor cidades do porte da Feira de Santana nas últimas décadas.

Festa Tradicional

Há pouco mais de 30 anos as fogueiras pontuavam as noites dedicadas a São João. Uma densa fumaça cobria as ruas; aqui e ali casais arrastavam os pés, muita gente conversava animada pelo licor e pelo forró que rádios e radiolas amplificavam; os fogos despertavam amplo entusiasmo, sobretudo entre as crianças. A festa era, essencialmente, comunitária, mobilizando famílias e vizinhos próximos. Muitos aguardavam o São João com ansiosa expectativa.
Nos anos de Copa do Mundo, a alegria era redobrada. Vivia-se, ainda, o êxtase do futebol brasileiro como o melhor do planeta, como aquele que produzia craques em profusão, que encantava plateias ao redor do mundo. Quando a Seleção Brasileira era eliminada antes da festa de São João, no entanto, o ânimo decaía. Muitos afogavam a tristeza do esporte em generosas doses de licor.
A aspereza da vida urbana diluiu essa felicidade singela em algumas décadas. Os forrós familiares foram substituídos pelas grandes festas em palcos gigantescos, que atraem milhares de visitantes, para alegria dos prefeitos que pagam cachês generosos. O repertório tradicional, com Luiz Gonzaga e o Trio Nordestino, foi substituído por incontáveis grupos de qualidade duvidosa, que com o tempo descaracterizaram o forró. Até pagodeiro figura como atração em festa junina hoje.
 Mas, apesar desses percalços, algumas tradições permanecem. Na Feira de Santana, o movimento foi mais intenso essa semana, com muita gente comprando o amendoim, o milho e a laranja no Centro de Abastecimento e nas feiras de bairro. Mesmo com a crise, não faltou quem investisse em fogos e no licor tradicional, sobretudo o da afamada produção da vizinha Cachoeira. Confirmando a tendência recente, é provável que as ruas da cidade se esvaziem nessas noites, dando à festa um ar melancólico, com balões passando errantes, silenciosamente, como diria o poeta Manuel Bandeira.

   

Governo Temer vai conseguir “desinventar” a roda

                
                

                Michel Temer (PMDB) mal completou um mês como presidente interino, mas, do jeito que vai, o Brasil vai acabar realizando a proeza de “desinventar” a roda durante a sua gestão. É espantoso o retrocesso que se desenha para o País – que, evidentemente, nunca foi grande referência civilizatória – nesses primeiros dias do polêmico mandato. Os sinais mais inquietantes são os próprios “notáveis” recrutados para promover a festejada “Salvação Nacional” e a agenda política que essa gente traz no bocapio. É coisa de encantar nossos coroneis da primeira metade do século passado.
                O problema, crônico, começa nas biografias pouco recomendáveis: figurando no ministério, pululam investigados na Lava Jato e em outros escândalos de corrupção. Exatamente o que aqueles que foram às ruas em março asseguraram repudiar. Questões polêmicas e temas delicados foram repassados para gente com trajetória, no mínimo, controversa, como se verificou na agência do futebol e na secretaria das mulheres.
                Isso para não mencionar o instrumento que definiu a distribuição do butim: o balcão, essa imortal instituição nacional que faz a alegria de uns poucos, em detrimento dos interesses de quase todos. O que era, a propósito, veementemente condenado nas ensandecidas manifestações antipetistas, mas que, logo depois, foi esquecido, embora a prática venha ganhando impulso redobrado nos últimos dias.
                 Delegar o galinheiro às raposas ou o alambique aos biriteiros, porém, ganhou ares de normalidade nos últimos dias. É o que se constata acompanhando o noticiário. O que na gestão petista era o ápice da degeneração da política, tornou-se, subitamente, imperativo da governabilidade. E tome ar estoico de apresentador de tevê, enquanto o cidadão pacato engulha em casa.
                E, por enquanto, o País perplexo testemunha as preliminares. Nos próximos dias – caso o noticiário sobre as escabrosas escutas arrefeça um pouco – a pacoteira de maldades deve ser remetida para a apreciação das excelências do Congresso Nacional. Para aprova-lo, aposta-se na doçura do baixo clero, mimoseado à farta na queima de estoque do balcão fisiológico.
               
