quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Plante uma Árvore

Já faz algum tempo que o feirense padece sob um calor insano. O dia, normalmente, até começa com muitas nuvens no céu e uma brisa agradável. Mas às oito da manhã o sol já esquenta rijo, apressando o passo de quem sai para suas ocupações. A partir daí torna-se implacável: à medida que se encaminha para o centro do céu as sombras encurtam, espantando quem está pelas ruas.
Diversos termômetros espalhados pela cidade sinalizam que, nesses dias, das dez em diante, atingimos facilmente os 35 graus. Aí a temperatura só começa a declinar das três da tarde em diante. Mas mesmo quando a luz do sol vai ganhando aqueles tons alaranjados do final da tarde o calor ainda é intenso. E notem que o verão nem começou. Pelo menos oficialmente.
Registros indicam que, noutros tempos, a Feira de Santana era conhecida por seu clima agradável. Arrimo de boiadas e boiadeiros, o antigo arraial tinha vastos reservatórios de água superficial e a vegetação que combinava mata atlântica e caatinga permanecia bem preservada, mesmo com presença da pecuária extensiva. A área urbana se limitava a meia-dúzia de artérias.
A implacável expansão urbana foi tangendo os limites da cidade para aqueles morros azuis, distantes, limítrofes do rio Jacuípe; as lagoas, lentamente, foram sendo aterradas: poucas escaparam das invasões e da especulação imobiliária; e o concreto, o vidro, o asfalto e o metal erigiram uma lógica urbana que revogou o verde.
Historicamente a Feira de Santana nunca contou com um planejamento urbano adequado. Jamais se pensou na oferta de parques e jardins, a exemplo do que existe em dezenas de grandes e médias cidades brasileiras. As árvores que sobrevivem nas ruas e nas praças são antigas e maltratadas. Assim, nos meses de estio, as temperaturas elevadas fazem a cidade fervilhar.   
Todos os dias se repete, na tela das tevês, o espetáculo da previsão do tempo. Gráficos, mapas e números desfilam diante dos olhos do telespectador. Para completar, ainda há o didatismo performático da “moça do tempo”, embora já existam marmanjos assumindo a função. Fartos em dados, esses quadros explicam pouco o que vai acontecendo com o clima das cidades.
Dizem que a tendência é de piora contínua: o mundo se aquece em função das intervenções humanas e as populações das grandes cidades padecem com as temperaturas elevadas. Caso essas previsões se confirmem no longo prazo, o Brasil Setentrional – essa porção que abarca o Nordeste e o Norte – tende a ser mais afetado pelas temperaturas elevadas.
Isoladamente, é difícil o indivíduo reverter essas tendências. Mas alguns gestos podem ajudar a amenizar a aspereza da vida nas cidades. Nesses tempos de temperaturas tórridas, plantar uma árvore no quintal de casa ou nas calçadas espaçosas é uma boa ideia. Precisamos de mais árvores aqui na Feira de Santana.

