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O foguetório junino nas noites de maio

  Vi, há pouco, meninos soltando fogos numa rua secundária da Queimadinha. Eram algumas bombas – pouco mais que traques – que foram detonadas com aquela habitual empolgação infantil pelo período junino. Lembrei, até mesmo, da minha infância já longínqua. O entusiasmo era idêntico. Mas o arsenal de que dispunham era escasso: revezaram-se nas álacres detonações e, depois de alguns minutos, entraram em casa de novo. Crianças costumam aguardar o São João com ansiedade. Em grande medida, por causa da queima de fogos. Quem pode, se deleita desde antes, como os garotos que vi mais cedo. Só que a crise econômica decorrente da pandemia – e agravada pelas barbeiragens do desgoverno de plantão – impõe comedimento, hoje queima-se menos dinheiro com fogos. Imagino que, por isto, a diversão dos meninos foi intensa, mas curta. Notei que o espocar de fogos começou a se tornar mais comum no começo de maio. Nos finais de semana – sobretudo nas noites de sábado – é mais frequente, embora muito ma...

Recordações das vibrantes manhãs de segunda na Feira

  Como todo mundo sabe, as restrições impostas pela pandemia da Covid-19 limitaram muito a vida. O isolamento social e as restrições aos deslocamentos, os cuidados indispensáveis em ambientes coletivos e o permanente receio de contaminação mudaram drasticamente a rotina. O pior é que, em função da negligência e da omissão do desgoverno lá no Planalto Central, a pandemia vem se arrastando indefinidamente. Crise sanitária e caos econômico se entrelaçam, retardando a retomada, bloqueando a luz no fim do túnel. Desarvorado, sem a rotina bruscamente interrompida, o cidadão, às vezes, é ferido pelo cutelo da saudade. Funciona assim: num determinado momento, a mente repousa, serena ou fatigada. E aí as lembranças emergem, num redemoinho que é impossível de conter. Quando se dá conta, a cabeça já mergulhou numa viagem em direção ao passado. O rádio ligado costuma ser um estopim constante. Inesperadamente, vem de lá uma canção familiar – e querida – que desperta recordações ardentes. Na...

Mais de 830 óbitos suspeitos ou confirmados de Covid-19 em Feira

  Enquanto a vacinação contra a Covid-19 na Feira de Santana avança a conta-gotas, a doença não dá trégua e segue matando feirenses. Desde o começo da pandemia, em março de 2020, já são 835 registros de mortes suspeitas ou confirmadas, decorrentes do novo coronavírus no município. As informações são do Centro de Informações de Registro Civil – CRC Nacional e estão disponíveis no endereço https://transparencia.registrocivil.org.br/especial-covid .   Quem quiser mais detalhes, basta acessar o site e fazer a consulta. Já mencionamos que os últimos meses tem sido os mais mortíferos. A situação não está sendo diferente em maio: até hoje (26) são 83 óbitos de casos suspeitos ou confirmados. É pouco menos que em abril, quando houve 96 registros. Só que ainda faltam cinco dias para o fim do mês. O recorde, por enquanto, permanece com março, com 111 ocorrências. Provavelmente ainda na primeira quinzena de junho mais um triste recorde será quebrado: até aqui, em 2021, já são 398 mor...

Bahia de Feira perde em casa e Atlético é campeão baiano

  Além de Feira de Santana e Ilhéus, Alagoinhas agora faz parte do restrito grupo de cidades do interior que já tiveram uma equipe campeã do Campeonato Baiano de Futebol. Hoje (23), jogando na Arena Cajueiro, em Feira de Santana, o Atlético de Alagoinhas bateu o Bahia de Feira por 3 a 2 e levantou a taça pela primeira vez. Em 51 anos de história, a equipe vive seu melhor momento: além do título em 2021, foi vice-campeã ano passado, quando perdeu a decisão nos pênaltis para o Bahia. Depois de eliminar na semifinal o time sub-23 do Bahia com uma goleada (3 a 0) e empatar o primeiro jogo da final em Alagoinhas (2 a 2) o Tremendão despontava como favorito contra o Carcará. Sobretudo porque jogava em casa, sustentando invencibilidade em seu estádio na competição estadual. Os primeiros minutos confirmavam o favoritismo: com movimentação e maior volume de jogo, a equipe feirense parecia perto de abrir o placar. O Atlético, acuado, tocava a bola na defesa. Aos 18 minutos veio o primeir...

Uma singular inspiração literária sobre o isolamento social

  “Preso experiente analisa com vagar cada cela por onde passa. Pode haver recado nas paredes, esconderijo no colchão, fundo falso em algum lugar. Aproveitar minúcias e insignificâncias é uma das regras da cadeia, onde não há fartura e facilidades. De cada canto pode sair uma história oculta ou uma nova ideia”. O trecho acima é do livro “Quatrocentos contra um: uma história do Comando Vermelho”. O autor é William da Silva Lima – considerado pela polícia um dos fundadores da facção – falecido há quase dois anos. A edição de que disponho é de 1991, lançada pela Editora Vozes, em parceria com o Instituto de Estudos da Religião, o ISER. William passou boa parte de sua vida no cárcere. Mas, mesmo enfrentando as adversidades da cadeia, sempre foi uma figura singular. Uma evidência foi sua capacidade de produzir um dos melhores livros sobre a realidade das prisões brasileiras. Muito bem escrita, a obra narra sua experiência, ao longo de décadas, em diversas cadeias do Rio de Janeiro e...

A mitologia dos valentões de araque

  O começo da tarde de sábado escorria banal. No boteco tradicional no centro da Feira de Santana uns grupos bebiam, outros já almoçavam. Os sons dos talheres, dos pratos, dos risos e das conversas realçavam aquela normalidade. Lá fora tudo normal também: os automóveis avançavam sobre os paralelepípedos e os pardais piavam nos telhados, nas árvores escassas, saudando o sol preguiçoso de outono. Foi quando a figura apareceu, deslizando silenciosa feito espectro. Entrou no boteco, examinou as mesas, – uns não o notaram; outros fingiram não vê-lo – espichando o olho que brilhava, arisco. Tudo nele era opaco: a pele e os cabelos encardidos, impregnados de sujeira, as roupas andrajosas. Só o olho cintilava, muito vivo, arguto. Por fim, estendeu a mão suja, carcomida pelo provável manuseio contínuo do cachimbo do crack e me abordou: – Tio, me consegue um trocado para eu comprar comida! Estou com fome! Recusei. Ele, então, olhou fixo lançando uma chispa de ódio e foi saindo. Desliza...

Mais um São João de nostalgia para o nordestino

  Nestes estranhos dias pandêmicos, o ocasional som contagiante de um forró resgata a lembrança de que o São João está se aproximando. Falta pouco mais de um mês. Só que, mais uma vez, as tradicionais festas serão canceladas – sensatamente – porque a pandemia da Covid-19 permanece aí, à espreita. Governantes e especialistas que acompanham os movimentos do vírus, inclusive, estão atentos aos riscos de uma terceira onda já nas próximas semanas. Isso não impede, porém, que o som da sanfona ouvido por acaso desperte recordações de celebrações juninas passadas, quando ninguém sonhava com a pandemia. Afinal, o forró já reverbera a partir dos sons potentes dos automóveis, nos bares e restaurantes espalhados pela cidade, aos finais de semana, nas residências de quem é devoto festeiro do período junino. No sábado (15), apesar do céu cinza, a alegria pulsava, sonora, espalhando-se com o vento que as garoas recentes esfriaram. Ouviam-se o festejado forró pé-de-serra, os baiões de Luiz Gon...