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Mostrando postagens de julho, 2022

Energia da morte tensiona ambiente eleitoral

  Às vezes dá vontade de ignorar inteiramente os temas políticos. Adotar uma deliberada atitude de alienação. Mas é difícil. Não apenas pelo hábito, consolidado desde a adolescência, de acompanhar o noticiário político, mas sobretudo por conta dos horrores recentes, que se sucedem, intermináveis. O último deles – o assassinato do dirigente petista Marcelo Arruda durante a própria festa de aniversário, no interior do Paraná, por um fanático bolsonarista – mostra, novamente, que o Brasil flerta com uma guerra civil no curto prazo. Não é de hoje que se nota, por aí, lunáticos de extrema-direita dispostos a tudo. Inclusive a promover um banho de sangue, em nome sabe Deus do quê. Não, talvez o diabo é que saiba, embora a maioria dos fanáticos alardeie que é cristã, conservadora, movida pela fé. Exatamente como o assassino que entrou em ação no Paraná, começando a escalada de violência que marcará as eleições presidenciais. Pesquisas indicam que muitos jovens gostariam de ir embora do Bra

Uma carta extraviada de Rubem Braga

  Mais de uma vez já declarei que sou fã juramentado de Rubem Braga, um dos maiores expoentes da crônica no Brasil. A admiração é antiga: num livro escolar – era de Língua Portuguesa – na remota sétima série, deparei-me com uma crônica do “Velho Braga”, como os amigos o apelidaram. Era “Recado ao Sr. 903”. Li-a muitas vezes ao longo do ano letivo, em inesquecíveis manhãs de sol. Naquele tempo, já era refém de certa disposição para a escrita. Embora ainda não soubesse definir – tinha só 13 anos – a profunda poesia daquela prosa me encantou. Adulto, aqui ou ali fui adquirindo livros, consolidando a admiração, que só aumentou ao longo dos anos. Nas andanças da vida visitei muitos sebos e, em alguns deles, encontrava uma ou outra publicação mais rara. “Crônicas do Espírito Santo” e “1939: Um episódio em Porto Alegre” são alguns títulos que encontrei ao acaso, em São Paulo, em Porto Alegre. As maravilhosas possibilidades oferecidas pela Internet reforçaram essa afinidade. Pesquisando aqui

Digressão sobre os nevoeiros feirenses

  Oprimido pelo nefasto noticiário, matutei. Por fim concluí que, às vezes, é bom desenvolver uma fixação qualquer. Sei lá, alguma coisa que absorva, que exija dedicação contínua, que demande tempo, que distraia, que areje. Depois de alguma busca – tudo muito aleatório, sem grande lógica, é bom ressaltar – resolvi investir nos nevoeiros, nessa neblina que envolve parte das manhãs feirenses no inverno. Sumiram nos últimos dias, reapareceram hoje, mas em junho foram bem intensos. Reconheço que descrever nevoeiros é extravagante: quem navega pela Internet é pragmático, quer o noticiário útil, muitos desejam aprender a ganhar dinheiro, outros almejam emocionar-se com relatos de superação, com arrepiantes testemunhos religiosos ou, então, buscam o mero entretenimento. Mas, mesmo assim, insisto nesta divagação. Numa manhã do fim de junho, por exemplo, a névoa foi se encorpando no começo da manhã. Sob as primeiras luzes da alvorada, parecia contida, comportada: restringia-se aos cumes dos e

