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A peleja da imprensa em Cachoeira pela abolição da escravidão

“José Theodoro Pamponet offerece seus serviços ao abolicionismo d’esta comarca. Os ‘escravisados’ que se julgarem com direito à sua liberdade, quer por effeito da lei de 7 de novembro de 1831, quer por outra lei, podem procurá-lo n’esta cidade, no escriptorio d’este Jornal”. A oferta está nas páginas d’O Asteróide, “orgam da propaganda abolicionista”, conforme grafia da época. Saiu na edição de 6 de dezembro de 1887, às vésperas da abolição formal da escravidão, que ocorreu no ano seguinte. A sede da publicação era na vizinha cidade de Cachoeira.  O “redactor” de O Asteróide era o próprio José Theodoro Pamponet. Navegando pela Internet descubro que, anos antes, em 1871, ele se aventurara na Guerra do Paraguai. Contra os defensores da escravidão, o arrojado redator não poupou adjetivos. Inclusive contra os poderosos do Recôncavo, quando celebrou a alforria concedida pelo proprietário Affonso Pedreira de Cirqueira a um grupo de escravos: “Sirva essa acção honrosa de luz ao ‘fe...

Crônica do pesadelo da noite infinita

Saiu. Era noite. Nunca andara em noite como aquela, não conhecia a sensação. Mas f oi. Dobrou à direita, enveredou por vias tortuosas. Logo adiante se deparou com um tumulto. Curiosos examinavam a cena do crime. No chão, incontáveis cápsulas de diversos calibres de armamento sofisticado. Sangue respingado manchava a parede áspera e uma poça coagulara na poeira sobre o calçamento. –  Esse é o destino dos ímpios, daqueles que cultivam a sabedoria dos homens – vociferava um pardo de camisa social devidamente abotoada, calça vincada e impecáveis sapatos lustrosos. Empunhava o Velho Testamento. – Mataram um comunista – murmuravam aqueles que examinavam, mórbidos, a cena do crime. O corpo já fora recolhido: não convinha que ficasse exposto ali. Mas esqueceram a prova do crime: a mochila coalhada de literatura subversiva. “Filosofia ou sociologia”, cochichavam, alarmados, os retardatários que teimavam na esquina trágica. O vento quente espalhava as páginas daquelas publicações sa...

O fim do planejamento governamental

Qualquer empresário médio ou executivo de grandes corporações privadas conhece bem a importância do planejamento. Algumas empresas delegam a atividade para setores inteiros. Muitas contratam consultorias; e o que há de mais moderno em planejamento estratégico é tema familiar nas corporações de vanguarda. Afinal, é imprescindível traçar cenários, saber se posicionar em relação aos desafios futuros, entender como se comportam fornecedores, concorrentes, consumidores. E, sobretudo, dimensionar as próprias potencialidades. Se já é indispensável na esfera privada, o planejamento é ainda mais essencial no setor público. Nele, revelam-se múltiplos conflitos que exigem resolução mediante o planejamento; impõe-se o uso adequado dos recursos escassos, sobretudo em contexto de crise, como agora; e coloca-se como indispensável a definição de prioridades e a devida comunicação à população, desde o período eleitoral, quando se fazem as escolhas. Pois bem: passou despercebido, mas o festejado pa...

Hegemonia ronaldista completa duas décadas em 2020

Ano que vem completam-se 20 anos que José Ronaldo de Carvalho (DEM) foi eleito prefeito da Feira de Santana pela primeira vez. Foram quatro vitórias sem grandes embaraços: todas as aconteceram no primeiro turno, com expressiva vantagem sobre os concorrentes. Isso em 2000 e 2004 – na primeira sequência de dois mandatos – e em 2012 e 2016, noutra sequência de dois mandatos. De quebra, elegeu Tarcízio Pimenta, então no DEM, também no primeiro turno, em 2008. Nenhum grande município brasileiro ostenta hegemonia tão longa de um único partido. Mais ainda: na prática, de uma única liderança política. Afinal, em 2008, Tarcízio Pimenta se elegeu com o bordão do “terceiro mandato”, o que apenas reforçou o papel do ex-prefeito como grande fiador daquele pleito. Embora popular, dificilmente o então deputado estadual prevaleceria nas urnas com tanta facilidade. O total de votos e o percentual no universo de votos válidos do ex-prefeito vêm crescendo. Em 2000 – quando se habilitava para suceder...

Há quase um século, Feira vencia torneio Intermunicipal

Pouca gente deve saber, mas há quase um século a Feira de Santana sagrava-se campeã de um torneio de futebol intermunicipal. As páginas do Jornal A Flor – que circulou na primeira metade do século passado aqui no município – registraram a façanha da seleção local, lá nos primórdios do futebol na Bahia. A Fundação Senhor dos Passos resgatou a publicação, que ganhou versão impressa recentemente. O texto sobre o troféu está nas páginas dois e três da edição 33, do domingo, 18 de dezembro de 1921. São quase 98 anos, portanto. A matéria realça que a equipe foi recebida com festa: “Da capital, chegaram aqui em o regular das 9 horas, na segunda-feira, a nossa embaixada com os denodados campeões, que tão brilhantemente souberam pelejar, no campo da Graça, para conquistar a victoria entre nove adversários”. O campo da Graça foi o primeiro estádio da capital. Por lá, passou até a Seleção Brasileira. No torneio que consagrou os feirenses, Ilhéus, Castro Alves e Cachoeira eliminaram Santo Ama...

Recursos para Assistência Social também estão em declínio em Feira

Os repasses para a Feira de Santana não encolheram só na Saúde e na Educação em 2019. A Assistência Social foi duramente alvejada também. É o que mostra consulta ao Portal da Transparência, que discrimina os valores encaminhados aos municípios. Os dados analisados referem-se ao período de janeiro a setembro, período do novo governo. O montante repassado em anos anteriores foi atualizado com base no Índice Geral de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, calculado pelo Instituto Brasileiro de geografia e Estatística (IBGE). Os valores não consideram repasses para beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família ou o Benefício de Prestação Continuada, o BPC. Nos primeiros nove meses de 2019, na gestão de Jair Bolsonaro (PSL-RJ), o “mito”, foram repassados R$ 6,179 milhões. É até mais que o montante enviado pela União ano passado, que não foi além de R$ 6,118 milhões, atualizados até agosto. Mas já foi menos que em 2017, quando o valor aportado totalizou R$ 6,215 milhões, também ...

Repasses para a Educação caem ao menor nível desde 2014

Existem muitas formas de mensurar o desapreço do novo regime pela Educação. A pretensão de controlar professores, a militarização das unidades escolares, a simpatia pelo famigerado projeto Escola sem Partido, tudo isso reflete, em termos subjetivos, o desdém pelo tema. Há, porém, formas mais concretas – e mensuráveis – de entender o que está se passando com a Educação no Brasil. Uma delas é avaliar as transferências de recursos para os municípios. A Feira de Santana constitui um caso exemplar. A partir de janeiro e até setembro do ano atual foram transferidos R$ 39,239 milhões para o Ensino Fundamental no município, sob a gestão de Jair Bolsonaro, o “mito”.  É o menor repasse real desde 2014, conforme consulta ao Portal da Transparência, do Governo Federal. Para a comparação, foram considerados apenas os períodos de janeiro a setembro. Os valores foram corrigidos pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA. Até meados de 2014 a crise ainda não havia eclodido. Naquele ano...