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Oportunidades que a Copa 2014 nos dá

A partir do próximo final de semana o Brasil passa à condição de “bola da vez” no futebol mundial, mesmo com a eliminação precoce na Copa do Mundo da África do Sul há apenas alguns dias. Afinal, além do desafio de mostrar um futebol menos chato e previsível que o apresentado na competição que se encerra, o país assumiu o encargo de sediar a Copa de 2014 com jogos em 12 cidades, conforme se noticiou amplamente. E, mesmo antes de iniciadas as obras, já surgem especulações de todo tipo e os mais precipitados já temem que a Inglaterra arrebate a Copa do Mundo. Com base na experiência da África do Sul – país que também deve ter outras prioridades além da construção de estádios, como se viu – os brasileiros deveriam refletir em relação à competição que vão organizar. Afinal, por mais que se dissesse o contrário quando o país era apenas mais um candidato, muito dinheiro público deve ser empregado para organizar o evento. O que alguns órgãos de imprensa noticiaram sobre a África do Sul é qu...

Buenos Aires em dia de Copa do Mundo

Atipicamente, essa semana escrevo para a Tribuna Feirense da Argentina, onde ocorre até esta quinta-feira um congresso internacional sobre desenvolvimento local. Visitar o país durante o período de Copa do Mundo é uma experiência fascinante, que permite visualizar muitas semelhanças e diferenças do comportamento dos hermanos em relação aos brasileiros. A principal constatação é que o futebol é um grande negócio na Argentina, mas nada se comparado com o Brasil. Aqui também proliferam as bandeirinhas com suporte tremulando nos carros, o azul celeste e o branco enfeitam ruas, praças e avenidas e muitos ostentam, orgulhosos, agasalhos com as cores de seleção argentina para enfrentar o rigoroso inverno que se anuncia, mesmo com o sol brilhando no céu de azul imaculado. Contudo, nada se compara com a febre verde e amarela que toma conta do Brasil. O nacionalismo exacerbado, típico do brasileiro em ano de Copa do Mundo, é mais passional e ostensivo do que o argentino. No Brasil respira-se f...

A infância perdida nas ruas

Em pequenos grupos ou sozinhas, muitas vezes vestidas com roupas sujas e gastas, diversas crianças perambulam pelas ruas e bares da Feira de Santana vendendo doces, amendoim ou oferecendo pequenos serviços, como o fazem alguns engraxates precoces. Entre um gole e outro de cerveja, no rápido intervalo entre duas garfadas é possível ser abordado por meninos e meninas que oferecem pastilhas, doces ou – caso mais incomum – se dispõem a desenhar os clientes, apresentando lápis e folhas de papel ofício. Nos diversos bares e restaurantes do centro da cidade e em bairros centrais como a Kalilândia se veem esses trabalhadores precoces, oferecendo seus produtos ou serviços de forma súplice. Entre uma abordagem e outra brincam, riem e às vezes até correm, resgatando retalhos de uma infância que vai se perdendo pelas ruas violentas da Feira de Santana. Aparentemente se viram sozinhas: interpelam os fregueses, vendem, ouvem recusas e prosseguem em sua jornada. Um olhar mais atento, porém, permite...

Riqueza e cultura das feiras-livres

Há duas semanas tivemos a oportunidade de apresentar um ensaio sobre o comércio informal no centro de Feira de Santana no 37º Congresso Brasileiro de Estudos Rurais e Urbanos promovido pela faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). O ensaio que originou a apresentação foi gestado a partir de dois artigos publicados na Tribuna Feirense no início do ano. A principal ideia defendida – no artigo e no ensaio – é de que a feira-livre retornou mudada para as ruas centrais da cidade, com uma nova forma de organização espacial e com novos produtos e serviços. No debate que se seguiu à apresentação fiquei sabendo da importância que alguns estudiosos da USP atribuem a trabalhos relacionados à dinâmica de feiras-livres, à organização do comércio informal no centro da principal metrópole brasileira e, sobretudo, ao papel que esses espaços desempenham na construção ou transformação de processos culturais. É evidente que, com o crescimento das cidades e a divers...

Notícias lamentáveis

Semana passada a edição impressa da Tribuna Feirense trouxe duas notícias lamentáveis. A primeira delas é que estudantes residentes na zona rural do município têm aulas em uma casa de farinha, espaço absolutamente inadequado para que crianças ou adolescentes desenvolvam atividades escolares. A outra é que a abertura do restaurante popular no Centro de Abastecimento – o que constitui uma realização elogiável – absorveu boa parte da clientela dos restaurantes que funcionam no entreposto, levando-os ao risco de falência e à perda de muitos postos de trabalho. Ambos os fatos demonstram fragilidades dos gestores do município nos últimos anos. Feira de Santana é uma cidade que recebe recursos significativos para a manutenção do ensino fundamental através de repasses federais. E mesmo que sejam insuficientes, resta a alternativa de se investir recursos próprios, o que demonstraria o interesse dos gestores em oferecer uma educação de qualidade. É inconcebível, portanto, que jovens e crianç...

As chuvas e o discurso das secas

Longas chuvas têm caído este ano sobre boa parte da Bahia, mudando completamente o cenário que a televisão acostumou o público a ver, com animais magros, aguadas secas e paisagem ressequida. A desolação tradicional foi substituída por animais engordando, pastos verdejantes e rios que correm, caudalosos, em algumas regiões do estado. Espera-se que o milho seja abundante nos festejos juninos e que a safra do feijão também seja boa, para ficar apenas em dois dos produtos mais tradicionais da região. Infelizmente chuvas abundantes não constituem rotina no semiárido e o Brasil levou séculos para descobrir que não há fórmula para “acabar com a seca”, conforme se disse durante muito tempo, mas que o caminho mais adequado é o da convivência com o fenômeno, buscando adaptar a população e suas atividades produtivas ao clima local. Em períodos mais chuvosos, muita água se acumula em açudes e aguadas, mas com a próxima estiagem os problemas de acesso a recursos hídricos se avolumam novamente. U...

O “discurso democrático” e a prática democrática

  Embora o retorno do Brasil à normalidade democrática esteja completando um quarto de século neste mês de abril (são, portanto, 25 anos) parece que muitos ainda não se habituaram ao sentido da palavra e, sobretudo, ao exercício de torná-la corriqueira. A reunião do Conselho Municipal de Transportes (CMT), às vésperas da Micareta, atropelando qualquer possibilidade de discussão com a sociedade e visando atender com presteza o sindicato patronal das empresas de ônibus é uma demonstração de que ainda se precisa avançar muito para consolidar práticas democráticas no Brasil. Marcar uma reunião às vésperas de uma festa com feriado prolongado, com o claro objetivo de atenuar a repercussão negativa junto à população é de uma baixeza e de uma covardia difíceis de descrever. Mas piores, muito piores, foram as notas da prefeitura defendendo intrepidamente os interesses dos barões do transporte na Feira de Santana. Ocupando a condição de vanguarda do atraso em relação a muita coisa, a Bah...