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Safra de grãos vira trunfo para escamotear crise política

Quem circula ali pela região sul da Feira de Santana, ao longo do Anel de Contorno, já deve ter percebido aquelas imensas carretas graneleiras que viajam cerca de 800 quilômetros entre o oeste baiano e o porto de Salvador. Os veículos transportam grãos – soja, principalmente, mas também milho e outros grãos – que, na capital baiana, costumam ser embarcados para longínquos destinos na Ásia, normalmente a China. No retorno, balançando sem o peso da carga, as carretas costumam enveredar ali pelo retorno do viaduto do Cajueiro. Umas poucas percorrem o perímetro urbano, atravessando toda a avenida Presidente Dutra.
O transporte da safra costuma acontecer entre meados de março e o início de junho. É quando extensas fileiras de carretas se sucedem pela BR 116 Sul, até o rio Paraguaçu, enveredando de lá para a extensa planície da BR 242. Pouco depois de Itaberaba, começam os trechos sinuosos, repletos de curvas acentuadas e frequentes, que prenunciam a Chapada Diamantina. Os que se aventuram para aqueles lados precisam de paciência nas ultrapassagens, já que os trechos favoráveis são raros.
Transitar em direção ao litoral é ainda mais arriscado: lentas, pejadas de grãos, as carretas sacodem pouco até mesmo nos imensos quebra-molas postados nos trechos urbanos, exigindo ainda mais paciência dos viajantes apressados. Em meio à paisagem exuberante, pássaros multicoloridos banqueteiam-se com os grãos que, aqui ou ali, caem das carretas e rolam para as margens da pista.
O monumental ritual do transporte da safra de grãos ganhou destaque no noticiário em 2017: mais de 200 milhões de toneladas, o maior recorde verificado em mais de duas décadas. Em grande medida, as condições climáticas favoráveis alavancaram o desempenho do setor que, no primeiro trimestre, impulsionou o combalido Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 1%. O governo festeja como título de campeonato de futebol.

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Alvejado por gravações espinhosas que põem em xeque sua questionável lisura, Michel Temer (PMDB-SP), o mandatário de Tietê, tenta desconversar falando do desempenho da economia. E injeta ares de normalidade na agenda do Congresso, que segue confabulando sobre sua hipotética saída. Quem se fia no discurso oficial, fica acreditando que as escabrosas gravações não passam de um fato menor no lodaçal de escândalos que balança o país há quase três anos.
Daí a ênfase no noticiário econômico, na pretensa recuperação da produção. Para reverter o jogo, vale até manobra na metodologia de cálculo do PIB, efetuada pelo IBGE: graças às mudanças, não é possível comparar os primeiros meses de 2017 com a série que findou em dezembro de 2016. Ninguém sabe, portanto, se o alegado “espetáculo” da retomada do crescimento é verdadeiro ou, apenas, mais uma manobra sorrateira do emedebismo.
A polêmica, obviamente, foi ignorada pela chamada grande imprensa. Parte dela, veladamente, tentar impulsionar o mandatário de Tietê – veladamente porque o apoio explícito a um candidato com taxa de aprovação inferior a dois dígitos é, estrategicamente, muito arriscado – e a outra metade o espicaça, aqui ou ali, até com menos intensidade ao longo da semana.
Mas, com maquiagem do PIB ou não, o mandatário de Tietê lançou alguma água na fervura do seu impedimento. E talvez – quem sabe? – até consiga arrastar-se, como cadáver político, até o fim do seu controverso mandato. Mas isso depende do que virá nos próximos dias. E os próximos dias, vistos daqui, são imprevisíveis. Aliás, como a política brasileira desde meados de 2014...

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