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A escalada macabra da Covid-19 em Feira

  A marcha macabra da Covid-19 na Feira de Santana ganhou novo impulso ao longo da semana. Os números que atestam a constatação são da própria Secretaria Municipal da Saúde - SMS, mas também do Centro de Informações de Registro Civil – CRC Nacional, que podem ser consultados no endereço eletrônico https://transparencia.registrocivil.org.br/especial-covid . Em Salvador e Região Metropolitana, intensas medidas restritivas no mês de março frearam o avanço do novo coronavírus. Por aqui, optou-se por um caminho diverso. Hoje (25), mais sete mortes foram confirmadas na Feira de Santana. O total de óbitos saltou para 524. E o número de infectados no momento – aqueles que estão com o vírus ativo – alcançou 3.284, talvez a maior marca desde o começo da pandemia. O total de novos casos no dia também impressiona: 258. Todos os números são da própria Secretaria Municipal da Saúde. A marcha que o CRC Nacional acompanha considera os casos confirmados de óbito, mas também os suspeitos. Com ba...

Vendedeiras, camelôs e ambulantes nas ruas da Bahia ou as voltas que a História dá

  “Um contemporâneo queixou-se de que as ruas de Salvador ‘se acham atulhadas de negras vendedeiras [...] que impedem o uso público aos moradores’”. Não, a frase não é recente. Aplicou-se à Salvador da década de 1830, quando as ruas da Cidade da Bahia povoavam-se com uma multidão de vendedoras que iam de porta em porta ou fixavam-se com tabuleiros e esteiras, comercializando boa parte do alimento que o soteropolitano consumia. Escravas, alforriadas, africanas ou já naturais da Bahia, essas mulheres – quase todas negras e analfabetas – foram pioneiras naquilo que, hoje, batiza-se como empreendedorismo. Seus esforços contribuíram para garantir víveres à população que, até então, não dispunha de um mercado para adquiri-los. A saga dessas mulheres – havia homens também, mas eram poucos – está na obra “Alimentar a cidade: das vendedoras de rua à reforma liberal (Salvador 1780-1860)”. O brasilianista Richard Graham, professor da Universidade do Texas, é o autor. O texto fluido da tra...

O armistício mercantil do domingo

Domingo é dia de armistício mercantil no centro da Feira de Santana. Tudo é quietude e prevalecem, nele, o silêncio e a solidão. As avenidas congestionadas, os becos apinhados, as praças prenhes do ir-e-vir, os disputados calçadões, neste dia tudo repousa numa trégua frágil. Sim, porque mesmo aos domingos o ambiente recende a comércio, à irreprimível necessidade de circulação do capital. Mesmo que o movimento se limite às farmácias abertas, aos botecos eventuais que abrigam os beberrões que desejam aproveitar o domingo. Não é incomum ver gente atarefada, entretida arrumando a fachada de uma loja qualquer. Ouve-se, então, o grito escandaloso da lixadeira ajustando um painel metálico, um eletricista labutando com fios, corrigindo iluminação, alguém se dedicando a uma tarefa dentro da semiobscuridade de uma loja. Quando falam, o vento propaga o som das vozes, ferindo o silêncio. Pelas esquinas, seguranças examinam os escassos passantes, bocejam, aporrinham-se com a quietude. O voo con...

Meia-lua inteira no céu da Feira

  É noite de domingo e bem que eu pretendia escrever sobre a melancolia da noite de domingo. Mas fui à janela e, lá, vi uma perfeita meia-lua no silencioso céu feirense. A visão dissipou essa sensação, que vem à tona mesmo durante a pandemia. “Meia-lua inteira”, lembrei, então, da canção alegre de Caetano Veloso. Em volta, estrelas miúdas cintilando com timidez. Mas distingui as Três Marias que, nos últimos dias, percorrem uma trilha curva, à minha frente, no céu feirense que permanece limpo à noite mesmo depois do começo do outono. As buzinas escandalosas das motos interrompem, com muita frequência, esses exercícios de contemplação. Boa parte dos que se aventuram à noite, durante o toque de recolher, são entregadores de comida. Chegam, desembarcam, ajeitam as bolsas térmicas nas costas, avançam apressados examinando o endereço preciso do cliente e emprestam algum ânimo ao fim da noite. À distância, as silhuetas dos espigões que arremetem contra o céu feirense. À luz do dia são...

O sombrio outono dos brasileiros

Amanhã acaba o verão. Mais precisamente às 6h38, conforme indica consulta que fiz a um desses sites de previsão do tempo. Passei parte da estação ouvindo, à tarde, um sabiá magistral que se apresentava quando o crepúsculo começava a tingir o céu. Depois dele, vinham as cigarras, quando as cores do dia já tinham esmorecido e, na atmosfera, irradiava-se uma tonalidade azulada, melancólica. O outono, que sucede o verão, também é bom: há uma luminosidade divina nos dias de sol e as temperaturas são mais amenas. É a estação mais chuvosa na Feira de Santana. Mas reconheço que a trilha sonora do verão – os sabiás e as cigarras – fará muita falta nesses meses tormentosos que virão aí, à frente. Esses sons acalentavam, atenuando o efeito do noticiário sombrio que se sucede. No céu, umas nuvens escuras – tão típicas aqui da Feira de Santana – despertam alguma esperança de chuva no dia de São José. Mas é uma esperança vaga, que se limita à expectativa de um chuvisco, no máximo. Vi, no noticiá...

Feira alcança tristes marcas com a Covid-19

Vem se tornando comum ouvir as sirenes das ambulâncias nos finais de tarde na Feira de Santana. Quando a noite cai e o silêncio do toque de recolher prevalece – é um silêncio tenso, carregado de maus presságios – as sirenes tornam-se perfeitamente audíveis mesmo à distância. Se passam pelas cercanias, por breves instantes tingem a escuridão de um vermelho que angustia. O cenário foi comum há quase um ano, no auge da primeira onda. Agora, com a segunda, impõe-se com matizes mais dramáticas. O salto no número de mortos é sintomático. A Central de Informações de Registro Civil – CRC Nacional indicava, até hoje (18), 599 mortes confirmadas ou suspeitas de Covid-19 na Feira de Santana. Ontem, a média móvel de mortes havia recuado para duas, depois de permanecer num platô de cinco óbitos diários num intervalo curto – cinco dias – entre 7 e 11 de março. É o mesmo patamar observado entre 15 e 28 de julho, mas com alguma oscilação para baixo naquela época. Dados da Secretaria Municipal de S...

A filosofia de Espinosa e o céu noturno

Para escapar das incessantes notícias ruins, tenho buscado refúgio no céu. Não, não me converti a nenhuma fé barulhenta que pulula pelas esquinas, com sua gritaria desenfreada, seus deuses iracundos, seus acenos de prosperidade material. Dedico-me a algo mais bucólico: apreciar a noite feirense, com seus fiapos de nuvens, suas estrelas cintilantes, seu silêncio intuído, sua imensidão inimaginável. Nesses longos – mas profundamente prazerosos – serões, não há como não pensar na energia criadora do universo. É uma trilha que conduz a Deus mais que às religiões. Nesses momentos sempre penso na filosofia de Baruch de Espinosa. Conheci-a garoto – 19 anos – quase por acaso: ganhei um daqueles exemplares da série “Os Pensadores” com boa parte da produção do pensador holandês. Familiares estavam se mudando e, na casa nova, não havia espaço para aquele exemplar que já estava esquecido numa estante. Enfronhei-me, então, na leitura do “Tratado de Correção do Intelecto”, do “Tratado Político” e,...