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Ecos da feira no centro da cidade

No dia 10 de janeiro de 1977 a Feira de Santana começou a perder um pouco de sua identidade. Naquele dia, os cerca de quatro mil barraqueiros que se espalhavam pelo Mercado de Arte e calçadões próximos, pela Praça João Pedreira e adjacências, mercadejando de um tudo, foram removidos para o novíssimo Centro de Abastecimento localizado no Parque Manoel Matias. A iniciativa compunha o Plano Local de Desenvolvimento Integrado, do então prefeito José Falcão da Silva. Acabava-se o lufa-lufa dos verdureiros das calçadas do Mercado de Arte, o cortar frenético dos animais nas bancas de carne verde, a exposição nas barracas de artigos de couro e barro, desaparecia o cheiro do peixe-frito que acompanhava as generosas doses de aguardente com ervas aromáticas, silenciaram os violeiros e repentistas e os vendedores de cordel de Lampião foram forçados a recolher seus produtos de papel pardo. A perspectiva, a partir daquela data, era de que o centro da cidade ganhasse ares modernosos. Sumiriam as bar...

Diversificando a economia: a oportunidade que a crise nos dá

É muito comum se afirmar que Feira de Santana conseguiu se consolidar como uma das mais importantes cidades do interior do Nordeste em função de sua localização estratégica privilegiada. Afinal, para aqui convergiam as boiadas do Piauí e de Goiás com destino aos mercados consumidores de Salvador e do Recôncavo; por aqui transitavam os mercadores em direção aos sertões, à cata de oportunidades de negócios; e aqui, por fim, começou a se desenvolver uma feira-livre cuja fama ainda persiste, embora tenha se adaptado à mais moderna configuração urbana. Nesse processo que se arrastou por séculos o comércio se consolidou e, com ele, o antigo arraial foi se transfigurando, ganhando contornos da cidade, incentivando o sedentarismo de muitos mercadores, constituindo rota obrigatória de muitos outros que não perdiam as feiras-livres realizadas semanalmente. No século XX começaram a prosperar os fabricos, estruturas industriais familiares voltadas para atender à crescente c...

O futuro das feiras-livres

Os rumos das atividades comerciais são ditados pelos hábitos dos consumidores. A constatação, que é óbvia, se aplica até mesmo aos gêneros de primeira necessidade, como os alimentos. As mudanças no comportamento dos indivíduos favorecem o surgimento de novas atividades comerciais, assim como põem em xeque antigas estratégias de comercialização. A maioria dessas mudanças, porém, ocorre de forma lenta, diluindo a percepção sobre a profundidade e a extensão. Atualmente, por exemplo, vivemos a prolongada transição que tirou as feiras-livres do centro das atividades comerciais. A origem das feiras-livres como estratégia de comercialização surgiu na Idade Média, quando as cidades começavam a florescer. Algumas das maiores cidades européias modernas são frutos das feiras que se organizavam com o propósito de permitir que produtores de distintas localidades comercializassem seus produtos. As distâncias, as dificuldades de locomoção e a intermitência das safras exigiam uma solução que as feiras...

A Micareta sofre de esgotamento cultural?

Nos próximos dias Feira de Santana será palco de mais uma Micareta. Outras cidades baianas também promovem carnavais fora de época para evitar a concorrência da capital, que monopoliza boa parte do público e os grandes artistas. Ao longo do ano há carnavais extemporâneos em capitais brasileiras, que assim reproduzem a estrutura da micareta feirense - por ser a pioneira -, também contratando os mesmos artistas e recorrendo a estruturas muito semelhantes. A semelhança no formato das festas permitiu que certas empresas se especializassem na promoção desses eventos, consolidando o que hoje se conhece como “indústria do entretenimento” ou “indústria do carnaval”. Espalhada pelo país, a atividade movimenta bilhões de reais todos os anos. O setor mais forte dessa indústria é, naturalmente, a prestação de serviços. Mas de serviços altamente especializados, que envolvem, por exemplo, o encantamento do cliente que opta por acompanhar a folia aboletado num camarote. Nes...

Patranhas do (Sub)desenvolvimento

Durante muito tempo se cultivou a idéia de que o desenvolvimento econômico era assunto para os técnicos do governo. E somente para eles. Detentores de um conhecimento transcendente e esotérico, esses profissionais tinham como atribuição determinar os rumos da sociedade e tomavam decisões que afetavam a todos os cidadãos. Nem sempre acertavam e nem sempre tinham o conhecimento que alegavam, mas como o tema era tratado apenas nos gabinetes dos governantes, cabalisticamente, os erros eram atribuídos ao imponderável. Só que as sociedades vão mudando. E mudam tanto que, às vezes, as propostas abalizadas de ontem transformam-se, hoje, em retórica ultrapassada. Quando esta retórica é aplicada à realidade, sempre causa prejuízos. E quem arca com os prejuízos é a sociedade. Antigamente os desastrados responsáveis pelas idéias equivocadas escondiam-se nos respectivos gabinetes. Se o dano era maior, recorriam aos padrinhos políticos que, se tinham cacife, sustentavam-nos nos cargos. Mesmo quando ...

O centro de Feira e o Centro de Abastecimento

Um fenômeno que atinge boa parte das metrópoles brasileiras é a decadência dos antigos centros comerciais ou regiões centrais das cidades. Em inúmeras delas as atividades econômicas deslocaram-se aos poucos para novos espaços, dotados de infra-estrutura mais adequada e que não enfrentam os gargalos das vias mais tradicionais (como as ruas estreitas que dificultam o fluxo de veículos ou as limitadas possibilidades de intervenção em locais onde existe patrimônio arquitetônico), tornando-se imediatamente atraentes para empresários e consumidores. Esse fenômeno começou há décadas e atualmente mostra algumas de suas conseqüências. A mais evidente delas é a decadência que caracteriza os antigos centros comerciais. Prostituição, consumo e tráfico de drogas passaram a ser traços marcantes desses locais, que em função do abandono e do descaso tornaram-se atraentes para mendigos e outras pessoas socialmente excluídas. Com o deslocamento ou a fixação de grandes empreendimentos (inclusive as ativi...

A decadência dos clubes sociais

O anúncio da venda do Clube de Campo Cajueiro (CCC), em Feira de Santana, me fez recordar um artigo publicado há dois anos, na Tribuna Feirense, tratando da questão. Conforme pode se ver abaixo, apontávamos que a decadência dos clubes era irreversível, por mais esforçados que tenham se tornado seus dirigentes. O CCC é um exemplo disso. Aproveitamos a oportunidades para reapresentar o texto: No passado, em época de Micareta, os clubes sociais de Feira de Santana atingiam o ápice anual do glamour. A elite local exibia seu luxo em festas que reuniam os ricos do município para inveja da multidão de pobres que não podia desfrutar do mesmo luxo. Hoje a situação é totalmente diferente e os clubes sociais não promovem bailes concorridos pelos mais elegantes e nem dispõem de blocos próprios, onde se acotovelava a “juventude dourada”, ávida por demonstrar que constituía parte da “nata” da sociedade local. O desprestígio e a decadência dos clubes sociais, porém, não é um fenômeno restrito a Feir...