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Lembranças de Havana (XI)

A exemplo do que acontece em cidades antigas do Brasil e de outros países latino-americanas, La Habana Vieja apresenta um descuidado aspecto de abandono. Prédios vistosos em ruínas, outros se decompondo em múltiplas cores de pinturas superpostas, outros ainda sustentados por precárias escoras de madeira que denotam um esforço de preservação. Durante a manhã a luz alegre do sol choca-se frontalmente com as fachadas e, em alguma medida, atenua os efeitos do tempo e da escassez de recursos para a preservação; à tarde, porém, a luz alaranjada e débil empresta um tom melancólico aos antigos casarões, projetando sombras reais e imaginárias. É constrangedor examinar esses imóveis antigos. Centros históricos com manutenção precária lembram mulheres que um dia foram belas, mas que perderam a formosura da juventude. Que dizer? Recuperarão, um dia, a beleza de outrora num desses milagres científicos? É improvável que ocorra. Enquanto a palavra adequada de conforto doideja na mente,...

O silêncio dos (in)decentes

                        O Poder Legislativo é essencial em qualquer sociedade minimamente democrática. Esse é um consenso fácil alcançado pela classe política, pelos estudiosos do tema nos meios acadêmicos e pela imprensa. Isso para não falar na percepção da sociedade em geral, apesar da morosidade parlamentar, da eventual sujeição aos caprichos do Executivo e à natureza bizantina de muitos debates travados nas tribunas.             No Brasil, por exemplo, os refluxos ditatoriais necessariamente envolveram o sufocamento do Legislativo. Foi assim em 1937, quando Getúlio Vargas aplicou o golpe que o manteve no poder nos oito anos seguintes; foi assim também com a Ditadura Militar que se estendeu por 21 anos e na qual, mais uma vez, as restrições às atividades legislativas foram muito evidentes. Não há dúvidas, portanto...

As trovoadas lavam a memória da seca

O fenômeno das secas foi registrado pelos colonizadores portugueses pouco tempo depois de aportarem no Brasil. Foi ainda na primeira metade do século XVI, por volta de 1532. Àquela época era mais difícil perceber, já que as incursões sertões adentro ainda eram raras. Mas os lusitanos foram informados pelos indígenas, que precisaram se deslocar até o litoral em função da escassez de água devida à severa estiagem. Com o tempo, as sucessivas viagens e o conhecimento acumulado sobre o interior inóspito do Nordeste possibilitaram reconhecer que o fenômeno era constante. Alguns escribas que se aventuraram entre os espinhos da caatinga, além de observarem o fenômeno, conversaram com os nativos, que faziam alusão à sua recorrência; lusitanos sem pendores literários também conheceram a inclemência das secas, nas investidas em busca de metais preciosos ou de eventuais oportunidades econômicas. Quando o gado começou a ser criado de maneira extensiva pelos sertões, os colonizadores já ...

Transporte coletivo: o calo eleitoral

  Uma das grandes questões em debate nas eleições 2012 em Feira de Santana foi o sistema de transporte coletivo. Não é para menos: há muito tempo o feirense sofre sacolejando em veículos velhos e mal-conservados, muitas vezes mofando nos pontos em função de um sistema integrado muito mal-planejado, exposto ao sol e à chuva, já que os abrigos são raros. Isso para falar no valor da tarifa, que é dos mais elevados entre as cidades nordestinas, só perdendo para Salvador.             O atual prefeito, Tarcízio Pimenta e o deputado estadual, Zé Neto foram os candidatos que trouxeram as novidades mais significativas em relação ao transporte público propondo, respectivamente, a adoção do BRT e o Tri-Via. Essas propostas, a propósito, trouxeram grande dose de audácia.             É desejável, realmente, alguma mudança drástica no transporte coletivo local. Caduco, o sistem...

Uma leitura das eleições 2012

            O resultado das eleições em Feira de Santana, decididas no primeiro turno domingo passado, trouxe pelo menos um fato curioso: a pulverização da composição da Câmara Municipal numa impressionante mistureba de partidos. Foram eleitos 21 parlamentares, representando nada menos que 15 legendas diferentes. O próprio partido do prefeito eleito não fez mais que dois parlamentares, o que representa somente cerca de 10% do Legislativo.             Com base nos resultados, dois partidos saíram mais fortalecidos: o PT e o até outro dia nanico PTN, com três vereadores cada; o DEM e o PSC vem na seqüência, com dois parlamentares eleitos; e o restante das onze vagas se distribui num emaranhado de siglas detentoras de um único assento na Câmara Municipal.             Embora o candidato petista Zé Neto não tenha conseg...

Feira pode perder distritos com enxurrada municipalista

                                   Em breve os brasileiros podem voltar a conviver com uma enxurrada de novos municípios. É que, conforme noticiou a imprensa, a presidente Dilma Rousseff concordou em devolver às Assembléias Legislativas estaduais a prerrogativa de criar novos municípios, o que vinha sendo responsabilidade do Congresso Nacional desde 1996, por decisão do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Apesar de alguns critérios pretensamente limitarem as emancipações, certamente o recurso vai servir para a tradicional barganha por apoios nos períodos eleitorais.             Conforme a imprensa, a Bahia vai sair na frente com a possibilidade de se criar, pelo menos, mais 100 municípios, que se somarão aos 417 já existentes. Assim, ao invés de se racionali...

Olhos d’água que secam, soterrados

                          Poucas coisas ajudam a definir e a caracterizar a Feira de Santana tão bem quanto os olhos d’água. Certamente só as feiras-livres, que nasceram e se expandiram junto com a recém-declarada metrópole, podem rivalizar em relevância e identidade, já que o próprio nome da cidade decorre dessa inspiração. Afinal, no cáustico sertão baiano, a existência de reservatórios de água à flor da terra, acessíveis aos animais – gado sobretudo – fatigados por extensas caminhadas configuravam significativo conforto. Recompostos pelos pastos e pela água abundantes, seguiam para os abatedouros de Salvador, destinados a alimentar a população da capital baiana.             A modesta feira-livre inicial multiplicou-se, ganhando praças e vielas; estendeu-se, mudou de lugar, mobilizou milhares de comerciantes...