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O Restaurante Popular e o “Elefante Branco”


Quando a Prefeitura Municipal pretende inaugurar o Restaurante Popular no Centro de Abastecimento? Arrastando-se há anos, a obra corre o risco de cair no anedotário popular, assim como o Metrô de Salvador, que já completou dez aninhos. No primeiro Governo Lula os restaurantes populares espalharam-se Brasil afora, vendendo refeições ao valor simbólico de R$ 1,00. Muitas prefeituras – particularmente as de capitais como Salvador – aderiram à proposta que se tornou uma alternativa para os trabalhadores mais pobres.
A saga do restaurante pintado de branco no Centro de Abastecimento começou com uma festiva notícia. Em 5 de julho de 2005, anunciava-se uma parceria entre a Prefeitura e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) para a construção do espaço. Três meses depois, nova notícia: o acordo, envolvendo investimentos estimados em R$ 1,4 milhão, fora finalmente assinado em Brasília.
A Lei Municipal 2.616, que instituiu o Plano Plurianual (PPA) 2006-2009 em 14 de outubro de 2005, foi o próximo passo para a construção do equipamento. Com valor estimado em R$ 1,476 milhão, o PPA descrevia a “construção e aparelhamento do restaurante popular”, em parceria com a Caixa Econômica Federal (CEF) órgão financiador da obra.
A licitação para a construção aconteceu no dia 2 de agosto de 2006. Logo após a assinatura do contrato, ainda em 2006, foram liberados R$ 1,402 milhão, conforme cronograma de desembolso constante na revisão do PPA, que se tornou a Lei Municipal 2.924, de 4 de setembro de 2008. Nos dois anos seguintes o desembolso foi bem menor: R$ 20 mil em 2007 e outros R$ 20 mil em 2008.

Euforia

No dia 1º de novembro de 2007 previa-se a conclusão da obra para o início de 2008. Na verdade, era a terceira mudança no cronograma: de início seria inaugurado em setembro, depois as chuvas de março (choveu em março de 2007) retardaram a previsão para dezembro e, por fim, veio o silêncio gritante ao longo do ano eleitoral de 2008. Nem as eleições municipais foram capazes de forçar a entrega da obra (assim como o Metrô de Salvador).
Segundo a propaganda oficial, o restaurante ofereceria mil refeições diárias a R$ 1,00, contemplando trabalhadores das imediações com pratos com alta qualidade nutritiva. Pelo visto os feirenses terão que aguardar um pouco mais, já que ainda há ações em curso, pois a revisão do PPA de 2008 prevê a aplicação de R$ 34 mil em 2009.
Há dois anos, quando recomeçávamos nossa trajetória na Tribuna Feirense, inclusive abordamos a questão: como ficaria a situação dos inúmeros proprietários de pequenos restaurantes do Centro de Abastecimento frente à inevitável concorrência do restaurante popular?

Sem respostas

Passados dois anos, tudo permanece no mesmo: o restaurante não é inaugurado e a prefeitura não move uma palha para qualificar ou redirecionar as atividades dos pequenos comerciantes e trabalhadores que dependem do comércio de alimentos no entreposto. Situação pior é impossível.
Infelizmente na Bahia a política se conduz assim: na hora de capitalizar, não faltam “pais para a criança”. Há quem reivindique a autoria de obra que diz que pensou – diz que pensou - em fazer, mas não fez e ficou para a gestão seguinte. Por outro lado, quando surge o primeiro obstáculo, todo mundo se impõe um silêncio obsequioso. E conta com a falta de memória da população.
Vire e mexe, porém, o feirense passa ali pelo lado do Centro de Abastecimento, a pé ou de ônibus. Olhando à esquerda, vê, paquidérmica, a construção branca. Dessa vez, pelo menos, não dá para fingir que não existe um “elefante branco”, embora não se compare à usina nuclear de Angra dos Reis, à Transamazônica e aos estádios das capitais do Nordeste que nunca lotam...

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