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O sumiço dos patriotas

  Meados de 2018. O ônibus saiu de Salvador bem no começo da manhã. Linha regular, destinava-se às cidades da região sisaleira e, pelo caminho, catava quem se destinava à Feira de Santana, a Serrinha, a Conceição do Coité. Entusiasmado militante de Jair Bolsonaro, o “mito”, o cobrador estava exultante com o resultado das eleições presidenciais. Logo na saída da Rodoviária de Salvador – a manhã era ensolarada, luminosa – saudou alguém, à distância: “Bolsonaro! Bolsonaro!”, a voz alegre, satisfeita. Depois saiu conferindo passagens e, adiante, um acólito do “mito” - que examinava notícias na tela de um celular -, desejoso de puxar conversa, foi logo mencionando informação da Folha de São Paulo, enfiou um papo de desvio de verba no diálogo recém-iniciado; mas o cobrador, rápido feito um raio, reagiu quando ouviu a menção às verbas de gabinete, nem esperou a conclusão da frase: -Lei Renault, Lei Renault! Eles estão chateados porque vão perder a mamata da Lei Renault! Pensei que troc...

Clic-clac! O fotógrafo!

  “ Porque nós temos agora mais um exagero, mais uma doença nervosa: a da informação fotográfica, a da reportagem fotográfica, a do diletantismo fotográfico, a da exibição fotográfica – a loucura da fotografia”. O título do texto - e o parágrafo acima - não refletem o espanto de nenhum cronista contemporâneo. Pelo contrário: é coisa antiga, de quase 106 anos atrás. Trata-se de texto de João do Rio (1881-1921), jornalista carioca que, atento observador do seu tempo, imortalizou diversos aspectos da vida do Rio de Janeiro no começo do século XX. A crônica foi publicada em O Paiz, no remoto 8 de agosto de 1916. No texto, o autor confessa seu espanto com o fenômeno da fotografia reproduzindo uma cena na Avenida – a atual Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro – em que uma madame é flagrada pela Kodak de um fotógrafo louro. Espantado, discorre sobre o fenômeno, mencionando flashes em repartições públicas, fábricas, até em igrejas, durante as missas. Nesses ambientes, fot...

0,1% da população feirense morre de causas violentas todos os anos

  O percentual assusta: todo ano, mais de 0,1% da população feirense morre por causas violentas. No jargão da medicina, trata-se de “causas externas de morbidade e mortalidade”. Envolve situações como acidentes, suicídios, agressões, homicídios, envenenamentos e as controversas intervenções legais – supostos tiroteios entre as polícias e os criminosos – que, vira e mexe, ganham espaço no noticiário com estardalhaço. A tendência se mantém desde, pelo menos, 2015, ano menos mortífero dos últimos tempos. Em 2020, por exemplo, foram 702 óbitos, mais que os do ano anterior (674), mas menos que em 2018, quando foram notificadas 714 mortes. Nos anos anteriores, 2017 e 2016 registraram-se, respectivamente, 660 e 665 ocorrências. A quantidade de mortes violentas na Feira de Santana, a propósito, não é inferior a 500 desde o remoto ano de 2007. Naquela oportunidade, foram registradas 429 ocorrências. A partir de 2008 os números foram crescendo de maneira sustentada, com raros intervalos d...

O lúbrico combatente do “comunismo de costumes”

  Deu trabalho, mas o homem reapareceu no conjunto Feira 6. Enxugava litrinhos de R$2,50 , beliscava mortadela – a mais barata - em cubos, examinava as estudantes da Uefs com o olho acurado, aceso, lúbrico. Não era de negar fogo, parecia insinuar, lançando olhares venenosos. Mas, na verdade, aproveitava a tarde vadia, plácida, de céu azul pontuado por nuvens encardidas, escorrendo mansa. Foi pouco antes do começo deste ciclo de chuvas. À primeira vista, tomariam-no como um idoso pacato, estritamente dedicado ao ócio da aposentadoria. Mas, não: bastam algumas palavras para perceber, na personagem, o fervor patriótico, a flama cristã, o engajamento cidadão, o entusiasmo de cruzado contra o “comunismo”, contra a degeneração socialista. - Esse negócio de inflação é coisa dos comunistas, estão manobrando, prejudicando o capitão! Os dados mais recentes saíram do forno faz pouco tempo: inflação de 1,06% em abril – maior alta desde 1996 – e, no ano, já roçando 4,29%, aproximando-se do t...

Salgado, preço da charque afugenta sertanejo

  A charque – ou carne-seca, sinônimo costumeiro, embora sejam produtos diferentes – sempre foi importante na dieta do sertanejo. A literatura especializada indica que seu consumo se iniciou nos primórdios da colonização, quando os portugueses começaram a desbravar o semiárido nordestino para plantar cana-de-açúcar e criar gado, num sistema de pecuária extensiva. No preparo da charque, o sal e o processo de desidratação permitem que o alimento dure mais tempo. Isso era essencial naqueles tempos em que não existia a comodidade de eletrodomésticos como a geladeira. Junto com a farinha – que, armazenada sob condições adequadas, também tem grande durabilidade – e o café, eram os principais alimentos consumidos naqueles tempos remotos. As mudanças radicais na vida dos nordestinos desde então – a urbanização acelerada, a industrialização, a ascensão do comércio e dos serviços a partir da segunda metade do século XX – não foram suficientes para arrefecer a predileção pela charque. O pr...

Como está a vacinação contra a Covid-19 em Feira?

  Vá lá que os casos de Covid-19 caíram na Feira de Santana nos últimos meses: dados da Secretaria Municipal de Saúde da quinta-feira (19) indicam que, naquele dia, havia apenas um paciente internado e foram registrados somente sete novos casos. Mas a situação já foi mais favorável e o número de casos pode crescer, como vem acontecendo em outras regiões do País. É o que estimam infectologistas que vem acompanhando a evolução da pandemia no Brasil. Assim, a vacinação – quem afirma também são profissionais da saúde – segue imprescindível. Sobretudo agora, quando o uso de máscaras foi revogado e as pessoas voltaram a se aglomerar, em festas, bares, eventos diversos e se preparam para as festas juninas que – é a regra – são sinônimo de viagens e de multidões aglomeradas. Há, inclusive, a expectativa de que os casos recrudesçam por conta desse período. A quantas anda a vacinação contra a Covid-19 aqui na Feira de Santana? Há dias o vacinômetro não é atualizado – os dados mais recentes...

O xerife do pavilhão três

  - O sujeito está aí, na cela administrativa. Ontem [domingo] de manhã, 'saiu na mão' [brigou] com um preso no pátio do [pavilhão] três. Surrou o outro, que tem consideração no meio da malandragem. Correram atrás dele e ele foi encurralado na própria cela. Uns trinta foram entrando, todo mundo foi 'currando' ele... Era manhã de segunda-feira no Conjunto Penal de Feira de Santana. Meados dos anos 1990. Quem explicou o episódio foi o agente penitenciário com quem conversávamos sempre, fazendo a cobertura policial pelo extinto jornal Feira Hoje. O brigão – e potencial violentado – aguardava medidas administrativas no 'seguro', pois o convívio no pavilhão três tornara-se impossível. Na cela administrativa – ficava no próprio pavilhão administrativo – ele negou o episódio, os olhos muito abertos, o ar de espanto. Admitiu a briga, seu sucesso na peleja contra o rival. No mais, reconhecia a reação da turba, inconformada com o desfecho da briga. Daí a nova confusão, ...