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Campanha começa com eleitor arredio, assustado

 

Quando era criança, costumava acompanhar familiares – meu pai, minhas irmãs – até as seções eleitorais em que votavam. Para menino, aquilo era uma diversão e tanto: a agitação dos cabos eleitorais com suas camisetas, bandeiras e adesivos, o incessante ir-e-vir dos eleitores, as filas extensas à frente das salas, os santinhos voando, acumulando-se nas sarjetas, os carros com suas buzinas estridentes e seus jingles, os candidatos no corpo-a-corpo tentando arrebatar eleitores no calor do sufrágio, as incessantes transmissões radiofônicas, com novidades o tempo todo.

Os maiores locais de votação costumavam concentrar os cabos eleitorais, a militância. Bandeiras, adesivos, camisetas – estas últimas, depois, foram proibidas pela Justiça Eleitoral – produziam rica diversidade de cores, de números, de ideias. Embora cada um corresse atrás de suas convicções recrutando eleitor, hostilidade não era a regra, havia até uma simpática convivência, temperada pelo bom humor dos baianos.

Até hoje as manhãs de votação costumam ser de sol radioso e calor vigoroso por aqui. Muitos – mais previdentes – desde aquela época desincumbiam-se da obrigação logo cedo, votavam e iam acompanhar o noticiário de casa, conversar com conhecidos, colher impressões sobre o pleito. Os mais engajados – e otimistas – celebravam, desde já, os jingles dos seus candidatos em volume alto.

À tarde, a expectativa pelas apurações se intensificava. A elogiável tecnologia que dá suporte às eleições brasileiras, inclusive, encurtou o tempo de apuração, a longa contagem das cédulas de papel findou, suprimindo a expectativa, a tensão. Repórter do Feira Hoje, cheguei a acompanhar uma delas ali no antigo Feira Tênis Clube. Havia festa, celebração, mas também muita suspeita sussurrada pelos cantos por derrotados inconformados.

Nos últimos anos, a celebração democrática que entusiasmava se tornou uma jornada tensa, com intimidação e até violência. Lembro bem das últimas eleições presidenciais, os acólitos de Jair Bolsonaro, o “mito”, farejando adversários pelas ruas, o ódio cintilando no olhar. Poucos eleitores do petê – a legenda conquistou dois terços dos votos válidos na Feira de Santana no segundo turno presidencial – arriscaram camiseta ou adesivo da legenda. Prevaleceu um estranho silêncio, assustador.

Pois um novo ciclo eleitoral começou e, mais uma vez, até aqui, noto certa reserva dos eleitores que querem ver o “mito” pelas costas, defenestrado da presidência da República. Poucos se arriscam a assumir, ostensivamente, sua posição. Conversando, quando percebem que não estão diante de um acólito iracundo da extrema-direita, entabulam papo, queixam-se da carestia, da situação caótica na qual os alucinados no poder mergulharam o Brasil.

Com tristeza, constato o contraste entre as eleições festivas de outras épocas e os ariscos tempos atuais, em que muitos preferem camuflar suas predileções eleitorais porque temem deparar-se com um ensandecido qualquer por aí, disposto a impor suas convicções obscurantistas à força. Mas teimo em sustentar a esperança de que a democracia e a civilidade prevalecerão sobre o autoritarismo e a barbárie.

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