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A fé que desafia a Covid-19

 

– Jesus te ama!

Ouvi a frase de um sujeito que empurrava uma bicicleta ali na avenida Maria Quitéria. Baixo, atarracado, malvestido, a barba alva. Como ele estava sem máscara, julguei prudente afastar-me, passar o mais distante possível. Então descrevi um longo arco. Percebi que as máscaras que utilizo – uma de tecido sobre a outra, cirúrgica – despertaram sua indignação. Coisa de incréu, de descrente: caso cultivasse sua fé, circularia por aí desassombrado, destemido, indiferente à Covid-19. Foi embora louvando o Senhor:

– Ô glória!

Numa dessas noites de silêncio intermitente – há momentos em que se ouve até a brisa sacudindo as árvores lá fora – ouvi, com nitidez, uma frase que me assombrou:

– Não precisamos de vacina, temos Jesus!

Era uma mulher que pregava para um grupo. O vento trouxe a sentença firme, que caixas de som amplificavam. Frases insignificantes se seguiram, outras se perderam porque o vento indócil mudava de direção. Mas ficou claro que o discurso era um veemente desafio à ciência, aos cuidados mais elementares – individuais e coletivos – que a razão e a sensatez recomendam.

Há quem se diga cristão, mas brande suas crenças com agressividade. Neste ano de pandemia, cansei de perceber olhares rancorosos para quem usa máscara e se protege. Também já testemunhei atitudes temerárias – reuniões sem distanciamento ou máscara, aglomerações, pregações pelas esquinas – que muitos julgam como fervorosas demonstrações de fé.

Ironicamente, sempre lembro de uma passagem bíblica, muito recorrente durante a Semana Santa que terminou ontem (04). É do Novo Testamento – Evangelho de São Mateus – e envolve Jesus Cristo, que foi tentado pelo diabo no deserto:

“Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus!”’.

Parece um ensinamento bem aplicável à realidade da pandemia. Mas boa parte dos ditos cristãos brasileiros prefere a beligerância do Antigo Testamento. Afinal, só falam em guerra, exércitos, vitórias e – palavra-chave para entender o País hoje – morte. Para estes, talvez caiba mais uma frase antológica de João Guimarães Rosa que está lá em “Grande Sertão: Veredas”, sua obra-prima:

– Deus mesmo, quando vier, que venha armado!

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