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Feira ferve com remoção de camelôs do centro

Originalmente publicado em Set/2020 Expirou terça-feira (15) o prazo dado pela prefeitura para os camelôs que trabalham nas ruas centrais da Feira de Santana se mudarem para o festejado shopping popular, erguido ali na área do maltratado Centro de Abastecimento. Mas, no dia seguinte, ninguém fez a mudança: estava todo mundo lá no calçadão da Sales Barbosa, na avenida Senhor dos Passos, nos becos e vielas que há décadas regurgitam com o fervilhante comércio informal feirense. O impasse – anunciado há muito, mas desdenhado pela prefeitura – ganhou ares mais dramáticos com a pandemia do novo coronavírus. Segundo prepostos da prefeitura, os trabalhadores ganharão oito meses de isenção na cobrança de aluguel e taxas de condomínio. Só que eles resistem, intuindo prejuízos. E querem negociar. Até aqui, a prefeitura não sinaliza para uma negociação. A inquietação da categoria não é gratuita. Afinal, a pandemia não acabou e a recessão está aí, à vista de todos. Caso fiquem inadimplentes, qu...

Mudanças climáticas na Feira

  Choveu na noite de domingo aqui na Feira de Santana. Lá fora, via-se a poeira d’água, esbranquiçada, diluindo o centro da cidade mergulhado nas sombras e no silêncio. Nuvens sanguíneas se espalhavam pelo céu. Mas houve sol de primavera ao longo do dia. E também choveu algumas vezes. Uma luminosidade baça prevaleceu durante as precipitações. E até a atmosfera assumiu aqueles tons plúmbeos, de inverno. Esquentou e, depois, a temperatura caiu. Num só dia, as quatro estações se revezaram, desnorteando o feirense. Note-se que as chuvas estão sendo muito regulares aqui na Feira de Santana em 2020. E foram bem distribuídas ao longo dos meses. Ano passado também choveu bastante. Mas houve menos regularidade, mais concentração. Imagino que, na zona rural, há fartura de milho, de feijão. Há três anos, em 2017, também choveu bem, depois de uma interminável seca. Só que, quando não chove, a Feira de Santana pena sob um calor implacável. Não é só em janeiro, não: em outubro – e outubro já...

Crônica da tarde ensolarada de sábado

  Dobro a esquina da Voluntários da Pátria – nome feio, frio, cartorial para uma artéria pulsante – e ouço o ronco aflito dos motores dos veículos que sobem e o freio estrepitoso dos ônibus que descem a famosa rua que conduz ao Sobradinho. Em torno, painéis reluzentes anunciam padarias, lanchonetes, restaurantes, lojas de materiais de construção, farmácias, confecções. No céu, nuvens pardas, esparsas, insinuam chuvas que não cairão. Caos na confluência da Avenida Canal com a rua de Aurora e com a ladeira do Nagé. Motos, ônibus, automóveis, utilitários, ciclistas e pedestres cruzando em todas as direções. Buzinas estridentes, motores resfolegando, pneus cantando, intrépidos, imprecações, vozes. Tudo abençoado pelo sol preguiçoso do fim do inverno. Nas biroscas manchadas de poeira e óleo, cerveja quente em copo plástico, espetinhos lustrosos de frango, linguiça e carne. Gente manchada de poeira e óleo conversa aos berros, esbraveja, gesticula, ri. O arrocha estronda em caixas pos...

