Pular para o conteúdo principal

Postagens

O Sertão vai virar deserto

Quem se aventurava a cortar os inóspitos sertões nordestinos, lá por meados dos anos 1990, recorda bem a penúria em que viviam os pequenos municípios da região. Isoladas na profusão de espinhos de mandacarus e xique-xiques, castigadas pelo sol inclemente, expostas aos rigores das estiagens frequentes e ao fantasma da escassez hídrica, essas pequenas cidades só ganhavam as manchetes quando figuravam nos periódicos decretos de situação de emergência. Ou quando legiões de famélicos saqueavam os armazéns dalgum próspero comerciante. À época, o Brasil atravessava outra quadra áspera, na qual o receituário do Fundo Monetário Internacional, o FMI, tinha valor de sanção canônica. A pobreza e a exclusão, as profundas desigualdades sociais – jamais atenuadas – e a candente questão do desenvolvimento regional eram temas banidos naqueles anos. Afirmava-se, com sólido saber doutoral, que o livre funcionamento dos mercados resolveria todas essas questões. Sob o petismo, as campinas sertanejas s...

Crônicas Temerárias (III)

O modus operandi que Michel Temer e seu PMDB estão empregando para produzir o maior retrocesso civilizatório da História do Brasil já está bastante claro. O ponto de partida é, sempre, um consenso fácil, uma dessas proposições tão lógicas que ninguém, à primeira vista, consegue se opor. “´É necessário limitar os gastos públicos”, apregoa o discurso oficial que reverbera na imprensa; ou “o Ensino Médio precisa mudar”, constata-se nos gabinetes palacianos, com eco imediato junto à mídia, apenas para ficar num segundo exemplo. Qualquer imbecil sabe que é impossível gastar ad infinitum e ad aeternum , incluindo nessa lógica os cofres públicos. Até os deputados do baixo clero conseguem entender isso. O problema não reside, necessariamente, no diagnóstico, mas sim nas controversas soluções que são colocadas como se fossem a única alternativa, a opção solitária. Para conter a sangria nos gastos públicos o caminho encontrado é a redução nos investimentos em saúde e educação, o arrocho s...

Crônicas temerárias (II)

            Parece que, nos próximos meses, pretende-se revogar esse negócio de aposentadoria, de direito a ócio remunerado no fim da vida. É o que se deduz com base nas propostas que estão sendo urdidas lá no Planalto Central, em Brasília, pelo controverso presidente Michel Temer e sua equipe. Pelo que noticia a imprensa, aposentadoria, para os mais jovens, só a partir dos 65 anos; mas com valor integral só com inacreditáveis 50 anos de contribuição. Alguém na temerária Brasília deve ter descoberto que aposentadoria é coisa de comunista, de subversivo, de malandro, de vagabundo, de quem não gosta de trabalhar. Daí resolveram revogar esse inadmissível privilégio com um expediente sorrateiro: estabelecem-se pisos altíssimos demais, para que apenas uns poucos privilegiados consigam alcançá-lo. Mas, evidentemente, cobra-se de todo mundo, é claro. Quando criança, na década de 1980, espantava-me andar pela Feira de Santana e me deparar com incontáveis ido...

Crônicas temerárias (I)

             Quando flertava com a manobra traiçoeira que apeou Dilma Rousseff do poder, Michel Temer (PMDB) proclamou que conduziria um governo de “salvação nacional”. E anunciou, solene, que montaria um ministério de “notáveis” para conduzir essa sagrada missão. Como todos sabem, os notáveis ficaram pelo caminho, atropelados pelos políticos profissionais que alcançaram o balcão – essa imortal instituição nacional – em desabalada carreira. Os “notáveis” figuraram como piada um par de dias mas, depois, foram esquecidos.             Há quem enxergue no temerário ministério um magote de nulidades, pouco qualificados em questões gerenciais; outros adotam uma perspectiva ética: figuram no olimpo temerário figuras altamente suspeitas de envolvimento com corrupção, inclusive nos mesmos escândalos que serviram para escorraçar os petistas, embora isso a chamada grande mídia não repise. Passados quase ...

Meio ambiente é tema banido das eleições municipais

              Faltam poucos dias para as eleições municipais. No próximo final de semana, mais precisamente, saberemos quem vai conduzir a Feira de Santana até 2020. Isso se não houver segundo turno, o que as pesquisas descartam até aqui. A campanha foi curta: meros 45 dias, com pouco mais de 30 dias de campanha na televisão. E o tempo foi dramaticamente encurtado, com somente duas inserções diárias de apenas 10 minutos. Com tão pouco tempo, ficou difícil saber o que os candidatos a prefeito pensam sobre uma série de temas. A questão ambiental, por exemplo, exigiria um debate mais profundo. A rigor, a Feira de Santana possui uma Secretaria de Meio Ambiente o que, em tese, configura um avanço. Mas, embora disponha de estrutura institucional, o município não conta com nenhuma política para o setor. O que se anuncia, sempre, são intervenções pontuais, normalmente anunciadas com estardalhaço. As lagoas feirenses seguem sendo tragadas pela especulaçã...

A crise sob a ótica do mercado imobiliário

              Ao longo do ano passado muita gente relutou em admitir que o Brasil começava a atravessar uma severa crise econômica, certamente a mais profunda em mais de um século. Alguns, por questões políticas: aceitar a recessão implicava em colocar-se na defensiva, depois de quase uma década da frenética pujança consumista legada pelo lulopetismo, que perdia o discurso a partir da debacle econômica. Outros mostraram-se arredios mais por questão de temperamento, de dificuldade em aceitar que o País ingressava em uma quadra dura, de desemprego elevado e de consumo declinante. São os otimistas incorrigíveis.                 Enquanto a recessão transitou pelo noticiário, com os esotéricos indicadores econômicos em gráficos indecifráveis, tudo bem: aquilo assemelhava-se aos incessantes debates estéreis que a imprensa teima em repisar, sem efeitos práticos. Pouco a pouco, po...

O Coronel é uma instituição latino-americana

Dizem os estudiosos, gente metódica do meio acadêmico, que o Coronelismo acabou; Que se trata de fenômeno histórico, esgotado quando Getúlio Vargas triunfou com sua revolução, lá em 1930, sepultando a República Velha. Bobagem: mais que uma categoria ou um elemento de análise sociológica, o Coronelismo é um estado de espírito, uma forma de ser, uma visão particular sobre o mundo e a sociedade. E persiste até os dias atuais, apesar de todos os esforços, infrutíferos, para considerá-lo sepultado. O Coronel é uma figura pitoresca que não floresce num lugar determinado do Brasil: simbiótico, ele encarna todas as metamorfoses necessárias, mostrando-se perfeitamente ajustado às mais distintas regiões do País. É como o camaleão, cuja tonalidade da pele encarna as características do ambiente em torno. E, faça-se justiça, é figura continental: vê-se espécimes semelhantes espalhadas pela América Latina, emergindo dos fundos de província com seu bigode indefectível, com seu chapéu panamá, c...