Carro do ovo é o retrato da crise econômica

Lá por meados dos anos 1990, quando exercia o primeiro dos seus dois mandatos presidenciais, Fernando Henrique Cardoso cometeu um deslize que teve ampla repercussão: disse que os pobres vinham melhorando de vida e que estavam, inclusive, consumindo produtos como frango, iogurte e prosaicas dentaduras. A oposição, à época, fustigou o governo com discursos implacáveis; e não faltaram comentários irônicos da chamada grande mídia que, até então, exercia seu papel com mais inteligência e independência.
Naqueles tempos, pobre só consumia frango aos domingos. Era uma piada corrente, mas com inegável fundo de verdade. Afinal, os brasileiros emergiam de anos de hiperinflação – que, invariavelmente, penalizava os mais pobres – e, àquelas alturas, o salário-mínimo patinava em valores irrisórios, muito abaixo dos almejados 100 dólares que povoavam os sonhos da oposição.
Obviamente, essa penúria se refletia no cardápio das periferias. Muita gente suava para garantir o feijão, a farinha e, eventualmente, o arroz das refeições. Carne, peixe ou frango contracenavam nos dias de pagamento, festas ou em épocas de prosperidade transitória, que eram raras. O ovo era a companhia mais comum no prato do pobre e, exatamente por isso, ficou marcado por forte estigma.
Na década seguinte veio o espasmo petista de prosperidade: salário-mínimo crescente em termos reais, ampliação de benefícios sociais e políticas de transferência de renda focalizadas, a exemplo do Bolsa Família. Nesse período, pobre passou a comer carne – preferencialmente filé –, conforme jactava-se o ex-presidente Lula em seus discursos.
Passaram-se uns poucos anos de frenesi econômico, sobreveio a crise avassaladora e os pobres foram reapresentados àquela antiga companhia nas refeições: o ovo. Na Feira de Santana começaram a circular carros vendendo o produto e pode-se dizer que o carro do ovo se tornou o símbolo desses anos de recessão e de dificuldades para a outrora badalada “Classe C”.
Esses veículos circulam pelas imediações do centro da cidade, pela periferia e pelos bairros populares dentro do perímetro do Anel de Contorno; empregam potentes alto-falantes para alardear o produto; e utilizam como principal chamariz o preço altamente atrativo: 30 ovos custam irrisórios R$ 10; e, o que é ainda mais atraente, entregam o produto na mão, na hora, sem necessidade de sair de casa.
Não existem veículos padronizados: circulam antigas kombis, utilitários e mesmo automóveis populares, comprimindo a mercadoria em espaços minúsculos. Nos intervalos da propaganda, tocam canções gospel, arrocha ou sertanejo universitário. Muitos fazem roteiros determinados, retornando todas as manhãs para cativar a clientela.
Até nos bairros nobres de Salvador carros do ovo circulam: veículos muito semelhantes a esses que rodam pela Feira de Santana já foram vistos na aristocrática Graça e na elitizada Barra. Com direito, inclusive, a polêmica na imprensa, porque um desses veículos foi multado pela prefeitura soteropolitana. Pelo que se vê, o brasileiro vai emergir da crise em sintonia com antigos hábitos, como comer ovo com frequência nas refeições. Até aqui, nada retrata melhor a feroz crise econômica que o carro do povo.

Movimento no comércio feirense decepciona

As vendas natalinas na Feira de Santana não devem ser das mais favoráveis nesse 2016 que finda nos próximos dias. Simples observações pelas ruas da cidade indicam que o consumidor feirense está reticente, circulando muito pelas vias comerciais, mas aventurando-se pouco lojas adentro. Ressalte-se que a tendência não se verifica apenas aqui na cidade, mas em todo o País. Mais um desdobramento da terrível recessão que se arrasta há dois anos e que, por enquanto, não dá sinais de que vá arrefecer.
Todos os anos o comércio funciona em horário especial em dezembro, em função dos festejos de final de ano. É quando cresce o volume de consumidores e muita gente dispõe do décimo-terceiro salário como recurso extra. Daí o horário de funcionamento expandido, o que inclui jornadas especiais aos domingos. Em função do maior conforto, muitos preferiam comprar nessas datas.
Nos dois últimos domingos o comércio feirense funcionou. O fluxo de consumidores, comparado ao de anos anteriores, foi decepcionante. Tanto que muitas lojas sequer abriram: provavelmente, os empresários constataram que não está valendo apostar em clientes incertos, temerosos de assumir novas dívidas. Nas lojas que abriram, muitos comerciários passaram parte do dia ociosos, à espera de eventuais compradores.
Em três anos – a partir de 2014 – o mercado de trabalho feirense experimentou uma retração inédita: cerca de 10% daqueles que possuíam empregos formais perderam seus postos de trabalho. Isso para não mencionar as perdas, dificilmente estimáveis, ocorridas no mercado informal; nem a robusta compressão nos lucros de micro e pequenos empresários que ajudam a dinamizar a economia feirense.

