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É São João, apesar da pandemia

  Publicado originalmente em Junho/2020 O inverno começou com chuva aqui na Feira de Santana. O sol pouco apareceu desde sábado e, quando o fez, estava sempre cercado de nuvens. O costumeiro tem sido as nuvens plúmbeas e cor de aço rolando pelo céu da cidade. Sob elas, uma luz pálida, cinematográfica. Às vezes – sobretudo à noite – a garoa se desprende, encobrindo a cidade com uma cortina prateada. Sob as sombras, a chuva que a luz avermelhada dos postes reluz se acumula em poças miúdas sobre o calçamento luzidio. Nos intervalos da chuva, as nuvens avermelhadas correm por detrás das torres metálicas do centro da cidade com suas lâmpadas vermelhas, tristonhas, que piscam, melancólicas. Só o estrépito e o colorido dos fogos, esporádicos, espantam um pouco a monotonia que paira, pesada, noite afora. É nesses momentos que se resgata a lembrança de que o São João se aproxima, mesmo com a pandemia e suas apreensões e incertezas. Apesar das recomendações médicas contrárias, tudo indic...

A (r)evolução tecnológica e o fim das redações

Mês que vem completo 25 anos no jornalismo. Faz tempo: cheguei à redação do extinto Feira Hoje em busca de uma oportunidade como revisor. Tornei-me repórter. O jornal integrava o Sistema Nordeste de Comunicação, uma cadeia de jornais e emissoras de rádio e tevê. Naquela época, o Feira Hoje funcionava ali no Mar da Tranquilidade, junto com a Subaé AM e a Nordeste FM. Era diverso e muito rico aquele ambiente, que fervilhava com os grandes acontecimentos da Feira de Santana. Convivi com grandes profissionais naquela redação. Creio que ninguém pensava – e eu também não – que tudo fosse mudar tanto no intervalo de uma geração. À época, os jornais modernizavam seu design , incorporavam tecnologia, tornavam-se mais atraentes para seus leitores. Era intenso, portanto, o esforço dos impressos para se tornar cada vez palatáveis. Note-se que buscavam modernizar-se, mas seguiam herdeiros da tradição centenária do jornalismo impresso. Nos anos seguintes, tudo aquilo ia começar a mudar. O acesso...

“Nova política” desaguou em Rio das Pedras

Publicado originalmente em Junho/2020 Lembro bem do furor moralista, das disposições messiânicas, do afã redentor de parte dos eleitores de Jair Bolsonaro, o “mito”, em 2018. Passadas as eleições e consumada a funesta vitória, muitos se converteram em implacáveis acólitos, foram encorpar as matilhas digitais que se dedicaram a fustigar a imprensa ou qualquer voz discordante desde 2019. Brandiam a “nova política”, uma nova era sem corruptores e corruptos. O fiasco veio a galope: a “nova política” desaguou em Rio das Pedras. Sozinho na badalada live semanal, o “mito”, ontem (18), parecia aturdido com a prisão do seu ex-faz-tudo, Fabrício Queiroz. Acomodado no gabinete de um dos filhos de Jair Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Queiroz é suspeito de gerir uma “rachadinha” milionária. Em proveito do filho do “mito”, claro. É o que suspeitam os investigadores. Pelo que noticia a imprensa, há evidências. Suspeitas do gênero não são inéditas na política e, talvez, até...

