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Plante uma Árvore

Já faz algum tempo que o feirense padece sob um calor insano. O dia, normalmente, até começa com muitas nuvens no céu e uma brisa agradável. Mas às oito da manhã o sol já esquenta rijo, apressando o passo de quem sai para suas ocupações. A partir daí torna-se implacável: à medida que se encaminha para o centro do céu as sombras encurtam, espantando quem está pelas ruas. Diversos termômetros espalhados pela cidade sinalizam que, nesses dias, das dez em diante, atingimos facilmente os 35 graus. Aí a temperatura só começa a declinar das três da tarde em diante. Mas mesmo quando a luz do sol vai ganhando aqueles tons alaranjados do final da tarde o calor ainda é intenso. E notem que o verão nem começou. Pelo menos oficialmente. Registros indicam que, noutros tempos, a Feira de Santana era conhecida por seu clima agradável. Arrimo de boiadas e boiadeiros, o antigo arraial tinha vastos reservatórios de água superficial e a vegetação que combinava mata atlântica e caatinga permanecia bem...

Carro do ovo é o retrato da crise econômica

Lá por meados dos anos 1990, quando exercia o primeiro dos seus dois mandatos presidenciais, Fernando Henrique Cardoso cometeu um deslize que teve ampla repercussão: disse que os pobres vinham melhorando de vida e que estavam, inclusive, consumindo produtos como frango, iogurte e prosaicas dentaduras. A oposição, à época, fustigou o governo com discursos implacáveis; e não faltaram comentários irônicos da chamada grande mídia que, até então, exercia seu papel com mais inteligência e independência. Naqueles tempos, pobre só consumia frango aos domingos. Era uma piada corrente, mas com inegável fundo de verdade. Afinal, os brasileiros emergiam de anos de hiperinflação – que, invariavelmente, penalizava os mais pobres – e, àquelas alturas, o salário-mínimo patinava em valores irrisórios, muito abaixo dos almejados 100 dólares que povoavam os sonhos da oposição. Obviamente, essa penúria se refletia no cardápio das periferias. Muita gente suava para garantir o feijão, a farinha e, even...

Movimento no comércio feirense decepciona

As vendas natalinas na Feira de Santana não devem ser das mais favoráveis nesse 2016 que finda nos próximos dias. Simples observações pelas ruas da cidade indicam que o consumidor feirense está reticente, circulando muito pelas vias comerciais, mas aventurando-se pouco lojas adentro. Ressalte-se que a tendência não se verifica apenas aqui na cidade, mas em todo o País. Mais um desdobramento da terrível recessão que se arrasta há dois anos e que, por enquanto, não dá sinais de que vá arrefecer. Todos os anos o comércio funciona em horário especial em dezembro, em função dos festejos de final de ano. É quando cresce o volume de consumidores e muita gente dispõe do décimo-terceiro salário como recurso extra. Daí o horário de funcionamento expandido, o que inclui jornadas especiais aos domingos. Em função do maior conforto, muitos preferiam comprar nessas datas. Nos dois últimos domingos o comércio feirense funcionou. O fluxo de consumidores, comparado ao de anos anteriores, foi decep...

Mendigos e pedintes retornam às ruas feirenses

Quem circula pela Feira de Santana vem notando: tem crescido o número de pedintes, mendigos, moradores de rua e outros deserdados pelo centro da cidade. Também vem se ampliando a quantidade de vendedores que circulam pelos ônibus, oferecem seus produtos pelas praças e avenidas ou que tentam arranjar-se como camelôs, confiscando espaços exíguos das vias públicas para exibir seus produtos. Tudo isso se deve à feroz crise econômica que assola os brasileiros há dois anos. Mulheres maltrapilhas, com crianças de colo, voltaram a se tornar rotina nas portas dos bancos, na frente dos supermercados, na estação rodoviária ou em qualquer ambiente pelo qual circule gente com dinheiro. Sobretudo nesses dias que antecedem o Natal, quando os brasileiros embolsam o aguardado décimo-terceiro salário. Nos pontos de ônibus os passageiros recorrem a variados contorcionismos para se desviar dos carrinhos-de-mão e dos vendedores que apregoam suas mercadorias aos gritos. Muitos ambulantes embarcam nos ô...

Um sonho para João

Recorro, mais uma vez, a João, aquela personagem fictícia que criei num texto anterior. Hoje ele tem nova missão: será protagonista no cenário da famigerada PEC do Teto de Gastos. Aquela mesma que foi aprovada no Senado essa semana. Tumultuada, a sessão foi marcada por incontáveis arroubos cívicos das excelências que foram favoráveis à medida. A partir daqui, acione-se o cronômetro que fará a contagem regressiva para o colapso dos serviços públicos num futuro próximo. Isso se, antes, não acontecer uma convulsão social. A chamada grande imprensa passou os últimos dias alardeando que a PEC iria “limitar os gastos públicos” e “conter a gastança do setor público”. Mentira: nessa armadilha, ficam de fora os juros da dívida pública, porque simplesmente não há limite para esse tipo de despesa na esperta medida redentora. O governo, portanto, vai retirar recursos da saúde, da educação, da assistência social e da previdência para remunerar o capital financeiro. É dinheiro que sai dos servi...

Xamanismo econômico do PMDB dá chabu

Dilma Rousseff (PT) ainda cambaleava com a rasteira aplicada pelo emedebismo quando o controverso Michel Temer (PMDB-SP) anunciou seus planos para a economia brasileira. Principal beneficiário da orquestração que defenestrou o petismo, o polêmico presidente prometia os primeiros sinais de recuperação econômica para um horizonte curto, já em meados de 2016, no máximo no quarto trimestre. Para justificar, brandia o resgate da festejada “confiança” dos mercados financeiros. O discurso oficial recauchutava uma série de clichês, destacando-se a defesa da redução do tamanho do Estado. Para quem observava com mais atenção era visível que o novo regime abraçava uma espécie de xamanismo econômico, com o deus mercado ocupando a condição de principal totem. Aquilo parecia pouco para vencer a crise. O transcorrer dos meses mostrou que os instrumentos invocados pelo emedebismo para debelar a profunda recessão na economia brasileira são, no mínimo, insuficientes. Segundo a pajelança oficial, ba...

O drama de João

João é personagem fictício: criei-o agora, na abertura desse texto, para ilustrar a temerária reforma da Previdência encaminhada para o Congresso Nacional essa semana. Não faz mal: João tem tantas características em comum com milhares de pessoas que, provavelmente, o leitor vai considerá-lo familiar, quase conhecido. Pra começar, João é feirense e, portanto, brasileiro; jovem: mal completou os 18 anos; é pardo, reside na periferia e frequenta a rede pública de educação. João procura emprego: apesar da idade, ainda não concluiu o ensino médio; até aqui, só conseguiu alguns bicos, temporários e precários, que lhe renderam alguns trocados para ajudar nas despesas domésticas. Os impactos da crise já lhe são familiares: conhece muita gente que perdeu o trabalho modesto ao longo desses dois anos de intensas agruras econômicas. Agora, João tem ouvido dizer que a Previdência vai sofrer mudanças. O que se fala é que pobre não vai mais ter direito à aposentadoria. Num cálculo rápido, ele ...