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“Bolsa Família” tornou-se imprescindível. Ou não?




Os três principais candidatos à presidência da República disseram que pretendem manter ou ampliar o programa “Bolsa Família”, caso sejam eleitos. Em 2006, o PSDB e o finado PFL (atual DEM) torpedearam o programa no período eleitoral e, a partir de 2007, mudaram os discursos de olho nas eleições 2010. Zé Serra, o candidato da direita conservadora no Brasil, até se irrita quando perguntam se ele pretende extinguir o programa. Promete inclusive criar uma bonificação de final de ano – uma espécie de 13º salário, conforme observam alguns desavisados –, embora sua mulher, Mônica Serra, tenha chamado o programa de “bolsa vagabundagem” em entrevista recente.

Dilma Rousseff – por representar o mandato que ampliou o programa – e Marina Silva – por possuir uma maior identidade com os movimentos sociais e com a população mais pobre – não tem sido postas em xeque com a freqüência com que Zé Serra é questionado. Os questionamentos, aliás, são absolutamente pertinentes, já que o tucano participou dos dois governos Fernando Henrique Cardoso, marcados pela escassa sensibilidade social.

A maioria dos brasileiros tem hoje a percepção de que o “Bolsa Família” é importante para garantir o sustento de dezenas de milhões de pessoas, assegurar inclusão social, dinamizar as economias dos pequenos municípios e ajudar a reduzir as desigualdades sociais. Trata-se, portanto, de uma iniciativa exitosa que qualquer candidato tem a obrigação de preservar.

O ranço contra o programa, no entanto, persiste em alguns segmentos desinformados da sociedade. Muitos ainda são herdeiros de uma mentalidade colonial e escravocrata, julgando os pobres como “vagabundos” que utilizam os recursos públicos para tomar cachaça. Os mitos, porém, não se encerram aí.

 
Mais filhos


É comum dizerem que os beneficiários do “Bolsa Família” vivem fazendo mais filhos para ter acesso a mais dinheiro. Nada mais equivocado: o número de filhos por mulher no Brasil correspondeu, em 2009, a 1,94 filho, o que é inclusive inferior à taxa de reposição da população. Entre as mulheres com mais de oito anos de estudo o número médio de filhos é de 1,68, contra 3,1 entre as não-escolarizadas.

Quando se considera que a taxa de fecundidade cai no Brasil ano após ano, percebe-se a falácia do argumento (a queda média anual é de 1,6%). Se o volume de recursos repassados para o programa cresceu nos últimos anos, seria natural que a média de filhos por mulher se elevasse, o que não se verifica.

Os que permanecem presos a visões e valores ultrapassados, no entanto, não conseguem enxergar nada além daquilo que desejam. E é natural que destilem todo o veneno contra programas dessa natureza nos meios de comunicação, particularmente na Internet.


Vencedor

Quem assumir a presidência, no entanto, não pode se dar ao luxo de absorver preconceitos de eventuais primeiras-damas. Afinal, a elevada rejeição ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso mostra que os brasileiros não estão interessados em reviver os duros anos de um governo que combinou baixo crescimento econômico, salário-mínimo irrisório e ausência ou desarticulação de programas sociais.

Nos últimos anos os brasileiros mais pobres deixaram de figurar nos “projetos do futuro”, como canta Zé Ramalho, para de alguma forma se inserir na sociedade, inclusive com acesso a bens de consumo. Parece que é a continuidade nessa participação que interessa no momento, muito mais do que propostas que se reportam a dias longínquos no futuro – e que nunca chegam – quando os pobres alcançarão o almejado paraíso consumista.

A expansão dessa consciência é o que tem determinado a derrota de tradicionais partidos da elite rural e provocado curto-circuito na cabeça de intelectuais que pretensamente explicam o Brasil com precisão cirúrgica. Essa dificuldade de compreensão é o que justifica os editoriais irados, os manifestos reacionários e os discursos indignados dos conservadores em declínio.

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