                Trabalhadores
               
                Conforme a premonição apontava, quem deve pagar por aqueles patos amarelos distribuídos à farta são os trabalhadores e a turma da base da pirâmide social. Isso apesar de todas as solenes declarações contrárias. Aposentadoria aos 65 anos, terceirização ampla, geral e irrestrita e arrocho salarial – sobretudo nos funcionalismo público – estão entre os remédios amargos que serão ministrados apenas ao povão.
                Isso, no entanto, é o de menos: a história do País é prenhe em episódios do gênero. Problema mesmo é a agenda que pretende remeter os brasileiros da República Velha à Idade Média. Coisa de constranger os compatriotas mais esclarecidos que viajam ao exterior. Para ficar em dois exemplos: as restrições à educação em sala de aula – querem regular o conteúdo exposto pelos professores – e, até mesmo, censurar o conteúdo da internet, para que não se fale mal dos políticos.
                Nesses primeiros dias já emergiu até um dos símbolos dessa nova era: o polêmico ator pornô que, alçado à condição de teórico da educação, esteve em Brasília apresentando suas ideias de redenção nacional. No primeiro momento pareceu piada, mas, depois, a confirmação do episódio reforçou a sensação que estamos retrocedendo, céleres, para as cavernas.
                Abertamente orientado pelo clientelismo, sufocado por suspeitas de corrupção e portador de propostas que, em qualquer país civilizado despertariam apenas repulsa, o governo Michel Temer é uma explicação contundente do porquê um país com tantas riquezas e potencialidades chafurda, há séculos, no chamado subdesenvolvimento.
                Só faltava a pecha de agente do imperialismo ianque sobre o presidente interino para realçar o ar retrô que as mesóclises tanto evocam. Pois não falta mais: segundo documentos vazados do governo norteamericano, ele exerceu a função de leva-e-traz no passado. Sobre isso, tudo o que houve foi o silêncio ensurdecedor da chamada grande mídia...
               

                

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Lições da crise no Legislativo

               

O deplorável espetáculo protagonizado por centenas de deputados no processo de votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) na Câmara dos Deputados, em meados de abril, mostrou ao brasileiro médio quem o representa no parlamento. O regozijo grosseiro, o êxtase impudente e a vacuidade de ideias esconderam-se numa trinca de chavões – Deus, família e o torrão natal –, sob a batuta do usufrutuário Eduardo Cunha (PMDB-RJ), artífice do processo e eminência parda do novo governo. Em suma, um circo de horrores. Houve constrangimento mesmo entre aqueles que militavam pela deposição da presidente petista.
                  Durante intermináveis seis horas os oradores sucederam-se, anunciado seus votos. O processo mostrou que a política brasileira é homogênea: figuras execráveis existem dos remotos Amapá e Roraima até o Rio Grande do Sul ou o Ceará, passando por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, os três principais colégios eleitorais do País. Muitas hipóteses tentam explicar o triste cenário político.
                A justificativa mais rasteira coloca a culpa, estritamente, no eleitor: é ele quem elege aqueles que o representam. Outros enxergam o problema no financiamento privado de campanha: para esses, o grande mal é o dinheiro privado, que corrompe e ajuda a selecionar os mais propensos à patifaria. Há também quem enxergue o problema sob uma perspectiva mais ampla, atribuindo o problema ao sistema político como um todo.
                Mudar a lógica carcomida, hoje, é improvável: quem deveria reformá-la são, justamente, aqueles que se elegem sob ela, seus beneficiários. O sistema político conduziu o Brasil à tutela do baixo clero, que dava as cartas sob o petismo e que, agora, ascendeu ainda mais vitaminado com o PMDB de Michel Temer, embora a imprensa venha “esquecendo” esse detalhe.

                Câmara Municipal

                Essa lógica carcomida não alavanca apenas aqueles que são eleitos para o Planalto Central: corrói também as assembleias estaduais e se distribui, democraticamente, pelos mais de cinco mil municípios brasileiros. Feira de Santana, como todos sabem, não iria passar imune a esse processo. A atual legislatura na Câmara Municipal não era objeto de uma avaliação simpática nem quando foi eleita, em 2012. O passar dos anos apenas confirmou a impressão desfavorável.
                Um exemplo é que, nesses mais de três anos, pouco se discutiu as questões relevantes para a vida da cidade. O transporte público, envolto numa infindável sucessão de crises – que resultou inclusive numa paralisação completa dos serviços, que se arrastou por dez dias – nunca recebeu a atenção dos vereadores. O que se fez de mais audacioso foi ensaiar uma CPI, que acabou refugada dias depois, sem maiores explicações.
                Por outro lado, a reivindicação de mais privilégios foi constante. Melhores condições de trabalho – a exemplo de mais carros e mais assessores – foi tema recorrente. Nesse 2016, a propósito, lá nos estertores do atual mandato, a atual Câmara Municipal deve se conceder mais um reajuste generoso, como ocorre em todos os finais de mandato. Em 2012, a propósito, o aumento foi tão escandaloso que virou notícia nacional. Tudo sinaliza que, lá em outubro, o espetáculo se repetirá.
                A educação na Feira de Santana claudica: estão aí os indicadores nacionais para comprovar; na saúde, o atendimento costuma ser ruim, isso quando há atendimento; incontáveis buracos tornam a vida de pedestres e motoristas um inferno; e os transtornos no trânsito seguem imensos, mesmo com a redução do volume de carros pelas ruas, em função da crise econômica.
                Mesmo assim, se fala pouco dessas questões no legislativo feirense. Produção, mesmo, só para a concessão de títulos e honrarias ou para decretar a utilidade pública de alguma instituição anônima.  Sem dúvida, o nível da Câmara Municipal está muito aquém das necessidades da Feira de Santana. Resta esperar pelas eventuais mudanças de outubro. Caso hajam.