Mercado consumidor

O declínio nas compras e as lojas desertas decorrem dessa violenta redução no mercado consumidor. E essa retração é mais intensa em função da crise prolongada demais, até mesmo para os padrões brasileiros. Em muitas situações, quem tinha alguma poupança dispersou-a e já não dispõe de reservas; e outros seguram suas reservas, receosos de que a recessão se arraste ainda por muito tempo.
Aparentemente, os negócios devem se aquecer nessa reta final, a partir do pagamento do décimo-terceiro salário. Mas não o suficiente para compensar as perdas significativas desse 2016 de intensas crises econômica e política. Há, também, a influência de um fator cultural: habitualmente, o brasileiro deixa tudo para a última hora, incluindo aí as compras natalinas. Assim, aproximando-se o Natal, as vendas devem ganhar algum fôlego.
Mas o fato é que, a exemplo do ano passado, 2016 foi um ano de intensas dificuldades econômicas. E, até aqui, 2017 desenha-se como menos promissor que já foi no passado: as expectativas indicam que a recuperação da economia deve ser lenta e que o mercado de trabalho só deve começar a reagir lá pelo segundo semestre. O PIB – Produto Interno Bruto não deve alcançar, sequer, ínfimo 1% de expansão.
Notícia boa só o expressivo recuo da inflação. Mas isso se deve, em grande medida, às estratosféricas taxas de juros e à própria recessão que desencoraja o consumo e, por consequência, segura a elevação dos preços. O cenário permanece nebuloso e, por enquanto, o País segue ansioso aguardando boas notícias. Sabe Deus quando é que elas virão...

Mendigos e pedintes retornam às ruas feirenses

Quem circula pela Feira de Santana vem notando: tem crescido o número de pedintes, mendigos, moradores de rua e outros deserdados pelo centro da cidade. Também vem se ampliando a quantidade de vendedores que circulam pelos ônibus, oferecem seus produtos pelas praças e avenidas ou que tentam arranjar-se como camelôs, confiscando espaços exíguos das vias públicas para exibir seus produtos. Tudo isso se deve à feroz crise econômica que assola os brasileiros há dois anos.
Mulheres maltrapilhas, com crianças de colo, voltaram a se tornar rotina nas portas dos bancos, na frente dos supermercados, na estação rodoviária ou em qualquer ambiente pelo qual circule gente com dinheiro. Sobretudo nesses dias que antecedem o Natal, quando os brasileiros embolsam o aguardado décimo-terceiro salário.
Nos pontos de ônibus os passageiros recorrem a variados contorcionismos para se desviar dos carrinhos-de-mão e dos vendedores que apregoam suas mercadorias aos gritos. Muitos ambulantes embarcam nos ônibus, descrevendo, aos berros, os produtos que oferecem. Nesses dias de calor insano, água e picolés figuram entre os mais populares.
À noite ou aos domingos é possível ver moradores de rua improvisando camas de papelão ali pela avenida Getúlio Vargas, defronte de lojas fechadas pela crise. Dormem sob marquises, catam papelão e lata, criam cães hostis e sorvem generosas doses de aguardente. Alguns conversam enquanto o sono não chega nas inquietas madrugadas feirenses.