A fake news do traficante “Robertinho de Lucas” morando na Feira

Em janeiro de 1997 causou alvoroço na Feira de Santana a notícia de que o traficante carioca José Roberto da Silva, o “Robertinho de Lucas”, estava residindo na cidade havia dois anos. Mas não apenas isso: ele até se estabelecera como comerciante por aqui. Naquela época, “Robertinho de Lucas” era o criminoso mais procurado pela polícia do Rio de Janeiro. Uma agência de notícias divulgou a informação para o Brasil inteiro, colocando a Feira de Santana no noticiário policial nacional. A prisão do traficante aconteceu na Estação Rodoviária do Recife, em 8 de janeiro. Lá, ele aguardava o desembarque da mulher e da filha de um ônibus interestadual. Foi capturado por agentes da Polícia Civil do Rio de Janeiro e, no mesmo dia, recambiado para aquele estado. Aquela prisão rendeu manchetes nos jornais e longas matérias na tevê. No mesmo dia, circulou a notícia de suas conexões com a Feira de Santana. Era fake news – expressão que não se usava à época –, conforme esclareceu, por telefone, o...

Números dirão se reabrir comércio é correto

Publicado originalmente em Junho/2020 Ontem (15) foram registradas mais cinco mortes decorrentes do novo coronavírus na Feira de Santana. A informação é da Secretaria Municipal de Saúde. Na sexta-feira, ocorreram mais seis óbitos. Num intervalo de três dias, portanto, foram onze mortes. No total, 33 pessoas morreram em função da doença no município. Isso significa que um terço das mortes foi notificada nos últimos dias. Nem é preciso estar muito atento ao noticiário para perceber que, por aqui, a Covid-19 está ainda em franca disseminação. Mesmo assim, o prefeito Colbert Filho (MDB) anunciou ontem a reabertura do comércio. Foi anunciado um escalonamento – uma espécie de revezamento – por ramo de atividade. Os shoppings serão reabertos. Anuncia-se, como sempre, que rigorosos protocolos serão aplicados – e fiscalizados – para evitar a disseminação da doença. Aqui, até a semana passada, criticavam-se os baixos índices de isolamento social, sempre abaixo de 50%. Os apelos para que o fe...

Godofredo Filho e a visita de Manuel Bandeira à Bahia

  “Nunca vi uma cidade tão caracteristicamente brasileira como a ‘boa terra’. Boa terra! É isso mesmo. A gente mal pisou na cidade baixa e já se sente tão em casa como se ali fosse a grande sala de jantar do Brasil”. Essas foram as primeiras impressões do poeta Manuel Bandeira sobre Salvador, numa visita à cidade, na primeira metade do século XX. Na capital baiana, o poeta dedicou-se às igrejas – visitou uma porção delas – e registrou, em uma crônica batizada, singelamente, de “Bahia”, aspectos urbanísticos e arquitetônicos do centro histórico. Quem lê a crônica – publicada, originalmente, no livro “Crônicas da Província do Brasil”, de 1937 – impressiona-se com o conhecimento arquitetônico e as detalhadas descrições do poeta. Mas, quem conhece sua trajetória não se espanta: entre 1903 e 1908 Manuel Bandeira frequentou a Escola Politécnica, em São Paulo. Pretendia tornar-se arquiteto, mas a tuberculose frustrou suas pretensões, forçando-o a uma longa temporada de cura na Suíça. ...

O caos segue em frente com toda calma do mundo

Publicado originalmente em Junho/2020 Que dizer do avanço do novo coronavírus na Feira de Santana? Só ontem (12) foram confirmadas mais seis mortes. Outros 110 casos se somaram às notificações anteriores e, agora, o município totaliza 1.416 casos. A quantidade de óbitos começa a inquietar: com os seis de ontem, já são 28 contabilizados. É bom lembrar que, no começo da pandemia, as mortes eram raras, mas, nas últimas semanas, se aceleraram. O pior de tudo é que o País está distante do pico de casos e mortes e do aguardado declínio da pandemia. As previsões mais otimistas – projeções se sucedem vertiginosamente no noticiário, à medida que novos números são computados – empurram para agosto o pico. Só a partir de então, apostam os mais confiantes, é que os registros tendem a declinar. Começa a ser fastidioso recordar que o isolamento social e as medidas preventivas estão sendo abandonadas por parcela significativa da população. A culpa – no senso comum –, como se sabe, é sempre do pod...