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Lembranças de Havana (IX)

                        Há muitos anos, num desses debates de mesa de botequim, quando ainda militava no movimento estudantil, formulei uma ideia que considerei, de imediato, brilhante e original: a devoção ao socialismo, entre muitos, não se diferencia enormemente da devoção religiosa. Muda apenas a natureza da veneração: abandona-se o abstrato e se recai sobre o real; saem de cena os anjos e os santos e entram os sisudos profetas do socialismo: Lênin para todos, Stálin para alguns e – pairando como vértice principal da Santíssima Trindade profana – o velho Marx.             É óbvio que a ideia não foi bem recebida: houve rejeição sob protestos veementes, gestos encolerizados, dúvidas sobre minhas convicções socialistas. É óbvio, também, que a formulação não tinha nada de original: estava atrasada em algumas décad...

Lembranças de Havana (VIII)

            Quando criança escutava, horrorizado, os relatos de que Fidel Castro mandava fuzilar, incontinenti , quem se dedicasse a rituais religiosos na ilha que governava com mão de ferro. Ás vezes, lá pela década de oitenta, via no noticiário que um padre ou um frade fora preso porque falava mal do regime; ou porque denunciava torturas de presos políticos a mando dos comunistas que controlavam Cuba.             Nas andanças por Havana, pude observar que prevalece um sincretismo religioso semelhante àquilo que se pratica na Bahia e em outros lugares Brasil afora. Batistas, católicos, os chamados neo-pentecostais e religiões de matriz africana coexistem na ilha embora, aparentemente, não haja enorme entusiasmo pelas igrejas.             Na Havana antiga existem muitas edificações religiosas: conventos católicos...

Caos no sistema de transportes brasileiro

                                    Nas últimas duas semanas algumas das principais cidades brasileiras mergulharam no caos com uma onda de greves no transporte público. Em São Paulo, mais de quatro milhões de paulistanos enfrentaram dificuldades para chegar ao trabalho com a paralisação no metrô; em Salvador, os sindicalistas atropelaram uma determinação judicial e mantiveram 100% dos ônibus nas garagens, o que praticamente inviabilizou a locomoção dos soteropolitanos numa cidade habitualmente marcada por problemas de mobilidade e que, sequer, dispõe de um metrô calça-curta de meia-dúzia de quilômetros.             As greves, muito bem orquestradas para os padrões tradicionais, levantaram a suspeita que a classe patronal associou-se aos rodoviários para instit...

Jornalismo “Mundo-Cão” ganha espaço

  Embora pouco se fale atualmente, o fato é que o surgimento e a expansão da Internet mudaram o perfil dos telespectadores brasileiros e, provavelmente, de boa parte do mundo. A principal mudança é o tempo de permanência à frente dos aparelhos de televisão: antes – quando ainda não havia Internet – eram mais de quatro horas diárias, em média; hoje esse número caiu para pouco mais de duas horas. E, sem dúvida, a tendência é que permaneça caindo. É mais do que óbvio que boa parte dos jovens pouco recorre à televisão, optando pela tela do computador e por suas infinitas possibilidades. Isso também é aplicável às pessoas com nível cultural mais elevado e por aqueles segmentos da população com maior poder aquisitivo. Até aí, nenhuma novidade. O que há de novo na televisão são as mudanças na programação, que constituem, inclusive, tendências que vão se consolidando. Como quem permanece à frente da tevê, provavelmente, tem mais idade, menor nível de escolaridade e pertence às clas...

Dados sobre a pobreza rural na Feira de Santana

                       Algumas informações referentes ao Censo 2010 na Feira de Santana vem sendo divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e sinalizam para intervenções necessárias para elevar a qualidade de vida da população. Algumas inferências são quase intuitivas e, a rigor, não trazem grandes novidades, à exceção da quantificação do tamanho de determinados problemas. É o caso, por exemplo, da correlação que existe entre nível educacional e renda: numa cidade com 38 mil analfabetos em 2010 e baixa escolaridade, a renda média domiciliar não passava de R$ 514 em 2010. Algo bastante previsível, diga-se de passagem. O Censo, no entanto, ajudou a evidenciar determinados problemas enfrentados pelos feirenses. É o caso da desigualdade na distribuição de rendimentos entre homens e mulheres: enquanto o rendimento médio masculino alcançava R$ 550, o ...

O aeroporto e a reconfiguração logística da Bahia

                        Há alguns dias a prolongada novela da reativação do aeroporto de Feira de Santana ganhou mais um capítulo. E, pela sinalização, um capítulo que pode entrar no rol dos decisivos, já que até mesmo o nome de uma companhia aérea interessada em operar no aeroporto feirense foi divulgado sem grandes tergiversações. O próprio governador em exercício e secretário da Infraestrutura, Otto Alencar, compareceu à audiência que praticamente definiu a reativação do equipamento.             Desde os anos 1980, quando foi inaugurado, que o aeroporto carrega a triste sina de servir apenas para o pouso eventual de aeronaves de pequeno porte. Entre os usuários figuram políticos em trânsito – governadores que visitavam a Feira de Santana, principalmente – e um ou outro empresário. Assim, durante mais de um quarto ...

A seca e as políticas de transferência de renda

  Quase todos os dias os jornais, as emissoras de rádio e televisão, os sites e os blogs vem noticiando os efeitos da seca que assola o Nordeste, particularmente a Bahia, onde mais de 200 municípios já decretaram situação de emergência. A estiagem, considerada a mais rigorosa nos últimos 30 anos, arrasou plantações, vem dizimando rebanhos e provavelmente vai gerar impactos sobre diversos municípios baianos, cujas economias dependem da agricultura e da pecuária. Sem chuva, quem mais padece é a população rural, mais pobre e mais exposta ao fenômeno. Um dado positivo, no entanto, deve ser ressaltado: pelo menos até aqui, apesar de todos os problemas indicados pela imprensa, não há registros de mortes em função da seca. Situação muito diferente do que aconteceu entre 1979 e 1983, quando um número nunca determinado de nordestinos morreu de fome e de sede. Para os governadores da época – boa parte entusiasta da Ditadura Militar em vigência – morreram 100 mil pessoas no períod...