Cortes

Nos anos de bonança muitos mantinham empregos modestos ou dedicavam-se a ocupações precárias que traziam alguma renda. Com a crise e o crescimento do contingente de excluídos, inúmeros deles perderam seus recursos e, forçados pela situação, foram viver na rua ou encorpar as fileiras dos autônomos e ambulantes. Tudo isso com elevada precariedade, conforme uma rápida inspeção pode constatar.
Para piorar, o novíssimo regime, instituído a partir da deposição do petismo, orquestrou uma série de investidas conta a assistência social no País. Reduziu o número de beneficiários do Bolsa Família, restringiu o seguro-desemprego e o seguro pago a pescadores, além de desidratar iniciativas que favoreciam a população carente, como o acesso a medicamentos mais baratos nas farmácias populares.
Além de afrontar os mais pobres, o governo demonstra incapacidade de resgatar o Brasil do atoleiro da recessão. Estão aí inúmeros indicadores para atestar. E estão aí as medidas anunciadas essa semana – cosméticas, em alguns casos, e insuficientes, noutros tantos – que não despertaram o entusiasmo, sequer, dos governistas mais exaltados.
Previsões otimistas sinalizam para o fim da recessão somente na segunda metade de 2017. Tomara que estejam corretos. E tomara que o governo atual – irremediavelmente alvejado no quesito ético – não constitua um empecilho adicional. Mas, hoje, tudo indica para o acirramento da crise política, com efeitos nefastos sobre a vida dos brasileiros – e feirenses - mais pobres.

Um sonho para João

Recorro, mais uma vez, a João, aquela personagem fictícia que criei num texto anterior. Hoje ele tem nova missão: será protagonista no cenário da famigerada PEC do Teto de Gastos. Aquela mesma que foi aprovada no Senado essa semana. Tumultuada, a sessão foi marcada por incontáveis arroubos cívicos das excelências que foram favoráveis à medida. A partir daqui, acione-se o cronômetro que fará a contagem regressiva para o colapso dos serviços públicos num futuro próximo. Isso se, antes, não acontecer uma convulsão social.
A chamada grande imprensa passou os últimos dias alardeando que a PEC iria “limitar os gastos públicos” e “conter a gastança do setor público”. Mentira: nessa armadilha, ficam de fora os juros da dívida pública, porque simplesmente não há limite para esse tipo de despesa na esperta medida redentora.
O governo, portanto, vai retirar recursos da saúde, da educação, da assistência social e da previdência para remunerar o capital financeiro. É dinheiro que sai dos serviços essenciais prestados à gente sofrida para as algibeiras dos banqueiros. Significa uma espécie de distribuição de renda às avessas, na qual quem tem pouco fica com quase nada e quem tem muito fica com praticamente tudo.
Para justificar a medida, saem com o argumento malandro que saúde e educação terão, pelo menos, a reposição da inflação nos próximos anos. Também não passa de empulhação. Com a crise, a arrecadação caiu drasticamente. Lá adiante, com a retomada, essa arrecadação começa a crescer em termos reais, acima da inflação. Os repasses para os serviços públicos, porém, permanecerão congelados, acompanhando a inflação. Logo, haverá uma sobra em termos de recursos.
Para onde vai esse dinheiro? Para os bolsos dos banqueiros. Serão 20 anos de arrocho, com consequências sociais bastante previsíveis: redução ou suspensão nos serviços públicos, arrocho sobre servidores e precarização nas condições de trabalho. Se não houver reações, em breve, regrediremos aos patamares de países africanos em guerra.
É claro que a gastança sem freios do governo Dilma Rousseff (PT) era insustentável. O problema é que, num átimo, o País migrou de um extremo a outro. O novo regime não tem legitimidade eleitoral e alveja justamente os mais pobres.

E João?

Caso o leitor não recorde, João tem 18 anos, é afrodescendente e mora na periferia da Feira de Santana. Ajusta-se perfeitamente ao perfil dos que serão fustigados pela festejada PEC do Teto de Gastos. Mas não apenas por ela: está aí, à mesa, a proposta de reforma da Previdência que vai condenar João a trabalhar pelos próximos 50 anos, no mínimo; e vem aí o que ainda falta no tripé da revogação dos direitos mais elementares dos brasileiros: a reforma trabalhista.
Enquanto os dedos batucam o texto, penso no que posso fazer por esse João fictício que vai sofrer horrores pelos próximos 50 anos. Sinceramente, não enxergo perspectivas: poderia amenizar suas dores tornando-o torcedor do Fluminense de Feira; poderia fazê-lo fã do pagode, do sertanejo universitário, distraí-lo com redes sociais ou com programas de televisão.
Mas isso não resolve, João vai permanecer à margem da sociedade, exposto ao risco de se tornar, quem sabe, um marginal. Afinal, o que não falta são facções recrutando garotos para o crime Brasil afora. Nas periferias esquecidas, são as únicas instituições que alcançam os excluídos, descontando a polícia e as igrejas.
Resisto. E prefiro imaginar um futuro mais nobre para João. Creio que vou vê-lo despertar, aos poucos, para a realidade que o cerca, sem sucumbir ao desespero. Aposto, até, que as agruras que se desenham vão contribuir para que o brasileiro resgate o senso coletivo que foi se diluindo ao longo das últimas décadas. João, espero, vai acabar arrebatado por esse incipiente espírito de luta. É, certamente, um sonho. Mas é isso ou a barbárie sem nenhum pudor.

