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O Brasil, segundo um profissional do volante

 

– Abriram uma galeteria ali no Anel de Contorno. Faz uns dois anos. No começo, o galeto custava 19 reais. Hoje, não sai por menos de 35.

Prosseguiu, pesaroso, a voz rascante acentuando o drama:

– Sempre gostei de comer carne do sertão. A mulher só faz feijão se tiver um pedaço de carne do sertão para colocar dentro. Lembro do tempo que custava 18 reais. Hoje não sai por menos de 45 ali na Marechal. Algumas já custam 60.

Para ele, o impacto do Auxílio Brasil – a bolsa reeleitoral instituída por Jair Bolsonaro, o “mito”, para tentar permanecer no poder – não vai ser tão grande junto ao eleitorado mais pobre. A inflação vai neutralizar o impacto do valor médio de R$ 400:

– Um botijão de gás custa quase 150 reais. Um quilo de carne, quase cinquenta. Só aí já vai metade do valor!

Ouvi o raciocínio numa viagem entre Salvador e a Feira de Santana. Começo de madrugada, escuridão densa que os faróis na BR 324 não conseguiam espantar. O cansaço da viagem, aquela escuridão incômoda, o barulho dos motores dos veículos que avançavam no sentido oposto tornavam a conversa mais dramática. As vozes ecoavam, lúgubres.

A escalada dos preços é vertiginosa. O emprego escasseia. Os direitos trabalhistas foram revogados. Serviços públicos de saúde e de educação sucatearam-se. A corrupção alastra-se. A economia parou. Somando-se a esses horrores, há o descalabro no meio ambiente, a violência urbana, a proliferação das milícias, o abjeto toma-lá-dá-cá nos corredores de Brasília.

Tudo isso foi repisado ao longo dos 108 quilômetros que separam Salvador da Feira de Santana. Mas, traquejado na vida, o sujeito cultiva esperanças. Mourejou durante décadas ao volante, aposentou-se, mas segue na ativa, a aposentadoria é insuficiente para bancar todas as despesas domésticas.

Suspirando, relembra a era Lula. Nela, explica, aprumou-se na vida. A vizinhança também se ajeitou, experimentando uma inédita prosperidade material. Indago sobre as acusações de corrupção, a roubalheira que a Lava Jato atribui aos petistas e a seus parceiros de consórcio eleitoral – embora, hoje, a imprensa só lembre do petê, esquecendo as demais legendas que refestelam-se no governo do “mito” – e ele responde, sem hesitar:

– Ora, ninguém é santo na política no Brasil! Quero que você um aponte um honesto! Um que seja! Diga lá!

Julguei mais prudente evitar polêmica. Num momento de esperanças difusas – até utópicas – aproveitei para indagar sobre o futuro, sobre como o Brasil pode desvencilhar-se desse horror. Para ele, a solução para abreviar os sofrimentos dos últimos anos é simples:

– Tem que tirar Bolsonaro do poder. Tenho certeza que ele não ganha essa eleição!

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