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A tragédia e a farsa da passagem de ônibus

Uma das mais célebres frases do filósofo alemão Karl Marx diz que os fatos na história acontecem na primeira vez como tragédia e, na segunda, como farsa. Ele se referia ao golpe de Estado que levou Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte, ao poder na França no distante ano de 1848. Na Feira de Santana, a farsa do aumento das passagens de ônibus acontece todo ano, repetindo a tragédia que a inflação galopante tornou rotina há algumas décadas. A farsa, aqui, sempre ganha algum tempero de originalidade, fazendo jus à alegada criatividade inata do brasileiro. Esse ano, por exemplo, o reajuste não aconteceu durante as festas de final de ano, nem durante a Micareta, quando os feirenses estão em viagem ou militando na folia momesca. Também não houve, por enquanto, jogo de empurra, com o prefeito e o Conselho Municipal de Transporte (CMT) responsabilizando-se mutuamente pelo reajuste, como ocorreu aí há uns dois anos. O golpe agora foi ainda mais baixo. Na pauta do Conselho Municip...

O Rio Jacuípe como alternativa de lazer

Um dos maiores consensos existentes na Feira de Santana é de que uma das únicas opções de lazer da cidade são os bares. A constatação é antiga e, em alguma medida, embute o sentimento de inferioridade que o feirense nem sempre admite, mas alimenta em relação a Salvador: enquanto a capital conta com praias e diversos atrativos naturais, além do valiosíssimo, mas pouco preservado patrimônio arquitetônico, a Feira de Santana só tem os olhos d’água que vão se extinguindo juntamente com as lagoas que a voracidade imobiliária consome. Lá nos limites do município, entre muitos mandacarus espinhosos e alguns lajedos, existe o Rio Jacuípe de águas escuras e superfície calma, mas que nunca encheu o olho dos feirenses como alternativa de lazer. Afora alguns freqüentadores assíduos ou moradores das redondezas, pouca gente vai às margens do rio comer o peixe pescado ali mesmo, bebericar uma cerveja e jogar conversa fora. A maioria dos feirenses provavelmente conhece o Jacuípe da mesma forma que os...

O Conjunto Penal exige ação urgente

                         Contrariando o que havia na Bahia até recentemente, quando os problemas enfrentados pelo estado eram discutidos de forma velada, nos últimos anos diversas necessidades vem sendo colocadas à mesa para debate, sobretudo na Feira de Santana. A duplicação do Anel de Contorno, a reativação do aeroporto que pouco funcionou, a ampliação da rede hospitalar e a conclusão da obra do “elefante cinza” que é o chamado Centro de Convenções consumiram muita saliva nos meios de comunicação e muita tinta nas páginas dos jornais. São, sem dúvida, obras importantes, mas que não esgotam o conjunto de necessidades do município.             Uma necessidade imperiosa para a Feira de Santana, por exemplo, é a ampliação do Conjunto Penal no bairro Aviário. Muita gente vem sendo assassinada no município, outros são ...

Incertezas da Micareta na semana do Carnaval

As incertezas que cercam a Micareta de Feira de Santana deveriam provocar reflexão dos responsáveis pela organização e dos feirenses de forma geral. Faltando pouco mais de 50 dias para o evento, ainda não se sabe quais atrações vão participar da festa, a licitação para a montagem da infraestrutura vai acontecer somente em meados de março depois de sofrer adiamento e até mesmo a escolha da marca para 2011 mergulhou em uma lambança que parece não ter fim. Para quem observa de fora, fica a imagem de que a outrora gloriosa primeira Micareta do Brasil – isso décadas atrás – é um evento de qualidade duvidosa tocado por estrutura bastante amadora. Não é de hoje que se fala no declínio da maior folia feirense e na necessidade de se promover modificações. Em 2011, no entanto, as coisas parecem piores do que em anos anteriores, já que as notícias ruins não param de se suceder. Sem rodeios, alguns artistas alegam problemas de agenda ou baixo retorno financeiro para não se apresentar. Colocam...

Efeitos do salário-mínimo sobre a economia feirense

Depois de muita polêmica, foi enfim aprovado na semana passada o valor do novo salário-mínimo, fixado em R$ 545. Para além de toda as divergências decorrentes do percentual a ser aplicado, o mais importante foi o fato que, enfim, o Brasil começar a ter uma política consistente e previsível de reajuste, com vigência programada para pelo menos quatro anos. Mais do que uma sinalização de clareza em relação às contas públicas para o próximo quadriênio, a adoção da regra facilita a vida do trabalhador e permite aos empresários programar investimentos e projetar a contratação de mão-de-obra. Nos estados e municípios mais ricos o salário-mínimo não constitui uma referência muito utilizada, já que normalmente se paga mais aos trabalhadores. Os trabalhadores mais qualificados, por sua vez, dispõem de renda mais elevada e não necessariamente utilizam o salário-mínimo como referência em negociações salariais. O salário-mínimo, no entanto, constitui referência importante – e em muitos casos única ...

A cultura viva dos alto-falantes

                                     Provavelmente lá por meados dos anos 1940, quando a comunicação vivia uma fase revolucionária com a ampliação das emissões radiofônicas, é que devem ter surgido os primeiros alto-falantes nas feiras-livres do Nordeste. Além do presumível espanto causado numa população pouco afeita à tecnologia que surgia avassaladora, com certeza os alto-falantes mostraram-se, desde o início, uma excelente e barata alternativa para divulgação de produtos e serviços.             O fato é que a moda pegou e, ainda hoje, mesmo com o incessante burburinho característico de comerciantes e consumidores, soa estranhamente silenciosa qualquer feira-livre em que não se recorra aos inconfundíveis e onipresentes alto-falantes. Pendurados em postes ou ma...

À sombra dos viadutos

                        Londrina é um município no norte do Paraná, quase na divisa com São Paulo. Aos domingos, no centro da cidade, é montada uma feira-livre nas proximidades de um cemitério. No início da manhã há um incessante ir-e-vir de consumidores com sacolas coloridas, mesmo nos dias frios de inverno. Lá pelo meio da manhã o movimento começa a declinar e, no início da tarde, praticamente não há comerciantes no local. A grande – e grata – surpresa para um eventual visitante que tenha partido da Feira de Santana, por exemplo, é a constatação de que não há lixo espalhado pela rua.             A feira-livre no centro da cidade paranaense oferece os mesmos produtos de qualquer entreposto nordestino: há tomate, repolho, batata, maçãs e uvas. A diferença fundamental é que os produtos são manuseados com um asseio d...