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Lembranças de Havana (VII)

-->   As ruas de la Habana Vieja guardam algumas semelhanças com os centros antigos de muitas cidades, mas possuem algumas características bastante particulares. Uma delas é a simetria entre as ruas: aparentemente, as ruas centrais da cidade foram meticulosamente planejadas, o que contrasta com os centros antigos normalmente ocupados ao sabor das necessidades imediatas. Não consegui descobrir se foi obra do caso ou capricho do colonizador espanhol. A característica mais marcante, no entanto, é que as ruas muito estreitas raramente são banhadas pelo sol. O arruamento tangencial à trajetória do sol e os inúmeros sobrados vedam a luz natural e conferem à paisagem um aspecto sombrio e úmido consagrado nas fotografias da cidade. Essas observações vem à cabeça à medida que o transeunte oriundo do mundo capitalista choca-se com a absoluta ausência de estabelecimentos comerciais. A lógica mercantil orienta a ocupação dos espaços urbanos nas sociedades de consumo, valorando ou ...

O espetáculo do futebol amador

            Numa cidade com poucas alternativas de lazer como a Feira de Santana, o futebol amador dos finais de semana cumpre a função de divertir, entreter e congregar um número de pessoas difícil de ser mensurado. Enquanto centenas de atletas correm atrás da bola em dezenas de campos espalhados pelos diversos bairros da cidade nas manhãs de domingo, milhares de expectadores acompanham atentos, vibrando e torcendo por suas equipes. Essa atividade se desenvolve em praças esportivas razoavelmente estruturadas – como na Vila Olímpica dos Amadores ou no Beira-Riacho, ali ao lado do Centro de Abastecimento – ou em campos duros de terra batida, nos quais a boa-vontade dos apaixonados por futebol ajuda a superar inúmeras deficiências. Um exemplo do que a paixão pelo futebol pode produzir é o próprio Campeonato Feirense de Amadores, que há décadas reúne equipes de bairros diversos, que se enfrentam em partidas aguardadas com imensa...

Os tortuosos caminhos do financiamento da cultura

  Acompanho, com algum interesse, a evolução das discussões sobre o financiamento da cultura na Bahia nos últimos anos. Há muito se fala sobre a questão: antigamente, os artistas do interior reclamavam da desatenção dos governantes soteropolitanos, na Soterópolis, que ignoravam a produção cultural em centenas de municípios, no momento de repartir o orçamento; hoje, as reclamações no interior declinaram um pouco, mas, em Salvador, muitas vozes se elevaram fazendo alusões ao “caos” da cultura e reivindicando o retorno aos velhos tempos. Não restam dúvidas sobre a riqueza e a diversidade culturais da Bahia e sobre o potencial desses atributos na geração de riquezas, de postos de trabalho e na atração de visitantes através do turismo. A exploração desse potencial, no entanto, passa por um impulso inicial que, por sua vez, depende dos recursos disponíveis. Os orçamentos da União e dos Estados destinados à cultura são bastante modestos: oscilam entre 0,7% e 1% ao longo dos anos. ...

Aeroporto parece que decola

              Depois de longos anos de inatividade, o aeroporto da Feira de Santana foi finalmente reaberto para pousos e decolagens há alguns dias. Há, no entanto, outras novidades que devem ser vistas com otimismo. Uma delas é que uma companhia aérea cogita – por enquanto, apenas cogita – operar voos comerciais no município, algo sobre o que não se fala há muito tempo. Antiga aspiração do feirense, pode se concretizar, caso a crise econômica mundial não se alastre e contamine as perspectivas de crescimento para o Brasil nos próximos anos.             A outra boa notícia é que, no orçamento que se encontra em apreciação na Assembleia Legislativa para 2012, está prevista a aplicação de R$ 150 mil em obras no aeroporto feirense. Aparentemente, está mantida a expectativa que o equipamento continue a figurar entre os interesses do Estado.      ...

Pensando o sistema de transportes da RMFS

               Depois de uma intensa esgrima política e da apoteótica sessão itinerante da Assembléia Legislativa para aprovar a criação da Região Metropolitana de Feira de Santana (RMFS), ninguém fala mais do assunto, que sumiu do noticiário. É possível que governistas e a oposição estejam se municiando para voltar à carga ano que vem, durante as eleições municipais. Infelizmente, questões cruciais relacionadas à vida da cidade só são abordadas durante o período eleitoral, quando surgem incontáveis candidatos desejosos de se promover junto ao eleitorado.             Provavelmente o primeiro passo para consolidar a RMFS como espaço integrado nas dimensões econômica e social é o fortalecimento do sistema de transportes entre a Feira de Santana e os municípios do entorno: Amélia Rodrigues, Conceição da Feira, São Gonçalo dos Campos, Conceição do Jacuípe e Tanquinho...

Lembranças de Havana (VI)

-->   O Malecón é uma extensa avenida que corta a orla de Havana. É muito larga e o trânsito é bastante inferior àquilo que se poderia imaginar. Do trecho onde fica o Hotel Nacional e o Porto de Havana faz-se uma extensa, mas agradável, caminhada. O mar, no final do inverno, amanhece sempre azul-esverdeado, num tom escuro. Uma extensa e larga mureta separa a calçada das rochas escuras pelo limo e, sobretudo, do mar que avança voraz nos momentos de maré alta. Em alguns trechos da orla as ondas esbarram, furiosas, contra a mureta e invadem a calçada e até mesmo o asfalto da avenida. Á distância o espetáculo é fascinante: o mar recua com um som abafado, formando a onda que ganha corpo e depois avança, num ruído crescente, sobre as rochas e sobre a amurada; uma espuma grossa e parda se forma, alcançando dois ou três metros, brilhando à luz do sol; depois reflui, para formar uma nova onda que tentará a mesma façanha. De perto, o espetáculo incomoda: o vapor de água fria e s...

Centro de Abastecimento e identidade cultural da Feira (II)

                 Em artigo na semana passada defendemos a necessidade de se discutir com a comunidade qualquer mudança no Centro de Abastecimento. A prefeitura vem divulgando que pretende transferir o comércio atacadista de hortifrutigranjeiros para uma espécie de porto seco, na BR 116 Norte, na saída para Serrinha. Vítima de processo semelhante há quase quatro décadas – lá em meados dos anos 1970 – a antiga feira que existia no centro da cidade foi removida para o Centro de Abastecimento e perdeu muito de sua identidade original de feira-livre.             Bem ou mal, em quatro décadas o Centro de Abastecimento construiu uma identidade. É para lá que acorrem os visitantes que vem de dezenas de municípios e de centenas de distritos, povoados e comunidades rurais das imediações; Funcionalmente, é lá que se abastece o robusto e pouco estudado comércio dos...