Xamanismo econômico do PMDB dá chabu

Dilma Rousseff (PT) ainda cambaleava com a rasteira aplicada pelo emedebismo quando o controverso Michel Temer (PMDB-SP) anunciou seus planos para a economia brasileira. Principal beneficiário da orquestração que defenestrou o petismo, o polêmico presidente prometia os primeiros sinais de recuperação econômica para um horizonte curto, já em meados de 2016, no máximo no quarto trimestre. Para justificar, brandia o resgate da festejada “confiança” dos mercados financeiros.
O discurso oficial recauchutava uma série de clichês, destacando-se a defesa da redução do tamanho do Estado. Para quem observava com mais atenção era visível que o novo regime abraçava uma espécie de xamanismo econômico, com o deus mercado ocupando a condição de principal totem. Aquilo parecia pouco para vencer a crise.
O transcorrer dos meses mostrou que os instrumentos invocados pelo emedebismo para debelar a profunda recessão na economia brasileira são, no mínimo, insuficientes. Segundo a pajelança oficial, bastava aprovar a controversa PEC do Teto de Gastos e arrochar o direito do brasileiro à Previdência para “colocar o País nos trilhos do desenvolvimento”, conforme o mantra repetido ad nauseam.
Alguns números divulgados recentemente desmentem esse otimismo inconsequente. Pelas estimativas, a retração na atividade econômica deve superar os 3,4% em 2016; ano que vem, a economia vai crescer menos de 1%; a chamada confiança declina a cada levantamento; e a própria inflação só cai satisfatoriamente em função da profunda recessão em curso.

Pacote

Para essa semana foi anunciado um pacote de medidas de curto prazo, sob o pretexto de estimular a atividade econômica. Dizem que o objetivo é desviar as atenções do escândalo das delações da Odebrecht, cujo conteúdo começa a se tornar conhecido. Ou seja, o governo pretende recorrer a um malabarismo econômico para tergiversar sobre o descalabro ético que o abalroa.
O anúncio lembra muito aqueles pacotes lançados nos estertores da ditadura militar e no governo José Sarney, mais pirotécnicos que efetivos. É provável que produza efeito limitado sobre a economia real. Não é negligenciável a possibilidade que, ao longo de 2017, as insatisfações cresçam com a paralisia econômica.
A insatisfação, a propósito, já é visível, conforme atestam os números de uma pesquisa divulgada no último fim de semana: a avaliação do governo piorou, assim como as expectativas em relação à economia. Não é improvável que os brasileiros retomem as manifestações de rua, tornando ainda mais grave o cenário político do País.
Até aqui falta uma causa que una amplos setores da sociedade, tornando as mobilizações mais sólidas. Talvez essa causa seja a deposição do novíssimo regime. A cada dia fica mais evidente que Michel Temer e sua trupe não tem condições – políticas, éticas e morais – de remover o Brasil do atoleiro no qual a gestão Dilma Rousseff e o próprio PMDB o meteram.