A holandesa em Cachoeira

  Aqui da Feira de Santana não ficaram impressões marcantes: a sólida vocação rodoviária; o asfalto, o turbilhão de veículos, o trânsito caótico; o verde escasso, a pouca sombra que espanta precariamente o calor, mesmo no inverno; o emaranhando de placas, paineis, banners, coloridos, apelativos, poluidores; a azáfama comercial, quase palpável, que tensiona a atmosfera; sobretudo a malha urbana que se espicha – longa, plana, sufocantemente horizontal – esmagando, com seus tentáculos, a Caatinga e a Mata Atlântica das cercanias. A BA 502 despertou sentimentos contraditórios: a buraqueira na pista, a poeira às margens da estrada, as fachadas descoradas, tristonhas, das empresas, a desolação dos depósitos, dos galpões industriais, a lufa-lufa nas oficinas mecânicas, nas borracharias, nas lojas de auto-peças, nos bares e restaurantes com suas placas vermelhas, amarelas, chamativas. Mais adiante, porém, bucólicas comunidades rurais – coloridas pelas festivas bandeirolas juninas – ostentav

Motociata no rodoanel do feirense é refresco

  Na Feira de Santana, do alto do viaduto inacabado na BR 116 Norte, defronte à Uefs, Jair Bolsonaro, o “mito”, assinou hoje (01) a ordem de serviço para duplicação de trecho oeste do Rodoanel. Corrija-se: do Anel de Contorno. Não moveram sequer uma pá de terra, mas, pelo jeito, já mudaram o nome da via, talvez tentando canhestramente mimetizar o festejado rodoanel da Região Metropolitana de São Paulo. Obra, aliás, que é dos tucanos do PSDB paulista. Para o badalado ato na Feira de Santana, sobre a terra nua das obras lançaram uma camada de asfalto, numa via lateral, para o “mito” chegar ao topo do viaduto. Ali montaram um palanque, com toldos e gradis. A multidão que aguardavam não se confirmou: menos na metade do espaço ocupado pelos toldos foi preenchida. Sob as obras, na pista, o movimento intenso do tráfego na BR 116. Poucos caminhoneiros buzinavam ou acenavam para o ato em apoio ao “mito”: parece que ele já não entusiasma tanto a categoria. Alguns até se manifestaram, mas a mai

O vizinho da boca de crack

  -Vejo eles pra lá e pra cá, à noite, até de madrugada. Sabe aquele clipe de Michel Jackson, com os fantasmas? Parece aquilo... Os olhos muito vivos, a boca aperta de espanto. O comentário é de um cidadão pacato – comerciante, pai, casado, católico, até conservador, quase avô, respeitador das leis – aterrado com os usuários de drogas que costuma ver nas cercanias de onde mora. O clipe que ele menciona é Thriller , sucesso estrondoso há cerca de 40 anos. Nele, zumbis emergem, contracenam com Michael Jackson, astro pop daqueles tempos. O ir-e-vir dos viciados o estupefata. “Nunca pensei que seres humanos pudessem ser reduzidos àquilo”, confessa, o espanto crescente. Vê tudo à distância. Os espectros, assustadores, emergindo sob a luz opaca do poente, o movimento incessante numa esquina próxima quando as sombras da noite devoram o entardecer, o movimento suspeito e agitado dos traficantes. Costumava ver as cenas pela tevê, em São Paulo, no Rio de Janeiro, naqueles programas vespertin

A pandemia depois dos festejos juninos

  Muita gente não gosta de abordar o assunto porque julga que a pandemia acabou, que a Covid-19 se tornou um tema repisado, ultrapassado, que teima em não sair do noticiário e que, inclusive, não é mais moda. Quem se dispõe a abordá-lo passa por insistente, chato e até – supremas acusações – hipocondríaco ou comunista disfarçado, interessado em incutir o medo e difundir o pânico na pobre sociedade crédula. Mas o fato é que a pandemia não acabou. Os casos notificados e as mortes, a propósito, voltaram a subir no País. Os festejos juninos resgataram a arraigada tradição nordestina, reaproximaram familiares e amigos, entusiasmaram multidões, movimentaram a economia, dinamizaram diversos setores produtivos e injetaram uma sensação de normalidade, depois de dois desafiadores anos de pandemia. A frenética mobilidade e as inevitáveis aglomerações, porém, reacenderam o risco de disseminação da Covid-19, principalmente em função da emergência de uma quarta onda. Aqui na Feira de Santana, até

