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O risco de uma “cracolândia” feirense

  Não lembro exatamente se foi na véspera ou na antevéspera de Natal. O que recordo bem é que dezembro transcorreu sob um calor insano, apesar das imensas nuvens encardidas, prenunciando uma chuva que caiu no fim da manhã e que encobria o sol com frequência. Passava por uma das esquinas da avenida Sampaio e notei os três homens conversando, dois deles debruçados numa varanda. O movimento de veículos e pedestres já era menor, em função dos festejos natalinos. Mas ainda assim muita gente entrava e saía das clínicas nas imediações. Antes que passasse por eles, o grupo se dispersou: dois permaneceram na varanda, um seguiu adiante. Um dos interlocutores comentou sobre o que saíra: “Querendo fumar pedra a essa hora. Tem mais é que se f... mesmo”. O ar de desprezo reforçava o tom cruel da sentença. O que seguira devia ser adolescente: maltrapilho e encardido, tinha a idade incerta dos que vivem nas ruas. As roupas largas e sujas dançavam no corpo magro, de pele parda. Adiante ...

A educação à sombra dos viadutos

-->                                    Inicialmente causou estranheza o silêncio com que foi recebida a notícia que a educação básica na Feira de Santana está entre as piores do Brasil, num ranking divulgado por uma revista de circulação nacional. O levantamento, que levou em consideração apenas as maiores cidades do país, baseia-se em dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Depois se notou que, por banal, a notícia não provocaria grande repercussão: afinal, apenas se constatou de fato de uma situação amplamente percebida há muitos anos.             Atribuiu-se o desempenho ao calamitoso estado físico das escolas públicas. Muito ágil, a prefeitura divulgou nota esclarecendo que a avaliação se referia ao período do mandato anterior, encerrado ...

A Feira, a ponte e a reconfiguração logística

                       Há quase duas semanas o Governo do Estado publicou decreto declarando de utilidade pública algumas áreas na Ilha de Itaparica. A iniciativa representa mais um passo para a construção da ponte entre Salvador e a ilha, que integra o projeto do Sistema Viário Oeste. Objeto de inúmeras controvérsias durante a campanha eleitoral de 2010, a proposta suplantou a condição de devaneio, passou pela etapa de obra faraônica para, por fim, delinear-se como um projeto factível no longo prazo. Estima-se que, por volta de 2018, a ponte esteja pronta.             Em função das inúmeras dificuldades para a concretização do projeto, talvez a obra só esteja finalizada no início da próxima década. O intenso debate sobre a necessidade da construção da ponte, no entanto, serviu para evidenciar a sua importância como vetor...

Um pouco da simetria do centro feirense

                       Uma das maiores virtudes da Feira de Santana é o seu traçado urbano. As ruas largas e os quarteirões bem organizados transmitem uma sensação de planejamento que é realçada por um feliz fator geográfico: a escassez de ladeiras e a ausência de declives acentuados, como as encostas que tornam Salvador mais feia. Essa condição atenua os efeitos da ocupação desordenada de certos espaços urbanos e impede a ocorrência de grandes tragédias, como os deslizamentos de encostas que acontecem em períodos chuvosos.             A cidade deve o traçado organizado, além do próprio planejamento bem elaborado, ao seu desenvolvimento tardio: somente a partir dos anos 1960 é que a zona urbana começou a se expandir de forma mais acelerada. Até então, a população majoritariamente rural afetava pouco a paisagem citadina co...

Lembranças de Havana (VII)

-->   As ruas de la Habana Vieja guardam algumas semelhanças com os centros antigos de muitas cidades, mas possuem algumas características bastante particulares. Uma delas é a simetria entre as ruas: aparentemente, as ruas centrais da cidade foram meticulosamente planejadas, o que contrasta com os centros antigos normalmente ocupados ao sabor das necessidades imediatas. Não consegui descobrir se foi obra do caso ou capricho do colonizador espanhol. A característica mais marcante, no entanto, é que as ruas muito estreitas raramente são banhadas pelo sol. O arruamento tangencial à trajetória do sol e os inúmeros sobrados vedam a luz natural e conferem à paisagem um aspecto sombrio e úmido consagrado nas fotografias da cidade. Essas observações vem à cabeça à medida que o transeunte oriundo do mundo capitalista choca-se com a absoluta ausência de estabelecimentos comerciais. A lógica mercantil orienta a ocupação dos espaços urbanos nas sociedades de consumo, valorando ou ...

O espetáculo do futebol amador

            Numa cidade com poucas alternativas de lazer como a Feira de Santana, o futebol amador dos finais de semana cumpre a função de divertir, entreter e congregar um número de pessoas difícil de ser mensurado. Enquanto centenas de atletas correm atrás da bola em dezenas de campos espalhados pelos diversos bairros da cidade nas manhãs de domingo, milhares de expectadores acompanham atentos, vibrando e torcendo por suas equipes. Essa atividade se desenvolve em praças esportivas razoavelmente estruturadas – como na Vila Olímpica dos Amadores ou no Beira-Riacho, ali ao lado do Centro de Abastecimento – ou em campos duros de terra batida, nos quais a boa-vontade dos apaixonados por futebol ajuda a superar inúmeras deficiências. Um exemplo do que a paixão pelo futebol pode produzir é o próprio Campeonato Feirense de Amadores, que há décadas reúne equipes de bairros diversos, que se enfrentam em partidas aguardadas com imensa...

Os tortuosos caminhos do financiamento da cultura

  Acompanho, com algum interesse, a evolução das discussões sobre o financiamento da cultura na Bahia nos últimos anos. Há muito se fala sobre a questão: antigamente, os artistas do interior reclamavam da desatenção dos governantes soteropolitanos, na Soterópolis, que ignoravam a produção cultural em centenas de municípios, no momento de repartir o orçamento; hoje, as reclamações no interior declinaram um pouco, mas, em Salvador, muitas vozes se elevaram fazendo alusões ao “caos” da cultura e reivindicando o retorno aos velhos tempos. Não restam dúvidas sobre a riqueza e a diversidade culturais da Bahia e sobre o potencial desses atributos na geração de riquezas, de postos de trabalho e na atração de visitantes através do turismo. A exploração desse potencial, no entanto, passa por um impulso inicial que, por sua vez, depende dos recursos disponíveis. Os orçamentos da União e dos Estados destinados à cultura são bastante modestos: oscilam entre 0,7% e 1% ao longo dos anos. ...