Pular para o conteúdo principal

Postagens

Divagações de fim de noite de domingo

  A chuva miúda que cai das nuvens avermelhadas – minúsculas gotículas – dilui um pouco as luzes da Feira de Santana. Mais à frente dilui a própria paisagem, que se condensa em sombras indistinguíveis lá para os lados do centro da cidade. Venta um vento frio. Mas ele é insuficiente para sacudir a copa encharcada das palmeiras imperiais, que pendem, luzidias. Faz 21 graus, segundo a tela do computador. Ninguém desafia o calçamento encharcado. É uma noite de domingo digna de cena de cinema. A manhã de domingo também foi bem característica: céu azul, vento suave, luz cariciosa do sol, uma paz na atmosfera que até contagiava os espíritos. Destoando de tudo, só uns urubus voando distantes, em círculos, farejando carniça. Depois vi alguns deles bem miúdos, no alto do céu. Tão altos que até inspiravam um silêncio que se somava ao clima ameno, à mansidão do domingo. A pandemia favoreceu essas observações gratuitas, sem propósito. Antes dela, todos andavam amarrados, escravos de suas ag...

Vacinação avança, mas as mortes por Covid-19 também

  Até o momento, 187.381 feirenses receberam ao menos a primeira dose de uma das vacinas contra a Covid-19. Os imunizados com as duas doses somam 72.079 pessoas, pouco mais de 10% da população estimada do município. Até agora, 265.606 doses foram encaminhadas para aplicação aqui na Princesa do Sertão. As informações, referentes a hoje (25), constam no Vacinômetro, página mantida na internet pela prefeitura sobre o andamento da vacinação. Lentamente – as vacinas chegam a conta-gotas – vai se aproximando da metade da população adulta imunizada. O empenho dos profissionais de saúde que atuam no município e a estrutura do Sistema Único de Saúde, o SUS, vem alavancando estes números. Ainda bem que os mentecaptos lá no Planalto Central não conseguiram destruir o SUS antes da pandemia. Senão, a carnificina seria muito maior. Citando números, é bom lembrar que a Feira de Santana vai se aproximando de mais uma triste marca. Dados da Central de Informações de Registro Civil – CRC Naciona...

Comércio aberto no São João não emplacou

  Dizem que, no Brasil, há leis que pegam e outras que não pegam. Esse negócio de comércio aberto em feriado – pelo menos aqui na Feira de Santana – parece que funciona na mesma toada. Hoje (24), dia consagrado a São João no calendário católico, a autorização para o comércio funcionar entusiasmou pouco. Pela manhã até havia loja aberta, algum movimento de passantes. À tarde, tudo era desolação. Na Sales Barbosa, na manhã de céu cinzento, até havia passantes. Quem trabalhava, ficou de prosa, porque cliente era coisa rara. À tarde – havia uma luminosidade úmida sob o azul puríssimo – a quietude, densa, se impôs. O que havia de movimento era o voo desajeitado dos pombos. Na Senhor dos Passos, até havia gente. Pouca, mais havia. Afinal, ali funcionam badaladas lojas de departamento. No fundo, o comércio aberto aos domingos e feriados – com a frequência persistente dos últimos meses – atende, basicamente, este segmento. Só as grandes redes para bancar o adicional do comerciário e ap...

O São João no Centro de Abastecimento

  Sempre que penso nos festejos juninos, lembro do Centro de Abastecimento da minha infância, nos anos 1980. À época, o entreposto era destino obrigatório no 23 de junho, véspera de São João. Para ele o feirense acorria, lá abastecia-se para o tradicional festejo, tipicamente nordestino. Corredores e escadarias eram avidamente disputados pelos consumidores. Naquele tempo, a cultura da feira-livre era mais sólida, mais arraigada. Supermercados, mercadinhos e suas conveniências não encantavam o feirense, ainda muito vinculado aos hábitos rurais. Intuía-se a multidão desde antes dos limites do entreposto. Velhos ônibus, paus-de-arara, carroças, bicicletas, motos, utilitários e automóveis disputavam os estacionamentos das cercanias. Afora a ruidosa multidão de pedestres. Garoto, encantava-me com aquela agitação – movida por uma sensação festiva – que se renovava a cada ano. O São João era aguardado com ansiedade. A ânsia mercantil impunha o caos ao setor atacadista, eriçando até se...

Carne em self service virou luxo de rico

  Lembro bem que, em 2018, os combatentes do “comunismo” diziam que o socialismo – muita gente acreditou na empulhação de que o Brasil marchava para um regime “socialista” – era a disseminação da pobreza, da miséria. Para freá-lo, era necessário optar pelos liberais, aqueles que eram porta-vozes de um novo tempo. Nele, a prosperidade aguardava quem se esforçasse o suficiente e acreditasse na meritocracia. Muitos incautos aderiram ao discurso com entusiasmo, julgando-se potenciais milionários logo ali na frente. Deu no que deu. Há incontáveis perspectivas para analisar o atoleiro em que a extrema-direita meteu o Brasil. Escolhi uma, com a qual me deparei num prosaico almoço em Caxambu, no sul de Minas Gerais. Um curto período de férias e razões familiares levaram-me à agradável cidade do circuito das águas. E um almoço num restaurante espaçoso, mas vazio, conduziu-me a algumas constatações. Num quadro na parede do restaurante que serve comida mineira, a clientela depara-se com o...

Liberação da Sputnik V traz esperanças

  Depois de muitas idas e vindas, finalmente hoje (04) a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, liberou a importação e o uso da vacina russa Sputnik V no Brasil. Inicialmente, serão importados quatro milhões de doses, segundo noticia a imprensa. Também hoje foi autorizada a importação da vacina indiana Covaxin. Seis estados do Nordeste – incluindo a Bahia – foram os autores do pedido de importação da Sputnik V liberado nesta sexta. A autorização vinha se arrastando há meses, enquanto a pandemia da Covid-19 avança, com crescimento no número de casos da doença e de mortes. Com a decisão, começa-se a vislumbrar luz no fim do túnel: os estados nordestinos adquiriram 37 milhões de doses do imunizante; só a Bahia comprou 9,7 milhões de doses, cuja importação dependia da decisão anunciada hoje. A chegada dos imunizantes ao longo do ano vai impulsionar a vacinação, permitindo a retomada da atividade econômica e o gradual retorno à rotina, que se esfacelou a partir da chega...

Confidências de um brasileiro desolado

  – Olha, se eu pudesse, eu ia embora disso aqui. O problema é que eu já passei dos quarenta, não tenho para onde ir e acho que ninguém vai me aceitar lá fora. Quando eu era mais jovem, acabei me empolgando, achando que isso aqui tinha jeito, que estava mudando, melhorando. Conversa! Vira e mexe, a gente repete o passado... Ficou calado durante alguns instantes, o olho muito aberto, fitando os transeuntes. Parecia que o filme da vida dele ia passando diante dos seus olhos. E, o que era pior, o filme da vida que poderia ter sido, mas que não foi, nem poderá ser. Com a máscara encobrindo a boca e o nariz, os olhos se sobressaíam, refletindo talvez o lábio contraído numa expressão de contrariedade, a respiração ofegante. – Até passei no vestibular para História. Fiz uns semestres, aprendi o suficiente para saber como é que as coisas funcionam neste país. Mesmo assim, não pensei no futuro, pelo menos não neste futuro que podia repetir o passado. É nele que estamos... Conjecturei ...