Feirense recebe valor médio menor do Auxílio Brasil

  No mês de maio, o valor da cesta básica caiu um pouco na Feira de Santana. Apuração do Programa Cesta Básica, do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas (Dcis) da Uefs, indicou que os 12 itens alimentares custavam R$ 501,48. Houve queda de 5,33% em relação ao mês anterior, segundo o levantamento. O tomate (-28,87%), a banana-prata (-5,71%) e o açúcar (-4,04%) estiveram entre os itens que registraram maior redução. Em abril, custava quase trinta reais a mais: R$ 529,71. Apesar do alívio relativo, garantir comida na mesa implica num desafio considerável para boa parte da população feirense. Quem é beneficiário do Auxílio Brasil – o antigo Bolsa Família, rebatizado por Jair Bolsonaro, o “mito”, pensando na reeleição – não consegue garantir os 12 itens na dieta familiar: o valor médio do benefício na Feira de Santana não vai além de R$ 401,29. O feirense pobre, coitado, é desprestigiado: comparativamente, os benficiários recebem valores médios maiores em Salvador (R$ 403,51), na próp

Um encontro com Waldick Soriano

  Dezembro de 1997. Nossa chapa perdera a eleição para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Uefs por míseros 17 votos de diferença. Isso num universo de quase dois mil votantes. Eu próprio figurara na comissão eleitoral, contribuíra na apuração. O resultado nos abateu. Que fazer para espantar a desolação, recobrar algum ânimo? Decidimos beber uma cerveja numa churrascaria que ficava na BR 116 Norte, bem defronte à própria Uefs. O final da manhã – a apuração ocorrera pela manhã - era ensolarado no campus. O verão se aproximava e, nas copas da árvores, pássaros trinavam. Era sexta-feira, a universidade estava meio vazia, o final do semestre se aproximava. Descontando o canto dos pássaros, havia um silêncio renitente. Naquela caminhada pelo campus havia, em mim, além da tristeza pela derrota eleitoral, uma vaga sensação de liberdade que se misturava a incertezas em relação ao futuro: no mês anterior o Jornal Feira Hoje fechara, eu fora demitido e o futuro profissional me inquieta

Cerca de um terço dos feirenses enfrentam extrema pobreza

  Se os números estiverem corretos, a Feira de Santana tem quase 1/3 de sua população em situação de extrema pobreza. É o que revelam dados divulgados pela Secretaria Nacional do Cadastro Único, a Secad, vinculada ao Ministério da Cidadania. Segundo o levantamento, 48,8 mil famílias estão nesta condição no município. Considerando-se que cada família é composta, em média, por quatro integrantes, o total corresponde a cerca de 200 mil pessoas. É quase o equivalente a um terço da população feirense, estimada pelo IBGE em 624 mil pessoas no ano passado. Enquadra-se na extrema pobreza a família cujos integrantes, em média, dispõem de renda per capita de R$ 105 por mês. Nesse conjunto figura a parcela da população que, no dia a dia, está exposta ao flagelo da fome. Levantamento recente indica que, em fevereiro, correspondiam a 17,5 milhões de pessoas. O aumento de inscritos no CadÚnico nessa condição em relação ao ano anterior foi de 11,8%. A quantidade de famílias em situação de pobreza

