Há muitos anos, num desses debates de mesa de botequim, quando ainda militava no movimento estudantil, formulei uma ideia que considerei, de imediato, brilhante e original: a devoção ao socialismo, entre muitos, não se diferencia enormemente da devoção religiosa. Muda apenas a natureza da veneração: abandona-se o abstrato e se recai sobre o real; saem de cena os anjos e os santos e entram os sisudos profetas do socialismo: Lênin para todos, Stálin para alguns e – pairando como vértice principal da Santíssima Trindade profana – o velho Marx. É óbvio que a ideia não foi bem recebida: houve rejeição sob protestos veementes, gestos encolerizados, dúvidas sobre minhas convicções socialistas. É óbvio, também, que a formulação não tinha nada de original: estava atrasada em algumas décad...