O drama de João

João é personagem fictício: criei-o agora, na abertura desse texto, para ilustrar a temerária reforma da Previdência encaminhada para o Congresso Nacional essa semana. Não faz mal: João tem tantas características em comum com milhares de pessoas que, provavelmente, o leitor vai considerá-lo familiar, quase conhecido. Pra começar, João é feirense e, portanto, brasileiro; jovem: mal completou os 18 anos; é pardo, reside na periferia e frequenta a rede pública de educação.
João procura emprego: apesar da idade, ainda não concluiu o ensino médio; até aqui, só conseguiu alguns bicos, temporários e precários, que lhe renderam alguns trocados para ajudar nas despesas domésticas. Os impactos da crise já lhe são familiares: conhece muita gente que perdeu o trabalho modesto ao longo desses dois anos de intensas agruras econômicas.
Agora, João tem ouvido dizer que a Previdência vai sofrer mudanças. O que se fala é que pobre não vai mais ter direito à aposentadoria.
Num cálculo rápido, ele constatou que precisará trabalhar até 67 anos para conseguir se aposentar com aposentadoria integral: quase meio século de labuta. Isso num cenário otimista, se ele conseguir emprego imediatamente: apesar das dezenas de currículos despachados para diversas empresas, nada de convocação para entrevistas.

Aposentadoria é utopia

Desanimador é pensar que, ao longo desse meio século, João provavelmente vai trocar de emprego inúmeras vezes; nesses intervalos, deve ficar sem contribuir para a Previdência, retardando o sonhado descanso na velhice. Tudo indica que aposentadoria integral, para ele, não vai passar de utopia.
A luta de João, portanto, não vai ser para desfrutar de proventos integrais, mas para alcançar os 25 anos mínimos de contribuição. Calcula mentalmente e constata que, mesmo esse feito, vai ser difícil: em 47 anos, precisará de um quarto de século de contribuição. É muita coisa num País cujo mercado de trabalho é tão instável.
Afinal, João já se vê tentado a vender mídia pirata de músicas e filmes pelos bares da Feira de Santana; com sorte, pode se tornar um desses vendedores de quinquilharias importadas da China, com banquinha no centro da cidade; caso dê tudo errado, vai prestar pequenos serviços, esporadicamente, na condição de biscateiro. Nada disso é emprego formal, seguro, que garanta o recolhimento da Previdência.
Desse jeito, João é forte candidato a se tornar, no futuro distante, um velho paupérrimo, à cata de pequenos biscates, caso a saúde permita. Se sobreviver – hipótese nem tão provável – poderá requerer benefício social, inferior ao ínfimo salário-mínimo, caso alcance os 70 anos. Mas tudo conspira para que João fique pelo caminho, morra antes.

Mendigando atendimento

Trabalhador informal, pobre, João não vai pagar plano de saúde. Terá que mendigar o atendimento da rede pública. Só que essa vai oferecer serviços cada vez mais precários, em função da PEC do teto de gastos, que ao longo de 20 anos vai promover um tremendo arrocho sobre a saúde pública. Um problema mais grave pode condená-lo à morte nalgum corredor de hospital, como já é rotina Brasil afora.
Com certeza João vai passar a vida dependendo de algum benefício social, como o Bolsa Família, que tende a ser enxugado, tornando-se privilégio dos apadrinhados dos políticos. Não se duvide que ele se veja forçado a fazer biscates para manter o parco rendimento, por força de alguma lei. Já existe algo do gênero tramitando na Câmara dos Deputados.
João ainda não descobriu, mas no início da vida viveu uma trégua rara nas agruras impostas ao mais pobres no Brasil: valorização do salário-mínimo, ampliação de benefícios sociais e investimentos em políticas sociais – mesmo que manquitolas – que beneficiaram os mais pobres, como as cotas e os programas de habitação.
Essa trégua, como se percebe, findou. A austeridade e os sacrifícios serão impostos exclusivamente aos mais pobres. Mas isso João nunca vai saber. Está aí a imprensa dizendo o contrário, o dia todo. Restará a ele a infindável labuta imposta à patuleia desde a Colônia.
Trabalha, João, pra ajudar o Brasil a se desenvolver !!!