Penduricalhos do Auxílio Brasil não emplacaram

  Lembro muito bem do estardalhaço com que foi lançado o festejado Auxílio Brasil – sucedâneo do Bolsa Família - e seus diversos penduricalhos, há apenas uns meses atrás. Olhando de fora – nem todo brasileiro tem intimidade com o processo de formulação de políticas públicas – parecia algo magnífico, espetacular, revolucionário. O anúncio – como sempre – foi pomposo, solene, quase apocalíptico. Parecia simbolizar a redenção dos desafortunados pobres brasileiros. Não foram necessários tantos meses para se perceber o embuste. Basta checar os números, inclusive aqueles referentes à Feira de Santana. Os dados, a propósito, são do Ministério da Cidadania. Informações oficiais, geradas pelo próprio governo de Jair Bolsonaro, o “mito”. Não dá, portanto, para farejar “comunismo” ou coisa do tipo. O mês de apuração das informações é maio. Tome-se, como exemplo, um dos penduricalhos, o Auxílio Esporte Escolar. Segundo o Ministério da Cidadania, o benefício é concedido “aos estudantes que integr

Quantas pessoas passam fome na Feira?

  Notícias indicam que, no momento, 33,1 milhões de brasileiros estão passando fome. O levantamento é do Instituto Vox Populi. O número corresponde a 15,5% da população brasileira. Não é pouca coisa: a imprensa informa que a situação é a pior desde 2004, quando o levantamento começou a ser efetuado com a mesma metodologia. Naquela época, as políticas de transferência de renda apenas engatinhavam no País. No Nordeste, o cenário é mais dramático: 12,12 milhões de pessoas enfrentam a fome em sua rotina. Aqui na Feira de Santana quantas famílias convivem com a tragédia da falta de alimentos? Não há dados oficiais recentes. Em dezembro de 2019 – antes da eclosão da pandemia da Covid-19 e das agruras econômicas dela resultantes – o cadastro do Ministério da Cidadania indicava que havia 71,6 mil famílias com perfil para o então Programa Bolsa Família (PBF). A quantidade de famílias atendidas, naquele momento, correspondia a apenas 31 mil. Imagino que a pandemia tornou tudo muito pior. Afina

Festa junina antecede tormentoso trimestre

  Os acordes familiares dos forrós já tomam conta das ruas, das lojas, dos bares, das residências particulares da Feira de Santana. Aquelas bandeirolas típicas do período junino também já alegram os ambientes, mobilizando gente, entusiasmando as pessoas. Não faltam as bebidas e os pratos típicos do período: o amendoim cozido, o milho assado, a canjica, os bolos com os sabores da época, a diversidade de licores multicoloridos que aquecem os corações e adoçam os mais distintos paladares. Há quase três anos que o nordestino não pode se dedicar à sua festa mais celebrada – alguns locais promovem arrasta-pé durante todo o mês de junho – com o entusiasmo habitual, por conta da pandemia da Covid-19. Mas, agora, com o arrefecimento da doença – embora se registre, no momento, preocupante tendência de alta – a expectativa é de uma imensa folia, com forró, comida, bebida e o foguetório típico do período. Imagino os congestionamentos pitorescamente festivos que vão se irradiar a partir de Salva

Haverá reajuste na tarifa de ônibus em Feira?

  Sábado (04) a tarifa do transporte público em Salvador foi reajustada. Passou de R$ 4,40 para R$ 4,90. Vai pesar no bolso do soteropolitano, imerso nas agruras econômicas decorrentes da pandemia da Covid-19. Na justificativa para o aumento, o prefeito Bruno Reis (UB) alegou que, até agora, o Governo Federal não se posicionou sobre um subsídio de R$ 5 bilhões para ajudar as prefeituras e o Governo Estadual recusou-se a cortar o ICMS sobre o óleo diesel, o que contribuiria para atenuar o reajuste. O que é determinante na crise do transporte público, porém, é a perversa política de preços dos combustíveis, que se reflete também na escalada da inflação de maneira geral. Jair Bolsonaro, o “mito”, vocifera, esperneia, reclama, gesticula, mas é incapaz de mudar a famosa Política de Paridade Internacional – PPI, responsável pela ascensão vertiginosa dos preços. Teme perder o apoio da elite financeira. Daí o estardalhaço para consumo público e a conveniente inércia nos bastidores. É bom res