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A canção alegre no Natal enlutado

  Foi no meio da tarde de terça-feira (15). Na esquina da Senhor dos Passos com a Getúlio Vargas, bem do lado da igreja, os autofalantes – instalados no centro da cidade para embalar as compras neste período natalino – começaram a tocar Girls Just Want To Have Fun , grande sucesso dos anos 1980 na voz da cantora norte-americana Cyndi Lauper. Ia andando e a canção vibrante – nostálgica para quem viveu aqueles anos – soava, familiar, resgatando remotas recordações. Nem é preciso mencionar o calor que fazia sob o céu azul pálido, esbranquiçado. Não soprava nenhuma brisa e as copas dos oitis no estacionamento da prefeitura permaneciam quase imóveis sob aquele bafo ardente. Nem os pardais piavam e, no ar, havia uma luminosidade faiscante. Naquele cenário abrasador até os roncos dos motores eram menos ferozes; e apitos longínquos soavam frágeis, exangues. Talvez por isso a canção viva, pulsante, destoava tanto daquela tarde incandescente, sufocante. Enquanto a voz de Cyndi Lauper irr...

As múltiplas feições da morte

É bizarro o quiproquó envolvendo a vacinação contra a Covid-19 no Brasil. Ocupado por um general lerdo, o Ministério da Saúde retarda decisões, se omite, polemiza, arrota valentia, mas não encaminha soluções. Enquanto vários países já se preparam para começar a vacinação, lá no Planalto Central apenas se rascunham planos vagos. O pior é que nada disso surpreende os mais atentos. A vacinação é uma opção pela vida. E o Brasil, em 2018, selou nas urnas um pacto com a morte. Portanto, os dois últimos anos, por aqui, foram de exaltação à morte, em suas múltiplas dimensões. As ostensivas medidas de rearmamento da população são a face mais visível. Mas há outras, muito claras. É o caso do “excludente de ilicitude”, aquela carta branca para as polícias apertarem o gatilho sem empecilhos. A tentativa de taxar livros e isentar de impostos a importação de armas bem que resumiria, sinteticamente, essa época tormentosa. A destruição da Amazônia e do Pantanal também são manifestações desta mesma...

O enigma no trem em Porto Alegre

O rapaz de cabelos e olhos claros entrou e sentou bem defronte a mim.   O trem estava vazio – era metade de uma manhã cinzenta de fim de inverno e o sol e as nuvens alternavam-se no céu – e, ali na Estação do Mercado, havia uma quietude profanada por poucos passageiros apressados. Lá de fora – distantes – chegavam sons distorcidos, indefiníveis. Mas no vagão prevalecia um silêncio tênue, que uma tosse persistente, passos abafados ou o incessante vasculhar de sacolas fragmentavam. Então, depois do aviso sonoro, as portas se fecharam e o trem avançou em direção a Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Entretive-me tentando enxergar o Guaíba – eriçado com o vento daquele fim de inverno e seus múltiplos tons, ora cor de aço, ora acobreados –meio encoberto pela vegetação e pelas construções cinzentas. À medida que as estações foram se sucedendo – Rodoviária, São Pedro, Farrapos – começou a subir mais gente. Subiam também os ambulantes que ofereciam suas bugigangas. ...

O medonho ofício de escrever

  Há um quarto de século mergulhado no ofício da escrita, pouco me aventurei a conjecturar sobre o que é essa labuta, o que é o escrever. A longa pandemia, porém, despertou alguns impulsos que, depois, foram se convertendo em ideias vagas; adiante, transfiguraram-se numas frases soltas, que não se conectavam; por fim, surgiu um plano, um fio condutor, que foi amadurecendo. Agora, neste sufocante e ensolarado dezembro, venço uns resquícios de insegurança e preciosismo e me arrojo neste exercício breve, mas inóspito. E delicado, porque escrever vai além de um ofício, de uma ocupação. Diria que se mistura à própria essência do indivíduo. E é difícil lidar com si mesmo. Escrever é, sobretudo, um exercício solitário. Mesmo que se esteja numa redação, numa repartição, num escritório, até num local público, com gente em volta. Com a experiência, aprendi que, às vezes, os textos fluem, prazerosos. Outros empacam, supliciam, castigam, flagelam. É quando as ideias se embaralham, confusas...

Pré-candidatura de Otto Alencar embaralha sucessão baiana

As eleições de 2022 na Bahia começaram assim que terminou a apuração dos votos do segundo turno para prefeito na Feira de Santana e em Vitória da Conquista. Fiador da vitória nas duas cidades – em ambas, o MDB virou contra candidatos do PT – o atual prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), deixou a cautela de lado na comemoração e anunciou a possibilidade de se candidatar a governador daqui a dois anos. Badalado como gestor, emprestou sua popularidade a dois candidatos que patinaram no primeiro turno – Colbert Martins Filho e Herzem Gusmão – e alavancou a virada. O principal triunfo do prefeito de Salvador, porém, foi a esmagadora vitória na própria capital – Bruno Reis (DEM), o atual vice-prefeito, vai sucedê-lo – num pleito sem grandes emoções. As candidaturas concorrentes entusiasmaram pouco o eleitor soteropolitano, que apostou firme no candidato de ACM Neto, que recebeu cerca de dois terços dos votos válidos no primeiro turno e encurtou o embate. Alarmado com a desenvolta movimen...

A trilha sonora do verão feirense

  Quem presta atenção já ouve o canto majestático dos sabiás nas copas das árvores feirenses. Ainda bem. É desta ave a trilha sonora dos verões tropicais. Que seria dos dezembros sem o seu canto que aproxima o homem comum – mortificado pelas aporrinhações da vida cotidiana – do Divino? O canto do sabiá é o prenúncio sonoro do paraíso. Não esse que muitos espertalhões vendem nos púlpitos, mas o que é estado de espírito, imersão profunda no Todo. Dezembro é mês daqueles inevitáveis balanços – não apenas os empresariais – que todo mundo faz do ano que passou. Projeta-se, também, o futuro, cultivam-se esperanças de dias melhores. Em 2020 o exercício vai ser ainda mais oportuno, porque a pandemia da Covid-19 desarranjou as rotinas e instituiu um inquietante “novo normal”. O momento, portanto, é adequado para refletir. Dezembro também é mês do Natal e das celebrações de Ano Novo. Tudo indica que este vai ser o mais estranho dos natais. A crise econômica na praça nem é algo novo, pois...

O choro da confraria dos sem-voto

Originalmente publicado em Nov/2020 Neste Brasil de pouca inteligência e de muita truculência dos últimos tempos, virou moda candidato derrotado contestar resultado de eleição. A Feira de Santana não fica atrás: aqui a confraria dos sem-voto chora e range os dentes desde a eleição municipal passada. O que se vê, Brasil afora, são infundadas suspeitas sobre as urnas eletrônicas, sobre o sistema de totalização, sobre a lisura do processo. Os mais anacrônicos querem voto impresso para conferência – ou para controle dos amigos milicianos – como se faz, por exemplo, no jogo do bicho. Tudo choro de perdedor. O sujeito esfalfa-se distribuindo dezenas de milhares de “santinhos”; desperdiça litros de saliva catequizando eleitor reticente; gasta fortunas bancando diárias para panfleteiros, financiando bandeiraços; e o despropósito investindo em combustível, marmita, água, material de campanha? Muitos enxergam que esse esforço hercúleo tem que ser, necessariamente, recompensado. De preferência,...