Oposição lidera pesquisa pela primeira vez em 20 anos

  Depois de muito tempo, ontem (10) o sol se pôs sem nuvens na Feira de Santana. Aquela aquarela que se acende quando o céu está limpo finalmente retornou, soberba. Nela, tons azuis, amarelos, vermelhos, esbranquiçados, se sucedem, antes que as lâmpadas elétricas faísquem, ferindo a escuridão iminente. À distância – além daquele vale que desemboca no rio Jacuípe, seguindo a BR 116 Sul – viam-se até os contornos pálidos de longíssimas montanhas, quase se confundido com o azul tímido do céu. Enquanto o poente se esbraseava, pipas dançavam, silenciosamente, no céu da Queimadinha. As copas das palmeiras imperiais farfalhavam e refletiam – num momento fugaz – a luz do sol, emprestando alegria ao crepúsculo. Em volta, o voo incessante dos passarinhos. Destacando-se no poente só um gavião, majestoso, fazendo acrobacias enquanto a tarde morria. São os primeiros sinais do verão? As luzes, as cores, a tepidez do poente, o azul puríssimo, tudo indica que sim. Em dez dias, acaba o inverno....

Dilemas da recauchutagem do Bolsa Família

  – É por isso que o povo não quer fazer mais nada! A indignação era tamanha que ele nem conseguia sentar, beber com calma a cerveja barata que esquentava no copo americano. Naquelas caminhadas curtas até a porta do bar, arrastava os pés e as sandálias rangiam um rangido desagradável. Lá fora, a azáfama da manhã de sábado na Feira de Santana. Ambulantes, donas-de-casa, gente pejada de sacolas, o apito persistente de quem tentava ordenar o trânsito caótico. Naquele infindável ir-e-vir, resolveu investir novamente: – Tô com a roça lá para limpar e ninguém quer trabalhar. Chamo um, chamo outro, ninguém topa. A culpa é desse Bolsa Família, desse negócio de ficar dando dinheiro de graça para pobre... Que fazer? Deixar a bola passar. Ali não havia diálogo. Era um monólogo. No palco de cimento áspero, um iracundo crítico do petê. Almejava incorporar-se à elite, julgava-se mesmo pertencente a ela. Branco, cabeleira densa, grisalha, afetação ríspida de coronel do interior. Certament...

Inflação da cesta básica penaliza feirenses

Enquanto Jair Bolsonaro, o “mito”, desfila Brasil afora em sua apoteótica campanha antecipada, o brasileiro médio – aquele que conhece o sufoco do dinheiro curto – pena para colocar comida na mesa. Aqui na Feira de Santana não é diferente.   Em agosto, o feirense desembolsou 38,65% do valor do salário mínimo (R$ 966,63, quando se desconta a contribuição previdenciária) para adquirir os 12 itens que compõem a cesta básica. Exatos R$ 373,61. Há um ano, em agosto, era menos: 34,03%. O 2020 da pandemia da Covid-19 acumula alta de 14,96% nos preços dos itens da cesta básica aqui na Princesa do Sertão. O trivial do almoço do brasileiro registrou ascensão vertiginosa ao longo do ano: o arroz saltou 29,14%, o feijão pulou 20,64% e o preço da carne – cujo valor intimida o feirense defronte os açougues – subiu 17,53%. Até o prosaico tomate, tão comum nas saladas e no tempero do dia-dia, disparou: 21,94% de reajuste. Todos estes números integram o levantamento realizado mensalmente pelo p...

A Pátria das “Boquinhas”

  Foi aplaudido com efusão o envio da reforma administrativa pelo Executivo para o Congresso Nacional em meados da semana. O projeto vinha sendo cobrado com veemência pelos ventríloquos do “deus mercado” e por aquela parcela da imprensa que vocaliza o liberalismo pueril que viceja por aqui. Não pretendo entrar nos detalhes da proposta – mesmo porque muita gente já o fez – mas alguns aspectos que passaram despercebidos precisam ser ressaltados. Só os ingênuos foram surpreendidos pela decisão de Jair Bolsonaro, o “mito”, de poupar a elite do Judiciário, os amigos militares – esta casta altamente privilegiada – e os parlamentares. Muitos ainda não perceberam, mas a “modernização” do Estado pretendida pelos histriônicos liberais tupiniquins, no fundo, não passa de um vexatório retorno à República Velha, aquela que vigorou sob a tutela militar até 1930. A sabedoria encastelada no Planalto Central pretende “flexibilizar” a estabilidade dos servidores, acrescentando novos regimes jurí...